Duas figuras, dois personagens de Brasília

Por Marcelo Torres

 Brasília tem dois tipos de moradores que são a cara da cidade. Dois retratos, duas“instituições” que marcam o cotidiano da capital do país.

O primeiro não é benquisto por essas bandas, um tipo meio maldito e bastante temido. Ele é um jovem brasiliense, ainda vai fazer 17 anos, e pode ser visto na cidade a cada dois quilômetros. Está sempre firme, ligado. É um tipinho imponente, todo-poderoso, infalível, absoluto. E mais: é um tipinho frio, calculista, impassível, rigoroso. Mas, reconheçamos, ele faz a lei num piscar de olhos – dura lex, sede lex.

Ele é um dos olhos da lei. Seus inimigos e desafetos, que não são poucos, vivem reclamando que ele só age às escondidas, meio disfarçado entre árvores, sempre à espreita para entrar em ação. Escondido ou não, é tido e havido como uma estranha criatura, um ser esquisito, parece até um extra-terrestre. As pessoas, sejam elas do bem ou do mal, tomam todo o cuidado do mundo ao passar pela figura. Pelo que se sabe, ele nunca matou índio nem garçom, e ainda assim é temido, muito temido esse jovem brasiliense.

Já o outro tipo, o seu xará, não tem lá esse poder todo. Nem é maldito ou temido; ao contrário, parece um coligado seu, um amigo que entra na sua casa e come à mesa. Uns o veem como um folgado, um entrão. Mas a maioria o tem em boa conta. Ele nasceu na Europa há um bom tempo, portanto já é um velhinho. Chegou ao Brasil pelo Rio de Janeiro, chamado para combater a febre amarela. Foi um dos pioneiros de Brasília, onde vive de comer migalhas e restos de comida.

Uns místicos e supersticiosos falam que a presença deste segundo tipo atrai insucessos, desgraças, infortúnios. Outros dizem que ele é querido e bem recebido em alguns países europeus; quando ele chega lá e canta, é sinal de boas novas, uma chuva esperada, uma surpresa agradável, um desejo realizado.

Bom, meus caros, antes que vocês morram de curiosidade, eu vou lhes dizer quem são esses tipinhos de Brasília: são os pardais. Sim, os pardais. Dois tipos de pardais que habitam essa cidade (o pardal passarinho, que tem asas, penas e não multa; e o pardal radar, que não tem asas, não tem pena e multa sem pena).

Os pardais dos primeiros parágrafos são os radares que fotografam placas de carros que ultrapassam os limites de velocidade. Já os pardais dos outros parágrafos são aquelas aves de nome científico passer domesticus, ou seja, os pardais pardais

Os primeiros (os radares) vivem presos nos postes, não têm asa nem pena, portanto não voam – mas multam sem pena, multam que é uma beleza. Já os outros (passarinhos) vivem soltinhos da silva, folgados que só eles – têm asa e pena, portanto voam, mas não multam ninguém.

Os de pena e asas foram pioneiros em Brasília, como se Dom Bosco lhes tivesse revelado em primeira mão o suposto sonho que falava de uma terra prometida, que seria aqui nesses paralelos, de onde haveria de jorrar leite e mel – só que até agora não jorrou foi nada.

Os pardais povoam a cidade, às vezes parecendo os únicos habitantes. Ou os últimos.

Os de pena velam mortos nas cercas do cemitério, disputam milho com pombos na Praça dos Três Poderes e vivem cagando na cabeça da “Ceguinha” – o apelido da escultura que fica na frente do prédio do Supremo Tribunal Federal.

Eles ficam olhando a tudo e todos do alto dos prédios e fios elétricos. Depois voam para as árvores e para os parques, para cantarem com as gralhas, com as cigarras, com os bem-te-vis. Não raro beliscam migalhas na solidão do asfalto.

