Reflexões a propósito da morte de Fernando Mendes Vianna
Por João Carlos Taveira (*)
A morte de Fernando Mendes Vianna, no dia 10 de setembro, abriu uma lacuna de saudade no coração de sua família e amigos, além de oferecer uma oportunidade para reflexões.
Fernando, como se sabe, era um artesão da palavra poética, um iluminado, que sabia fazer versos como poucos — tamanho o seu domínio do vernáculo. No plano afetivo, era dotado de uma capacidade de sedução incomparável: poucos eram aqueles que se mantinham indiferentes aos seus encantos. Sabia conquistar à primeira vista todos que dele se aproximavam, quer os do mundo acadêmico, quer os simples mortais do nosso “vasto mundo”.
Mas fixemo-nos nas reflexões que sua morte vem propiciar. As pessoas que conviviam com Fernando Mendes Vianna, tomadas de espanto (a morte é para nós, quase sempre, um evento distante), recolheram-se num silêncio respeitoso e ainda estão sob o pasmo da surpresa. Certamente, por isso, estão emudecidas e não conseguem exprimir seus sentimentos.
Aqueles que o conheceram e o amaram na cotidiana troca das “impressões concretas”, e puderam visitar sua grande obra poética, sabem do seu desprendimento diante da vida. Sabem de sua irreverência e de sua terna atitude frente ao espetáculo do existir. Sabem de suas aventuras pelo mundo, pois era um cidadão que não conhecia fronteiras nem obstáculos. Sua autenticidade estava a serviço do homem e do artista.
Certa vez, já faz muitos anos, embrenhou-se pelo Mato Grosso (o Estado ainda não havia sido dividido) junto com Antonio Roberval Miketen, para uma de suas aventuras mais espetaculares. Chegaram a Corumbá de ônibus. Em seguida, atravessaram a fronteira e, em Pedro Juan Caballero, tomaram o “Trem da Morte” rumo a Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. No trajeto, ocorreram mil e uma travessuras, tanto de um lado como de outro, o que os levou a quase se desentenderem. Miketen, com sua verve cáustica e seu jeito irreverente, não ficava a dever nada a Fernando — um verdadeiro furacão em forma de gente —, em se tratando de criar e descobrir histórias… Eram, na verdade, dois poetas que podiam tranqüilamente repetir com Pablo Neruda: “Confesso que vivi.”
Mas a aventura dos dois não terminou aí. Resolveram tomar outro trem para atravessar a Cordilheira dos Andes. Em Cuzco, no Peru, fizeram uma parada de três dias. E, o que aconteceu ali, só Deus sabe. Só se sabe que, devido a um porre de tequila (ou seja lá que diabo de bebida andaram tomando), acabaram se perdendo um do outro. Conclusão: Miketen voltou para Brasília mais cedo, deixando de acompanhar Fernando no seu grande sonho, que era chegar até Machu Picchu.
Outra mostra do desprendimento de Fernando ficou muito bem sedimentada numa viagem a Portugal, para lançamento da revista “Gárgula”, de Antônio Máximo Ferraz. Os dois, assim que se apresentaram na “terrinha” de Camões, receberam um convite para outro lançamento na Espanha. Para encurtar a conversa, Máximo também voltou mais cedo para Brasília.
Fernando, encantado com a pátria de Cervantes, acabou ficando dois anos entre Saragoza e Madrid — perdido pela cultura e formosura daquele recanto da Europa, tão caro aos poetas e aos amantes da poesia e de mulheres lindas.
Os que conviveram com Fernando (Bandeira que perdoe: “alma extinta” é comprovadamente, para muitos, uma balela) sabem, como o próprio Fernando sabia, que “o silêncio”, em muitíssimos casos, “diz mais do que mil palavras”. Mas esses, com toda a certeza, ainda haverão de se manifestar, basta que se deixe a “poeira assentar”. A partida do amigo ainda é muito recente.
Outra reflexão que tem cabida aqui é sobre o talento e o conhecimento de Fernando Mendes Vianna. Filho de embaixador, tendo recebido educação esmerada na Europa, conhecia de tudo um pouco. E lia muito, lia e escrevia muito. Era também “um poeta em tempo integral”. A paixão pela escrita, pela palavra, era algo compulsivo, mas muito bem ajustada à sua personalidade. Fernando era um homem de muitas possibilidades. Irreverente, sim, mas culto e generoso, também.
De acordo com muitos estudiosos e críticos, é praticamente impossível saber o que é ser um poeta verdadeiro, ou um grande poeta. Como medir a grandeza do que é subjetivo? Entretanto, há um conceito latino bastante corrente entre nós: “O poeta não se faz, nasce”.
Quanto à grandeza da obra e multiplicidade da vida, Fernando Mendes Vianna está acima de todas e quaisquer discussões. Ele será sempre, sob todos os aspectos, um grande poeta, porque verdadeiro. Sua obra, em conteúdo e extensão, orgulharia a literatura de qualquer país.
Que descanse em paz, ou não. Deus queira que já não tenha encontrado Miketen, Zé Godoy Garcia, Walmir Ayala e seu grande amigo Moacyr Felix (cujo filho veio para o enterro). Sua alma, inquieta, certamente já está a arquitetar alternativas para a mesmice e a mediocridade, pois que, do outro lado, também deve ter dessas coisas.
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(*) João Carlos Taveira é poeta e crítico literário. Tem seis livros publicados, entre eles Arquitetura do Homem (Brasília: Thesaurus, 2005). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Associação Nacional de Escritores e da Academia Brasiliense de Letras.
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