A ganância e a falta de respeito
20/06/2006
A notícia veiculada na imprensa local de que as livrarias estão cobrando jabá para expor livros em suas vitrines não assusta tanto quanto já era de se esperar. Como diz o grupo de rock Titãs: “Nada causa mais espanto.” O passar dos dias numa sociedade capitalista tem comprovado que frente ao capital tudo tem um preço. Como se não bastassem os descontos exorbitantes para que as grandes redes de livrarias comercializem os livros, ainda agora cobram-nos por um trabalho extra-literário, que é comercializar o fruto de anos de pesquisa e dedicação ao trabalho de escrever e publicar uma obra.
É completamente admissível que, em tempos de neoliberalismo e globalização, o profissional do riscado tenha que ser um polivalente em tudo a que se dedica fazer, mas é um exagero que queiramos que o escritor (jogador no sentido figurado) bata o córner e ainda corra para a grande área para fazer o gol de cabeça. Sim, porque também assim já é demais. A prática do jabá nas redes livreiras, que por um acordo desconta o espaço em porcentagens de venda, revela no mais íntimo esconderijo a maldade de um capitalismo selvagem que suga e impõe limites à nova literatura, além de espoliar o leitor que, desavisado, segue por prateleiras e vitrines que no fundo são verdadeiras arapucas.
Se o carro-chefe de uma livraria é a venda dos livros, e muitas delas impõem a consignação como forma de salvaguardar seu patrimônio, além dos descontos pedidos que chegam até 60% do valor de capa, tal prática é de arrepiar os cabelos, se estas mesmas redes livreiras acabam por lotear suas vitrines no intuito de pelo espaço cobrar por um serviço que está intrinsecamente condicionado à própria existência delas. Claro, não se quer discutir o sexo dos anjos. O gerenciamento de uma livraria cabe ao dono que delega profissionais competentes para administrar todo o recurso financeiro, bem como o humano. Mas, além de impor uma política que aumenta e muito o preço final do livro, querer cobrar dos autores e/ou editores para que paguem (ainda que com descontos) pela exposição dos livros em seu habitat (que seriam as livrarias) e, o pior, sem indicação para o público leitor do que está sendo oferecido pela força da grana, convenhamos, é demais.
“O rio corre para o mar”, diz um ditado popular. Talvez que revelada mais essa manobra sórdida, assim se explique a invasão das traduções nas livrarias; a aquisição no mercado global de editoras nacionais pelo capital estrangeiro; a falta de uma literatura tupiniquim ocupando e dialogando com a nossa realidade e o mau-caratismo daqueles que se preocupam apenas em “extorquir”, “ludibriar” e “fraudar” o processo de formação cultural de uma nação. Atenção, senhora ganância, é chegada a hora de repensar tal prática que acaba por desrespeitar a ordem natural do universo, antes que, com isso, se venha a matar a galinha dos ovos de ouro.
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