Artimanhas de um economista pseudo(neo)budista
1/06/2007
Muitos autores de livros buscam, com o aumento da tecnologia, experimentar com fórmulas inovadoras uma fatia do mercado, ainda não explorado. O mundo avançado, por mais que beire o colapso, ainda assim vai encontrar uma pausa para a leitura, ainda que experimental. A velha desculpa de que não se tem tempo mais para a leitura de um livro, tem lá sua verdade, mas também confessa o grau de ignorância em que vive uma grande parte da população. Em nosso país isso pode ser tido como um reflexo da educação. O obscurantismo na questão educaional é constatado com os pactos de mediocridades em que se encontram professores, alunos, comunidade, que acabam por compactuar com o “faz que ensina e o faz que aprende”. Nas universidades a coisa ainda é pior, quando resume-se muitas vezes ao aconselhamento: “vai até o final, que passa…”.
O mundo moderno assegura um experimentalismo literário sem fronteira. O surgimento da Internet e as possibilidades de blogs, orkuts, salas de bate-papo, e-conferências, e-mails… tudo isso tem contribuido ao surgimento de redes ligadas ao virtual, que ainda sim permitem a convivência com novos encantamentos. A produção de vídeos que custavam furtunas holliwoodiana, hoje podem ser caseiras, singelas e apresentadas em canais de comunicação como youtube, videolog, e tantos outros postadores de vídeos.
Tal envergadura tem chegado bareteando a produção de uma pequena tiragem e facilitado a aventura de uma publicação de qualidade a serviço da tradição literária na capital da República. Um exemplo é a publicação do livro Artimanhas de um economista pseudo(neo)budista - crônicas de humor e outros textos sérios, de autoria de Fernando Wernek que sai com o selo da Thesaurus Editora de Brasília. Abaixo uma das crônicas que você encontra no livro, que a princípio pode ser adquirido somente pelo site da editora, através do portal: http://www.nosrevista.com.br/http:www.thesaurus.com.br
Viver e contar piada é perigos
Em boca fechada não entra mosca. Corolário: quem muito fala, arrisca-se a dizer a coisa errada na hora errada para a pessoa errada. O receio de que havia cometido uma mancada do gênero levou-me, há alguns dias, a procurar um instrutor da Companhia Atlética para me desculpar.
Mas quem, como eu, arrisca contar anedotas está sempre sujeito a pisar nos calos dos outros. Numa dessas situações, fui deselegante a ponto de mencionar a sua calvice, que, aliás, não lhe vai mal. De fato, ele não protestou - nem na ocasião, nem posteriormente-, mas, de qualquer modo, ficou-me a sensação desagradável de que poderia ter tomado mais liberdade do que me era permitida, e que, assim, pudesse tê-lo magoado.
Como, entretanto, hoje em dia o meu objetivo primordial na vida é nem causar mágoas aos outros, nem reter as que, no passado, possam ter-se alojado no meu coração -, achei que devia tomar uma atitude. Tive sorte: garantiu-me ele não se lembrar de nenhuma descortesia de minha parte - o que condenou o assunto à morte. Que bom!
Este meu objetivo difere um pouco da declaração feita pelo escritor Luís Fernando Veríssimo, para quem o sucesso de verdade consistiria em despertar amor nos outros. Acho este um assunto palpitante, porque a maioria das pessoas parece carecer de relacionamentos de mão dupla - dar e receber carinho, amor, amizade, essas coisas.
Mas, ao mesmo tempo, uma pessoa cuja felicidade fica na dependência do amor dos outros revela uma brutal carência afetiva. Na verdade esse fato parece constituir um problema mais generalizado do que eu supunha. Por exemplo, antes eu já havia assitido a uma entrevista com o Saramago, na qual lhe idagaram o porquê de ele escrever. E sua franca resposta foi de que era para se sentir mais amado.
Esses dois episódios sugerem que o ato de criação literária tenmha a ver com uma certa carência das pessoas no aqui e agora. Talvez a pessoa buscque, através do seu reconhecimento como bom escritor, obter, de forma honesta, um aumento no seu estoque de amizade e amor. Nada contra!
12 de Fevereiro, 2008 às 4:38 pm
Na condição de amigo e ex-colega do Ipea não poderia deixar passar em silêncio a publicação desse manancial de bom hum humor que é o livro de Fernando Werneck. Sua capacidade de descobrir nos lances do dia-a-dia o lado alegre das coisas é notável. Isto sem contar que o autor sabe especular como ninguem sobre os grandes problemas filósicos e psicológicos que de um modo ou de outro estão por trás de nossas vidas.
Chego mesmo a lamentar que os atuais técnicos do Ipea, nossos sucessores, tenham tão pouco apetite por matérias não-estritatemente técnicas e que deprezem os escritos que não estão sustentados por correlações estatísticas, muitas vezes espúreas. Se não fosse assim, certamente já teriam conhecido o livro do Fernando. Torço muito para que seja um mal passageiro e que consigam curar-se do virus neo-liberal que lhes foi inoculado nos cursos de mestrado e doutorado pelos sábios do Grande Irmão do Norte. Como a direção do IPEA voltou às mãos de economistas não-ortodoxos é possível que as coisas comecem a mudar. Para os que querem mudar, sugiro a leitura do livro do Fernando Werneck.