Palavra aos premiados e aos classificados do 1º Concurso Nacional de Poesia da Academia Tocantinense de Letras

De João Carlos Taveira* especial para a Revista Nós Fora dos Eixos

O poeta João Carlos Taveira

Ao me dirigir a vocês, nesta cerimônia de entrega dos Prêmios e do lançamento da Antologia do 1º Concurso Nacional de Poesia da ATL, gostaria de reavivar a importância, em nossas vidas, da ousadia e determinação. Da busca e do enfrentamento. Ninguém consegue concretizar suas proposições, seus sonhos, seus ideais, se não estiver disposto a correr riscos. Pois o entusiasmo que nos mobiliza para qualquer ação pode nos levar também a incorrer em erros.

Na criação literária não é diferente. As dificuldades são as mesmas de qualquer outra atividade. Por isso, não devemos nunca nos descurar do instrumental requerido pelo ofício. A construção de um texto, seja poético ou em prosa, exige de nós preparação e compenetração. O que isto quer dizer? Quer dizer que é preciso que conheçamos a técnica do gênero literário com o qual nos defrontamos. Inspiração só não basta. A título de comparação, uma parede não se levanta somente com a vontade de se levantar uma parede - é preciso que se conheça de prumos, de níveis, de tijolos, além da combinação certa de água, cimento e areia.

Na vida é assim: um eterno construir e um incansável perde-ganha. Devemos agir sempre no limite de nossas forças, pois, como disse Guimarães Rosa, através de seu célebre personagem Riobaldo, “viver é muito perigoso”. Mas a necessidade de encarar desafios não deve ser nunca obstáculo às nossas investidas, seja qual for o campo da nossa luta. Para isto fomos feitos. Não há colheita sem semeadura. Se é verdade, por um lado, que ninguém nasce sabendo, por outro, a vida nos propicia oportunidades sem conta para o aprendizado. E para o ensinamento também. A grande lição é que ninguém consegue resultado positivo em nenhum projeto, sem dedicação, sem força de vontade e, sobretudo, sem aquela consciência superior que nos impulsiona para a ação criadora.

A propósito deste concurso da Academia Tocantinense de Letras, lembra-me um fato acontecido em Portugal há bastante tempo. Houve um concurso literário em Lisboa, no qual muita gente se inscreveu. A expectativa era enorme a respeito do vencedor. Quando saiu o resultado, o primeiro lugar coube a um concorrente sem muita expressão nas letras locais. E em segundo lugar ficou um tal Fernando Pessoa. Hoje, passados muitos anos, nós conhecemos e reverenciamos o grande poeta Fernando Pessoa, mas já ninguém se lembra quem foi que tirou o primeiro lugar naquele certame.

Conclusão: o mais importante nem sempre é o primeiro lugar. Muita vez, aquele que ficou em segundo, quarto ou vigésimo lugar pode vir a revelar-se um verdadeiro artista, como aconteceu com um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. E aquele que tirou o primeiro lugar, por descuido, preguiça ou acomodação, pode vir a tornar-se um ilustre desconhecido, a ponto de ter seu nome apagado para sempre da memória das pessoas e da história de sua cidade ou de seu país.

Por isso, devemos estar atentos a todo momento, incansavelmente, para os novos rumos da literatura. O aprimoramento também faz parte do processo de criação.

Dito isto, quero parabenizar não só aos vencedores, mas a todos os concorrentes deste 1º Concurso Nacional de Poesia da ATL. Que continuem a escrever e a publicar, mostrando o resultado de seu trabalho, de seu esforço, sem medo, com a firme determinação pela busca da vitória. E a melhor maneira de um escritor aprimorar seu talento é, a meu ver, o convívio com a obra de outros escritores, através da leitura atenta e refletida. Aliás, estou convencido de que qualquer pessoa, não apenas os escritores, pode crescer espiritualmente por intermédio da leitura, do conhecimento que advém da leitura.

Estão de parabéns também os organizadores, apoiadores e executores deste certame de âmbito nacional, que tanto deve orgulhar o povo de Palmas - esta cidade cujo céu de 180º graus só pode ser comparado com o céu de Brasília. Palmas e Brasília são duas grandezas espirituais nascidas do justo anseio e do trabalho hercúleo de seres abnegados -homens e mulheres-, que ousaram acreditar na força de seu sonho.

Muito obrigado.

(*) João Carlos Taveira é poeta e crítico literário. Nasceu em Caratinga, Minas Gerais, e reside em Brasília desde 1969. Tem seis livros de poesia publicados, ao longo de quase trinta anos. O mais recente Arquitetura do Homem (Thesaurus, 2005) tem sido objeto de resenhas, ensaios e estudos, na imprensa de todo o país. Pertence ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, à Associação Nacional de Escritores (ANE) e à Academia Brasiliense de Letras. É membro do Conselho de Cultura do FAC, na Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal.

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