Para que esposa e marido não se separem
Este mês a Thesaurus Editora coloca em promoção para os internautas o livro Ananga-Ranga, obra indu, de Kalyánamalla. A publicação é a tradução da versão inglessa de 1885. A seguir segue a apresentação do livro que a Revista Nós disponibiliza para aqueles que não conhecem a obra possam entender um pouco mais do amor indiano que fascina a muitos em todo mundo. Veja Promoção.
A obra é uma arte de amar hindu, que podemos declarar, seguramente, única. Desde Sótades e Ovídio até os nossos dias, os escritores ocidentais têm tratado do assunto ora de forma amável, ora com certa tendência a glorificar os prazeres da imoralidade e preconizar a devassidão. Inteiramente distinta é a posição em que se coloca o autor indiano, e não podemos deixar de admirar-lhe a habilidade no manejo de um tema tão delicado. Como se assegura ao leitor desde o início, o livro - que se abre pela louvação dos deuses - não visa, de moda algum, a incitar à luxúria ou à libertinagem, mas simplesmente, e com tôda a sinceridade, a prevenir a separação entre o espôso e a espôsa. Convencido de que a monogamia é um estado mais feliz que a poligamia, o autor deseja preservar os dois esposos da monotonia e da saciedade que se seguem à posse, variando seus prazeres de tôdas as formas imagináveis, e fornecendo-lhes os meios para permanecerem moralmente puros e fisicamente agradáveis um ao outro. Reconhece, tão plenamente quanto Balzac, os inumeráveis males que resultam da infidelidade conjugal; e, se autoriza o adultério quando se trata de salvar uma vida, nada faz que não tenha sido permitido pelos povos pagãos mais civilizados, entre os quais semelhante doutrina tinha curso; testemunham-no a liberalidade de Sócrates, cedendo a mulher a um amigo, e a generosidade de Seleuco, relatada em nota posterior.
Não é, por certo, um mérito pequeno para o auto -ter podido escrever tantas coisas novas e interessante: sôbre a relação entre os dois sexos, assunto numerosas vêzes -repisado desde’ as idades mais remotas, que poderíamos supor de há muito esgotado, e que ninguém, entretanto, tratou como aqui. A originalidade, em verdade acha-se por tôda parte misturada a um certo rebuscamento, devido à linguagem e à particular atitude espiritual dos hindus; mas isso não a torna menos original. Nada poderia caracterizar melhor o indiano do que essa literatura amorosa tão elaborada e tão mecânica, onde os beijos se dividem em tais e tais espécies, onde há regras para acariciar com a palma ou as costas da mão, e prescrições quanto às diversas maneiras de soltar a respiração. Considerado sob tal aspecto, êste livro é um verdadeiro tesouro etnológico, tão precioso para o estudo da humanidade na índia quanto as “Mil e uma noites” para o dos hábitos e costumes dos árabes no Século XV.
O tratado, como nos informa o próprio autor, foi composto pelo arquipoeta Kalyanna Malla, do qual, infelizmente, sabemos poucas coisas. Segundo uma biografia de poetas, o Kavi-Charika, era natural de Kalinga, brâmane de casta, e viveu sob o reinado de Anangabhima, também chamado Ladadiva, rei daquelas regiões. Uma inscrição no santuário de Jagannath atesta que o Rajá Ladadiva construiu um templo no Shaka, ou ano de Shalivana, de 1094, 1172 depois de Cristo.
Por outro lado, todos os manuscritos do Ananga-Range possuem um verso informando que o autor, Kalyana Malla, escreveu a obra para a instrução de Lada Khan, filho de Ahmad, da Casa de Lodi. Isso leva a supor que o protetor do poeta fôsse Ahmad Khan, suhadar ou vice-rei de Gujarat (Guzerate), a quem, num transporte de lisonja e exagêro oriental, êle confere o título de rei. Este administrador pertencia à dinastia Lodi ou Patham, a qual, segundo Elphinstone, investiu em altos cargos a grande número de seus aliados. Três reis Lodi (Bahlul, Sikandar e Ibrahim, que reinaram entre 1450 e 1526 de nossa era) precederam imediatamente a Casa de Taymur, na pessoa de Beber Shah.
O Ananga-Range não está redigido em estilo clássico; é um• produto da literatura sânscrita relativamente moderna. Nêle se encontra a análise, ou, de qualquer forma, o resumo de obras bem mais antigas, como o Kama Sutra, de Vatsya Yana (ver Capítulo VI), o Ratirahasya, o Panchasayaka, o Smarapradipa, o Ratimanjari, e, para citar ape
nas mais um, o Manasolasa ou Abhilashitachintamani (Des=crição dos prazeres do rei, “0 rei se diverte”).
