Por que as livrarias morrem?

Por Emir José Suaiden*

Mais uma notícia trágica: a Livraria Nobel do Pátio Brasil vai fechar e todo seu estoque, cerca de 20.000 livros, serão vendidos com grandes descontos. Nos últimos anos nos acostumamos a ouvir essas notícias e devemos expressar a nossa indignação, pois já perdemos dezenas de livrarias como a Casa do Livro, a Brasiliense, e outras.

Para um país como o Brasil, que tem número reduzido de livrarias uma nova tragédia anunciada significa que o prejuízo não é só do proprietário da livraria.

Todos estão perdendo, pois quando morre uma livraria, morre também a grande esperança brasileira de um dia ter público leitor.

Morre o acesso à informação, pois a livraria demarca um ponto cultural de acesso à informação e ao conhecimento.

Morre a nossa expectativa de independência e soberania. No ano passado produzimos poucas patentes e, na verdade, os grandes produtores de patentes são os países que valorizam o livro, a leitura e conseqüentemente as livrarias.

Morre a esperança do ensino com qualidade, pois somente o livro pode melhorar a qualidade do ensino no Brasil e acabar definitivamente com a pesquisa baseada na cópia ou com control c e control v.

Morre a esperança de um dia acabarmos com as desigualdades sociais, pois o livro é o instrumento democrático que pode incluir grande massa da população brasileira na sociedade da informação.

Morre o sonho de acabarmos com a violência, pois os lugares onde há livraria e leitura são lugares onde não há violência e a insegurança.

Morre a esperança de reduzirmos o desemprego, pois jamais se ouviu falar que um leitor crítico está desempregado.

Morre o processo de construção da cidadania, pois hoje o que assegura a noção dos direitos e deveres na sociedade  é a compreensão e o livre acesso à informação.

Morre a esperança de milhares de autores de receberem os direitos autorais.

Morre a esperança de acabarmos com a desinformação e principalmente com a manipulação da informação na formação da opinião pública, tão freqüente no período eleitoral.

Morre a esperança da melhoria da produção científica brasileira.

Morre um pouco da memória brasileira, já tão dispersa e tão concentrada na Library of Congress em Washington -DC

À medida que as livrarias morrem, adquirem sobrevida os inimigos da democracia, os defensores do livro didático único e os defensores do livro como instrumento de colonialismo cultural.

Na extraordinária obra A Biblioteca de Babel, falando de livros e bibliotecas, Jorge Luis Borges afirma o seguinte: “Suspeito que a espécie humana, a única, será extinta e que a biblioteca permanecerá: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorrompível, secreta”.

Umberto Eco afirma que a situação conhecida como cultura de massas tem lugar no momento histórico em que as massas entram como protagonistas na vida social e participam das questões públicas. Efetivamente, podemos dizer que grande parte da população da América Latina não participa das questões públicas por desconhecimento dos seus direitos e deveres na sociedade. Para participar é necessário estar informado. A carência de livrarias, bibliotecas públicas, o analfabetismo e a desnutrição infantil impedem que estas populações tenham acesso à informação.

* Professor Titular da UnB
emir@unb.br




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