É cena comum, em Brasília, um pardal entrar na sua casa ou apartamento, no momento em que você senta para tomar café ou almoçar. Ele chega em silêncio, pousa à janela e fica olhando. Se você o espanta, ele voa, vai embora. Se você cala -como a consentir -, ele pula para a mesa ou para o chão, bica uns tiquinhos de alimentos, dá três saltinhos e voa de volta para a rua, feliz da vida.

Mas não pense você que é fácil a vida do passer domesticus em Brasília, essa cidade cheia de prédios espelhados, como se fosse a cidade dos espelhos. Nesses edifícios, eles não entram de jeito nenhum. Ao contrário, muitos deles morrem ao se chocarem com as paredes espelhadas. Um desses prédios é a suntuosa sede da Procuradoria Geral da República (PGR), onde todos os dias um funcionário recolhe, sobre os pés das paredes, dezenas de passarinhos mortos.

Por outro lado, os pardais multadores (radares) têm uma história curiosa. Eles nasceram em Brasília, portanto são brasilienses – ou candangos. Aqui eles surgiram em 1996, no Eixão. Foram dois: um na 111 Norte, outro na 110 Sul. Ou seja, os pardais nasceram nas asas desse avião chamado Brasília.

Quem deu o apelido de pardal foi um tal Moysalvo Albergaria, que era motorista de Luiz Miúra, diretor do Detran à época. A história é narrada pelo jornalista Antonio Vidal, no livro “É possível: as realizações do engenheiro Cristovam Buarque rumo a uma nova esquerda”, publicado pela Geração Editorial em 2006.

Li no livro que o então diretor do Detran queria que o nome do aparelhinho fosse pica-pau. Chegou a chamá-lo por esse nome, mas a ideia não vingou. Eu fico cá pensando: esse aparelhozinho deveria ser chamado de corvo, ou águia, ou urubu, ou coruja, corujão, corujinha, falcão. Mas o que “pegou” mesmo foi pardal.

Moysalvo era alvo de gozações e cobranças sempre que levava o chefe para algum evento e ficava aguardando a hora de ir embora no meio de outros motoristas. ‘Pô, Moysalvo, seu chefe quer acabar com a gente. Agora é multa toda hora’, diziam. Em um desses encontros, Moysalvo respondeu que o sistema agora estava mais sofisticado. ‘É melhor vocês terem mais cuidado ainda porque, de agora em diante, o diretor está contratando uns pardaizinhos que vão ficar nos postes e vão dedurar quem correr demais’, disse. O diretor do Detran contou o caso a um jornalista, que publicou a história e o nome pegou. Os radares viraram pardais e são chamados assim em praticamente todo o país. Anos depois, já aposentado, o ex-diretor do Detran não resistiu e fotografou uma placa que viu no interior do Rio Grande do Sul. “Rodovia fiscalizada por pardal”. Mandou a foto para Moysalvo.” [VIDAL, 2006, p.163]

Eis aí a história desses xarás que são personagens da vida brasiliense. Aqui, não tem jeito, todo dia, de dia ou à noite, você vê os pardais. E não adianta você se esconder, pois eles também estão de olho em você. Sorria, você está sendo filmado. Filmado pelos pardais.

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Marcelo Torres, autor do livro “O bê-á-bá de Brasília” – marcelocronista@gmail.com [se for repassar, não mude o texto nem a autoria].

Organizando uma livraria

Esse video feito por dois livreiros de Toronto no Canada. É incrível. Vale assitir.

Imagem de Amostra do You Tube

Apologia de Brasília

Por Gilberto Freyre

José Adirson de Vasconcelos escreveu sobre Brasília um livro liricamente apologético. Quase um poema em prosa.

Brasileiro de Pernambuco (… cearense) integrado em Brasília, nele há alguma coisa daqueles “cantadores” do Nordeste cuja espontaneidade e cujo talento de improvisação vêem exaltados numa das páginas do seu “Julgamento de Brasília”. Sua atitude em face de Brasília é a do lírico, a do cantador, a do trovador que louva a bem amada.