De seu texto original sânscrito, o tratado de Kalyana Malta foi traduzido para tôdas as línguas do Oriente que possuem literatura, por mais humilde. Em sânscrito e pracrit (Marathi, Gujarati, Bengali, etc., denomina-se Ananga-Ranga, estágio ou forma do incorpora) Kama Deva (Kamadeva), o Cupido hindu, que foi reduzido a cinzas pelo ôlho ardente de Siva e depois reconduzido à vida. Eis a lenda, tal como se acha registrada do “Pantheon Hindu” de Moore:
Mahadeva, isto é, Siva, e Parvati, sua mulher, quando jogavam dados na festa de Chaturanga, tiveram uma briga e se separaram encolerizados. Depois, cumprindo cada um de sua parte os rígidos atos de devoção ao Ser Supremo, acenderam fogos tão violentos que o universo foi ameaçado por uma conflagração geral. Os Devas, com grande alarma, apressaram-se a procurar Brahma, que os levou a Mahadeva, a quem suplicaram que chamasse de volta a espôsa; mas o deus, irritado, respondeu ser necessário que ela voltasse por iniciativa própria. Ganga, a deusa-rio, serviu então de emissária, convencendo Parvati a retornar para o espôso, e prometendo-lhe que êle lhe devolveria seu amor. Os mediadores celestes utilizaram-se aí de Kamadeva, que feriu Siva com uma de suas flechas ornadas de flôres; mas o terrível Siva reduziu a cinzas o deus do amor. Parvati, logo depois, apresentando-se a Siva sob a forma de uma Kerati, ou filha de montanhês, e vendo-o apaixonado por ela, retomou sua própria figura e os esposos se reconciliaram. Siva, apaziguado, consolou a lastimosa Rati, viúva de Kama, assegurando-)lie que ela se reuniria a seu esposo quando êste nascesse de nôvo sob a forma de Pradyamna, filho de Krichna, e matasse Sambara Asura. Esta predição favorável realizou-se. Pradyamna foi capturado pelo demônio Sambara, que o encerrou num cofre e o jogou ao mar. 0 cofre foi engolido por um grande peixe, posteriormente pescado e trazido para o palácio do gigante, onde a infortunada Rati fôra obrigada a realizar trabalhos manuais. Encarregada de abrir o peixe, ela encontrou o cofre com a criança, amamentou-a em segrêdo, e criou-a até que estivesse forte bastante para destruir o maléfico Sambara. A criança, até então, considerara Rati como sua mãe; mas, com o espírito agora iluminado, Rati lembrou-se da profética promessa de Mahadevam e o deus do amor foi de nôvo unido à deusa do prazer.
Nos dialetos árabe, hindustani e muçulmano, o Ananga-Ranga torna-se Lizzat-al-Nisa, ou os “Prazeres das Mulheres”, título que reaparece ligeiramente modificado em persa e em turco. Na índia, é geralmente conhecido sob a denominação de Kama Shastra, ou as Escrituras de Kama, ou de Lila Shastra, Escrituras do jôgo ou esporte do amor, tb paiein. 0 vulgo o denomina Koka-Pandit, por derivação do nume de um suposto autor, a cujo respeito conta-se a história seguinte. Certa mulher, morrendo de desejos, e não encontrando ninguém para satisfazê-los, despiu-se de suas vestes e jurou que percorreria o mundo inteiramente nua até que encontrasse quem a vencesse. Neste estado, veio ter à sala de honra do Rajá a cuja côrte Koka Pandit pertencia; e, como lhe perguntassem se não tinha vergonha de si mesma, olhou insolentemente a multidão de cortesãos que a cercavam e declarou, com ar desdenhoso, que não havia um só homem dentro da sala. 0 Rei e a côrte ficaram confusos; mas o sábio, unindo as mãos, pediu-lhes humildemente permissão para acertar as contas com aquela orgulhosa. Conduziu-a então para sua casa, e a tratou de maneira a tal ponto persuasiva que, aniquilada de fadiga, esgotada por numerosos orgasmos repetidos, ela acabou por pedir graça. Nessa altura, o viril Pandit pôs-lhe alfinêtes de ouro nos braços e nas pernas e, conduzindo-a diante do Rajá, fê-la confessar sua derrota e obrigou-a a se vestir solenemente em sua presença. 0 Rajá, como era de se esperar, ficou impaciente para saber por que meios Koka Pandit pudera obter a vitória, e ordenou-lhe que relatasse o fato, acrescentando à-narrativa tudo quanto soubesse em matéria de coito. Na iconografia popular, vê-se o Sábio as,entado, fazendo sua leitura diante do Rajá, o qual - devidamente instalado no trono, sob o Chatri, ou baldaquim real, e rodeado das mulheres de seu harém que se ocupam em abaná-lo - presta inteira atenção às palavras da Sabedoria.
Em nossos dias, o Ananga-Range goza de uma celebridade merecida. L por centenas de milhares que se contam os exemplares litografados; está em tôdas as mãos do Oriente, de qualquer sexo ou idade, e é possivelmenté conhecido na China e no Japão. Em tôdas as partes, entrou_ para a vida nacional, e as Fábulas de Rilpay (para designar por um térmo neutro um livro cujas denominações são incontáveis) não se acham, seguramente, mais difundidas.
Os Kama Sutra, de Vatsya Vana, e o Ananga-Range devem ser endrados como dois preciosos e importantes documentos das Ciências Sociais. Estão cheios de ensinamentos, de imprevisto e de novidade. Os estudiosos orientais aplicam-lhe freqüentemente os versos bastante conhecidos de Hafiz:
“Oh, doce cantor, repete a canção
Sempre fresca e sempre alegre;
Ainda uma vez, repete a história
Sempre antiga, mas sempre nova”.
Nossa intenção inicial, depois de ter traduzido o Ananga-Range do sânscrito para o inglês, era a de retraduzi-lo em latim, a fim de evitar que caísse nas mãos do vulgo. Mas, ao observá-lo mais de perto, convencemo-nos de que não encerra nada de essencialmente imoral e que, pelo contrário, muitas, coisas deveriam ser mais conhecidas e estudadas do que o são presentemente. A geração que imprime e lê as traduções literais para o inglês do devasso Petrônio, ou as espirituais licenciosidades de Rebelais, ficaria muito mal se escondesse o rosto diante do piedoso e altamente moral Kalyana Malla. Pelo menos, isto é o que pensam. Os tradutores.
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