9 perguntas ao editor Victor Alegria
23/10/2006
No mês de setembro passado do corrente ano, o Correio Braziliense, através do Caderno Pensar fez 9 perguntas ao editor Victor Alegria da Thesaurus Editora de Brasília. Atendendo a pedidos, reproduzimos a entrevista cedida ao jornalista Pedro Paulo Rezende da equipe do Correio Braziliense, edição de 16 de setembro.
Victor Alegria chegou em Brasília em 1960 e gosta de afirmar que formou uma geração de livreiros. Na Encontro, livraria que funcionou 24 horas no Hotel Nacional entre 1965 e 1978, passou Ivan da Silva, que depois abriria a Presença, e Hidelbrando Varella, da UnB, entre muitos outros. Sua presença no panorama editorial da cidade não pode ser minimizada. Publicou mais de 1.500 títulos pela Thesaurus. Nascido em Arouca, Portugal, afirma: “Sinto-me mais brasiliense que brasileiro”.
Por que os escritores de Brasília não conseguem projeção nacional? É culpa dos editores ou os escritores precisam trabalhar melhor sua divulgação?
Estamos a 1 mil quilômetros dos grandes centros produtores de cultura do país. Nossos escritores não conseguem se projetar na mídia nacional em função da distância e do pouco tempo de exposição que obtêm no Rio e em São Paulo. Não acho que os autores e os editores brasilienses possam mudar isso.
O livro não é caro demais no Brasil?
Não se levarmos em conta a planilha de custo. As grandes redes impõem uma redução de 50% no preço. Com isso, o livro já é onerado na origem, para diminuir o impacto dos sucessivos descontos que ocorrem ao longo da corrente de comercialização. Esse fenômeno ameaça, inclusive, as distribuidoras, que hoje trabalham com um lucro mínimo. Muitas já entraram em processo de falimentar. Com isso, o trabalho dos pequenos editores, como é o meu caso, fica cada dia mais difícil, porque dependemos delas para colocar nossos lançamentos no mercado. Em consequência, nos últimos três anos mais de 1.500 livrarias independentes fecharam.
Qual o reflexo disso?
As grandes redes trabalham com best-sellers e não se preocupam em lançar novos autores. Essa função sempre foi exercida pelas editoras pequenas. Se elas se inviabilizarem, pode ocorrer um certo marasmo na produção literária. A única solução para esse fenômeno seria a instituição de uma política de preço único, adotada em vários países do mundo, como México, França, Alemanha e Espanha. Além disso, precisamos de tarifas de Correio mais adequadas. Pagamos um preço muito caro. É um dos múltiplos aspectos da ausência de uma política voltada para o livro.
Quem são os grandes poetas brasilienses?
Anderson Braga Horta e Fernando Mendes Vianna. São superiores, inclusive, a gente consagrada nacionalmente, como Cassiano Nunes…
E os poetas de outras gerações, como Luis Turiba, Nicolas Behr…
…Turiba e Nicolas Behr têm um talento especial: são grandes malabaristas de palavras. Mas sua poesia não possui a força dos versos de Anderson Braga Horta e de Mendes Vianna. Esses são grandes poetas, com grandes domíbnios lírico e estético, e ficarão para a posteridade.
Você é a favor da lei que torna obrigatório o ensino de literatura brasiliense na rede pública, como querem algusn autores?
Ela é prematura, mas seria oportuno que se instituísse uma comissão na Secretaria de Educação do Distrito Federal que analisasse e indicasse, sem nenhum caráter obrigatório, alguns títulos para os professores da rede pública.
Qual o maior chato?
É aquele poeta que chega aqui, sem nenhum original na mão, e afirma ter uma idéia genial, que irá vender milhares de exemplares. Peço um pouco de calma, e depois de ler a obra, sugiro uma edição pequena, de 400 livros no máximo, em caráter experimental. Na maioria das vezes, esses autores querem bancar a publicação, mas seria desonesto de minha parte aceitar o trabalho sem alertar para os riscos do processo.
É muito pequeno o intercâmbio literário entre os países de língua portuguesa. Qual a razão desse fenômeno?
Esse é um dos aspectos da falta de uma política cultural consistente. Nossos autores novos são pouco conhecidos lá e pouco conhecemos da literatura que se faz em Portugal e nas antigas colônias. É preciso ressaltar que há autores de altíssima qualidade em Angola, Moçambique, Cabo Verde…
Existe futuro para o Setor Gráfico de Brasília?
Sim. Ele vai ser transformar na principal área de lazer do Sudoeste, um bairro árido, sem praças ou grandes opções culturais. Vou fazer minha parte, ampliando a Thesaurus. A idéia é resgatar o espírito da Encontro, uma livraria que abri no Hotel nacional, na década de 1960, com um pequeno café e apresentações de peças de teatro e sessões de cinema em um pequeno auditório que mantinha no subsolo.
28 de Junho, 2007 às 2:56 pm
Victor é nosso Dom Quixote das edições. Não luta contra moinhos, mas faz os moinhos girarem sobrando os ventos da leitura.
É um autentico “calango do Cerrado”.
Muito boa a entrevista. Mesmo agora, já em 2007, continua viva e presente.