Do despertar da libido – cantares eróticos

Ronaldo Cagiano* - Especial para Revista Nós Fora dos Eixos

Livro Do despertar da libido fecha trilogia do autorDando seqüência ao seu mapeamento sentimental iniciado com a publicação de “Do despertar da lembrança” (2001) e “Do despertar da dor” (2004), Albino Marinho completa, com a mesma sutileza lírica que caracterizou essas obras, sua trilogia íntima com os versos diáfanos de “Do despertar da libido“.

A temática cadente do erotismo em nenhum momento resvala para a pornografia, ou um influxo bukowskiano e maldito sobre a relação do ser com a beleza feminina, a libido, o fulgor do prazer. Nesses fluentes “cantares eróticos” o autor traça um roteiro poético de sua experiência amorosa, ao mesmo tempo em que faz um balanço existencial, um encontro de contas com os tempos em que a emoção da entrega aos prazeres do sexo abria as fronteiras aos sonhos de fabulosa extensão.

E é a partir da geografia do corpo da mulher amada que realiza um mergulho catártico, numa espécie de sinuosa revisita ao imenso mar dos afetos, percorrendo no passado e na lembrança o oceano dos desejos, a ilha dos sonhos, a enseada dos prazeres, esses tributários fluxos que a carnalidade e a emoção são capazes de forjar, consubstanciados pela libido, pela exarcebação dos sentidos, pela supremacia dos instintos, que governam as nossas necessidades e apetites e instauram a necessária cumplicidade entre carne e espírito, na tênue fronteira entre Eros e thanatos.

Albino Marinho é um autor forjado na escola do melhor jornalismo, mas nem por isso deixa que a linguagem burocrática e econômica que caracterizam os textos escritos para jornais influencie o seu processo de criação poética. A sua poesia resulta de um meticuloso processo criativo, em que o discurso literário despoja-se totalmente em prestígio da clareza e da objetividade, criando uma atmosfera de cumplicidade com o leitor.

Estamos diante de um escritor que, no dorso das palavras, transporta-se para múltiplos universos. E com fluência, elegância e versatilidade, constrói sua delicada carpintaria, conferindo à sua arte uma plasticidade, uma linguagem de tessitura cristalina, sem mascarar a densidade de um tema tão banalizado pela literatura, oferecendo um outro olhar, em que o sensual e o sexual se relacionam em profunda simbiose.

* Ronaldo Cagiano é poeta, contista e crítico literário.

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