Música Erudita Ocidental


26/06/2006

João Carlos Taveira*

Em resposta às indagações do escritor inglês George Steiner, o amor pode e deve ser ensinado. Se as condições para o exercício de doação, em quaisquer instâncias, são precárias ou mesmo adversas, o amor deve pelo menos ser exemplo de boa convivência, de solidariedade e de humanismo entre as pessoas. Talvez a omissão no ensinamento do amor seja a responsável pela incidência de seu oposto: a intolerância, o ódio, o egoísmo. Fatores que têm gerado uma violência cada vez maior no âmbito da família e da sociedade.
Desde a antiguidade, o homem sensato e sábio tem procurado amenizar a animalidade inerente à raça humana com a difusão da arte e do conhecimento. Uns poucos plantando sementes benfazejas de harmonia e tolerância, tentando tornar o mundo pacífico e a vida um bem a ser desfrutado, por todos, com alegria e contentamento.
Para demonstrar tal predisposição, basta darmos uma olhada rápida no mundo da Música. Essa forma subjetiva de manifestação artística certamente tem conseguido prodígios inalcançáveis por outros setores como a literatura, a religião, a filosofia.
Com o crescimento dos ideais capitalistas, o conhecimento tornou-se objeto secundário em comparação com a informação. Tem-se procurado informar o indivíduo com dados e pesquisas inúteis, para transformá-lo em mero consumidor. Hoje, tudo acontece num processo massificante, já que o fundamento básico da globalização é o nivelamento por baixo. Mas quem conhece sabe escolher e optar pelos itens básicos de sua vida, sem interferência dos ditames midiáticos, cada vez mais avassaladores e restritivos.
Mas voltemos à Música. Dói imaginar uma pessoa, em pleno século XXI, sem o mínimo contato com o universo musical erudito. Há, entretanto, peças óbvias da música ocidental, desde o Barroco até os nossos dias, que têm feito a cabeça de muitos homens, mulheres e crianças pelo mundo afora. O Adágio, de Albinoni, As quatro estações, de Vivaldi, os Concertos de Brandemburgo, de Bach, são exemplos vivos. A Música aquática, de Haendel, e a Serenata noturna, de Mozart, são conhecidas por um grupo considerável de pessoas. A Sonata ao luar e a Nona Sinfonia, de Beethoven, as Sonatas para piano, de Schubert, o Concerto para violino e orquestra, de Mendelssohn, são bálsamos para a alma. As Valsas dos Strauss, pai e filho, como alegraram salões e mentes do século XIX! Ah! Como é refrescante poder ouvir as suítes dos balés O lago dos cisnes ou A bela adormecida, de Tchaikovsky, o poema sinfônico Scheherezade, de Rimsky-Korsakov, ou o Bolero, de Ravel! Que dizer, então, do Concerto para piano e orquestra nº 2, de Rachmaninov, um romântico tardio que encantou platéias do mundo inteiro?
No campo da ópera, há também peças de uma obviedade sem tamanho. Quem não conhece pelo menos a Abertura da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, ou O barbeiro de Sevilha, de Rossini, ou Carmen, de Bizet? Todas essas peças líricas, mais La traviata, de Verdi, ou a Tosca, de Puccini, deviam ser ensinadas nos colégios, de tão belas e comovedoras que são.
Um americano em Paris e Rhapsody in blue, de George Gershwin, são peças óbvias oscilando entre o popular e o erudito, mas que jamais deixaram de visitar o repertório. As nove Bachianas brasileiras e o Trenzinho do caipira, de Villa-Lobos, e Pedro e o lobo, de Prokofiev, tornam-se óbvias a partir dos filmes que animaram ao longo dos tempos.
Desconhecer o óbvio da música é sentir-se impossibilitado para a grande viagem que essa manifestação artística pode e deve propiciar a todos, indistintamente. Sem conhecimento de Bach, Haendel, Vivaldi, Haydn, Mozart, Beethoven, Brahms, Wagner, Dvorák, Lizst, Schumann, Chopin, e outros mais que eclodiram na Europa nos séculos XVIII e XIX, como abrir as janelas do espírito para a contemplação da música mágica de um Mahler, de um Bruckner, de um Sibelius, com suas melodias infinitas, quase um prolongamento daquele fogo intempestivo e revolucionário de Richard Wagner? E o que dizer de Richard Strauss, autor de Metamorfoses – um libelo contra a Segunda Guerra Mundial? E de Claude Debussy, com sua La mer e seus Noturnos? Mas, para pisar firme em chão do século passado, há que se beber nas águas cristalinas da música nova de um Janacék, de um Stravinsky, de um Schoenberg, de um Bartók, de um Alban Berg, de um Philip Glass, de um Radamés Gnattali, de um Marlos Nobre, de um Claudio Santoro (aclamado na Alemanha e em toda a Europa, e ainda pouco conhecido no Brasil). Há que se tirar cera do ouvido para buzinas, panelas, violinos, trompas e fitas magnéticas de um Stockhausen, de um Varèse, de um Jorge Antunes (professor da Universidade de Brasília, muito admirado na França).
Poder-se-ia ficar aqui desfiando centenas de nomes importantes da Música Ocidental, uma das mais importantes do planeta. Todavia, opta-se pela mais óbvia das constatações: há mais riqueza musical a ser desvendada pelos sentidos do que supõe a vã necessidade do homem de balançar o corpo e entorpecer a mente, entre fugas e fugas da realidade.
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*João Carlos Taveira, poeta e crítico literário, nasceu em Caratinga, MG, e reside em Brasília desde 1969. Autor, entre outros livros, de Aceitação do Branco, A Flauta em Construção e Arquitetura do Homem seu mais novo lançamento pela Thesaurus Editora. Pertence à Associação Nacional de Escritores, à Academia Brasiliense de Letras, ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.

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