De modo que o título do livro parece a alguns de nós inexato: apologia é o que ele é. Louvação. Exaltação. Nunca um julgamento. Nem julgamento nem análise: apologia.
Apologia que Brasília merece da parte dos jovens que, vindo de diferentes partes do Brasil, estão encontrando na nova Capital da República uma espécie de “happy end” para a sua busca romântica de uma cidade sem os defeitos das antigas. Nova. Novíssima. Com os seus próprios defeitos ao lado das suas próprias virtudes. Condição que Brasília realiza: seus principais defeitos são especificamente seus. Suas principais virtudes também são peculiarmente suas.

Capa do livro "Conheça Brasília lendo Adirson Vasoncelos"

José Adirson de Vasconcelos exalta essas virtudes. E o faz com a sinceridade de quem ligou a mocidade à Brasília como a uma dama que o acolhesse com o seu melhor amor.
Conheci, mais de perto em Brasília, esse admirável José Adirson de Vasconcelos. Ele não é em pessoa senão a confirmação do que é como autor de livro: um constante apologista de Brasília.

Levou-nos, a mim e a minha mulher, a ver meia-Brasília, como quem nos revelasse aspectos de uma cidade ideal. E confesso que quando nos fez visitar uma das escolas primárias da nova Capital brasileira senti-me verdadeiramente numa cidade ideal. Nunca me esquecerei da manhã que passamos nessa escola encantadora: tão de Brasília, tão dos Brasis, tão do Brasil. Nem da escola nem de José Adirson Vasconcelos, espectador do meu encantamento diante da escola a que nos conduzira. Era como se dissesse o tempo todo: “Veja que não exagero quando exalto Brasília”. Naquele particular, não exagerava. Escolas de Brasília como aquela fazem que até os pessimistas confiem em Brasília: no seu futuro.
O seu destino de cidadão de Brasília, é o de viver Brasília amorosamente, liricamente, voltado intensamente para o futuro da cidade.

Pela voz desse livro falam muitas vozes de jovens brasileiros de diferentes origens, agora cidadãos de Brasília. É bom que eles sejam, como José Adirson de Vasconcelos, entusiastas, amorosos, quase fanáticos, da sua cidade ideal. E saibam mostrar aos visitantes de Brasília as escolas primárias: as encantadoras escolas primárias de Brasília. Aquelas escolas em que Brasília está se formando para dar exemplos da ética e da arte da cidadania às demais cidades do Brasil.

Gilberto Freyre é  sociólogo, nome brasileiro de projeção internacional, escreveu este Prefácio em 1966. Adirson Vasconcelos considera-se um seguidor do mestre Dr. Gilberto, a exemplo do que ocorre com muitas outras personalidades brasileiras, entre as quais o senador Marco Maciel e o ministro Marcos Vinicios Vilaça, este atual presidente da Academia Brasileira de Letras.

Consulte os nomes que fizeram e fazem a história de Brasília no site: www.adirsonvasconcelos.com.br

Livro sobre a Caixa de Pandora e outras tratantadas da política brasiliense

Pandora

Capa do livro "Pandora" de Ricardo Callado

Os seis meses que antecederam a deflagração da Operação Caixa de Pandora são o ponto de partida deste livro, que bem retrata o atual momento político da Capital do País. O jornalista Ricardo Callado, com quem tenho a grata satisfação de trabalhar, relata as entrelinhas dos acontecimentos que culminaram no maior escândalo político vivido em Brasília, seus personagens, os conchavos, as intrigas, as chantagens, a briga pelo poder, os acontecimentos que não apareceram nas matérias jornalísticas e as consequências para a cidade, como o revezamento de governadores no Distrito Federal, chegando a quatro em 2010.

Com uma linguagem simples e envolvente, Ricardo Callado coloca o leitor em alguns cenários sombrios, onde foram arquitetados o plano de derrubada do governador José Roberto Arruda e a briga pelo comando do Palácio do Buriti. Também relata episódios como o do jantar oferecido pelo ex-governador Joaquim Roriz na véspera de ser “aberta” a Caixa de Pandora.

