O poeta no trabalho com sentido
20/07/2006
Por Maria Pereira*,
Especial para revista Nós Fora dos Eixos
O desafio que o poeta Weber Jacoud, autor de Poemas Emblemas, toma para si e expressa em seus versos é por demais cativante. Ele tenta desvelar os sentidos de seu mundo, do Ser, dele mesmo, do outro, da humanidade e, principalmente, da arte que faz. Está determinado em conceder a todas suas construções poéticas. O próprio Weber Jacoud afirma que “seu afazer é escrever poemas”. Dedica-se a este desafio com tal afinco que o transforma em ofício; o que revela em diversas passagens dos poemas aqui apresentados.
Convite
A isto posso me dedicar sem confisco.
Sou amador sem doer em ser.
Escrevendo a bel prazer,
Deixo ver o que fazer em escrever
Daí, me tornar relevante
Depende de você,
Meu confidente.
Aqui, o poema que abre a 1ª edição do livro, de igual título, foi revisitado, reformado. O resultado traz a marca da lapidação dos sentidos e nos oferece a possibilidade da comparação:
Antes:
Tornar-me sorridente
Depende de ti
Meu confidente
Depois:
Daí, me tornar relevante
Depende de você,
Meu confidente.
Antes, sorridente funcionava melódica,mente com confidente, mas transferia ao leitor – o confidente – a responsabilidade pela alegria ou não do poeta. Depois, com a substituição de sorridente por relevante, o leitor é então chamado a exercer o seu papel, afinal, cabe a ele a tarefa de julgar a relevância do que lê.
A expectativa em torno da reação do leitor faz parte do processo de comunicação que Webere jacoud inicia em sua obra. Não por acaso, há uma forte presença da função de linguagem conativa – quando a mensagem refere-se ao receptor ou destinatário da mesma – no conjunto dos seus poemas. Por esta razão é que continua fazendo sentido abrir o livro com Convite, como na primeira edição, mas com o sentido lapidado, como se apresenta agora:
Daí, me tornar relevante
Depende de você,
Meu confidente.
Outro exemplo de como o autor fala diretamente ao leitor:
Para Você
Meu confessor,
Revelo para seu bom humor:
Pretendo seu louvor.
Faz parte do desafio do poeta preencher de sentidos o acaso, o dia-a-dia, tudo que é recanto vazio e ainda as trevas. O caminho da semântica, complexo e dinâmico, é sempre experimentado como que numa encruzilhada com a existência do autor de Receita de
Psicotrópico:
(…)
Escrevo qual penso
Senso-tenso
Intenso
Quanto papel pretenso!
A que rara categoria pertenço?
Dos que ainda precisam de lenço?
Leia, antes de guardar
Seu remédio não é consenso.
(…)
Mas o poeta que define inspiração é paciente e não cansa de trabalhar:
Analítica
Inspiração é esta situação
Vem de tudo e do nada;
Palavra sempre à espera
De parada orquestrada.
Weber retoma seu trabalho com uma dedicação de discípulo e nisto se faz mestre. Nos campos da poesia seus passos deixam rastros de um grande garimpador de sentidos. Ora confidenciando sua existência e experiência ao leitor, ora declarando-as ao papel, ele estabelece um diálogo singular com os sentidos. E faz bem ao ousar um tom de erotismo como em Companheira Celulose:
É pronta, só falta minha ponta
Delineada para minha espada.
Só tua é minha tamanha dedicação!
Destrua este apuro a que me remete
Em sua brancura onde me atura!
Assim, entendemos quão virtuoso é o homem, Weber Jacoud, que descobriu na arte poética seu alívio, seu fio e ofício.
Prezada
Encontrar tanto conteúdo
Que não me deixe mudo
Porque ele é solícito quando as linhas da vida pedem composição.
Bravo!
* Maria Pereira é jornalista e professora de Comunicação da faculdade Brasília.
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