A felicidade no interior de Minas
Por Jacinto Guerra, especial para Revista Nós Fora dos Eixos
Bem no centro de Belo Horizonte, existia a Feira de Amostras, interessante vitrine de Minas Gerais, com sua rica exposição de pedras e de minerais. Hoje lá está o Terminal Rodoviário de BH, nossa Rodoviária, que mais parece um pequeno e moderno aeroporto, com livrarias, agência de correio, acesso à internet, caixas eletrônicos, lanchonetes, restaurante – e outras coisas que o turista precisa para o começo ou a chegada de boa viagem Minas afora.
Caminhando pelo enorme saguão cheio de luzes e outros penduricalhos, revejo os painéis de Heleno Nunes – notável artista plástico de Lagoa da Prata e do Brasil – cuja pintura, que lembra as obras de Portinari, revela cenas típicas do povo mineiro.
Mais adiante, paro e medito frente ao oratório de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira de Belo Horizonte e de todos os que, pelo mundo afora, navegam no ar, na terra e mar.
Meu destino é a Rua Perdões, perto da Igreja do Beato Padre Eustáquio, rumo ao futuro e à memória de outros tempos distantes e próximos.Vou para a casa de dona Menita, generosamente sombreada de castanheiras, minha pousada na grande cidade ao pé da Serra do Curral.
Na pequena viagem de táxi, apesar de sua tranqüilidade e segurança no volante, o motorista desabafa:
– A mulher não me deixa em paz. Liga pro celular toda hora, atrapalha o serviço da gente, sô.
– Você é casado? Moram juntos?
– Casado coisa nenhuma. Tenho, há dez anos, é uma namorada. Eu, na minha casa; ela, na casa dela. Cada um com seus filhos e problemas. Juntos seria muito pior, uai.
O táxi roda pela Via Expressa, entra na comprida Rua Padre Eustáquio, atravessa antiga região de imigrantes italianos – o Bairro Carlos Prates –, com sua Igreja de São Francisco das Chagas dominando a paisagem.
– Mal pergunta, o senhor é de onde?
– Sou mineiro de Bom Despacho. Casei-me em Belo Horizonte, onde passei minha juventude – e, há muitos anos, moro em Brasília.
– Bom Despacho eu conheço. Cidade boa, tem muita gente bonita. Andei por lá trabalhando para o Sílvio Santos, com o Baú da Felicidade.
– E aí, encontrou a felicidade?
– Quase que encontrei. No barzinho do Zé Garapa, fiquei conhecendo uma morena que era uma beleza. Foi uma paixão danada. Êta trenzinho ajeitado, sô.
Jacinto Guerra é autor de vários livros, entre os quais O gato de Curitiba – crônicas de viagem e outras histórias (Thesaurus, Brasília, 2004, 2ª edição), Prêmio BDMG Cultural de Literatura, instituído pelo Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais.
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