O livro expõe, ainda, as ligações perigosas entre os principais personagens do escândalo, as negociações nada republicanas, as trapalhadas dos políticos, os erros cometidos pelo grupo que tentou tomar de assalto o GDF e a loucura de alguns que chegaram a defender a intervenção federal no Distrito Federal.

A leitura também serve de reflexão para se chegar às verdadeiras intenções do operador e delator do esquema, Durval Barbosa, e a quem ele estaria servindo. Por fim, mostra o cenário de terra arrasada na economia e na política, os bastidores das Eleições de 2010, e o retorno do Partido dos Trabalhadores ao Palácio do Buriti, com a vitória do governador Agnelo Queiroz.

O jornalista Ricardo Callado presenciou alguns destes acontecimentos e retratou as entrelinhas em seus artigos no Jornal da Comunidade e em seu blog. Trata-se de um registro histórico da política de Brasília e serve de alerta para que fatos como os que seguem aqui relatados não caiam simplesmente no esquecimento e venham a se repetir na Capital da República.

Por Ronaldo Junqueira do prefácio do livro:  Pandora e outros fatos que abalaram a política de Brasília”.


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Cega, surda e ignorante

 Por Eugênio Giovenardi


Não consegui, no Google, números estatísticos sobre cegueira, surdez e ignorância de brasileiras e brasileiros, mais especificamente, da espécie brasiliense. Tenho me guiado, ultimamente, pelo óbvio evidente e ululante. Posso afirmar que o número é magno. Há milhares, se não milhões, de brasileiras e brasileiros cegos, surdos e ignorantes. Cegos ou analfabetos. Surdos ou mentalmente incapazes. Ignorantes ou espertos atentos às vantagens imediatas.

Para não cansar um possível leitor com estas considerações, restrinjo-me à atitude da espécie brasiliense (homo cerratensis) com relação ao lixo depositado nos contêineres espalhados pelas Superquadras do Plano Piloto, bairros circunvizinhos ou simplesmente jogado à beira das rodovias.

Estou em frente aos dois contêineres do Bloco T da SQS 406. Um se destina ao lixo orgânico para ser transformado em adubo. Mas o que vejo, ali, é mistura de roupa, plásticos, restos de comida, cacos de vidro, e objetos invisíveis dentro de sacos pretos ou azuis. O outro é para o denominado lixo seco. Ali, o absurdo é impressionante. Empilhados, estão isopores que envolviam eletrodomésticos, caixas de papelão, garrafas de vidro, garrafas plásticas, latas, jornais e revistas, partes de mobília, cacos de cerâmica, baldes rotos e, para completar, restos de comida.

Entre os pouco mais de 70 moradores do Bloco T há bancários, oficiais de justiça, engenheiros, professores. Quase todos os carros que servem aos moradores são novíssimos, asiáticos ou franceses. O descaso, a indiferença, a displicência da atitude dos moradores diante dos efeitos do lixo sobre o belo e frágil bioma cerrado, misturado nos contêineres e ao longo das rodovias, só podem ter um atenuante: ausência total de informação, de leis, de avisos e de consciência ambiental. A desculpa, com certeza, recai sobre as diaristas, faxineiras e empregadas domésticas. Quem as orienta? A espécie brasiliense atingiu a marca de dois milhões e seiscentos mil habitantes com direito a produzir o mesmo volume em quilos de lixo por dia.

Ao ver a confusão e a mistura de lixo nos contêineres e ao longo das rodovias, obrigo-me a concluir que a espécie brasiliense, em número alarmante, está atacada de cegueira, surdez e ignorância. Incluo, nesse número, os administradores de uma dezena de órgãos públicos criados para orientar, fiscalizar, controlar, impedir e sancionar os criminosos ambientais.

A alternativa é, com extrema urgência, curar a cegueira, a surdez e a ignorância da espécie brasiliense.
Eugênio Giovernardi é