O choro e o fado, melhor: o choro fadado

Por Manuel Campos

O Brasil, antes do seu descobrimento, já possuía música própria que era, naturalmente, a dos seus aborígenes. A partir de 1500, a música brasileira recebe de Portugal todo o sistema harmônico tonal, ou seja, a estrutura de sons utilizada para construir a música constituída, neste caso, pelas doze notas da escala cromática, e suas diferentes combinações, na base da escala de sete notas (dó, ré, mi, fá, sol, lá e si). Todos os instrumentos musicais básicos como a flauta, cavaquinho e o violão chegaram ao Brasil via caravelas de Portugal. A maioria dos textos e temas literários, as formas poéticas e líricas como a moda, o acalanto, o Fado e uma característica do ritmo, a síncope, onde o som é articulado no tempo fraco e não forte, são influências portuguesas.

A música brasileira é fruto de uma verdadeira mistura cultural, tornando-se única. Esta miscigenação musical vem dos índios, portugueses, espanhóis, franceses, alemães, poloneses e escravos africanos, que desembarcaram em 1538 na capitania de São Vicente, hoje localizada no estado de São Paulo, atuando de forma definitiva.

No século XVIII, criou-se no Brasil um cruzamento de três continentes. O resultado apareceu sob a forma de manifestações culturais novas, que integravam a Europa, a África e a América. A componente africana foi levada pelos escravos negros. A esta misturaram-se traços das culturas ameríndias pré-existentes no Brasil. A cultura do colonizador europeu, pelo seu lado, contribuiu com as tradições rurais portuguesas e com o barroco. Acrescia ainda o intercâmbio resultante dos contactos portuários que ligavam a Índia, a Ásia e a África. De tudo isto resultaram expressões como as modinhas e o lundum.

O FADO - Derivado do ritmo africano lundu, com uma influência da modinha, foi cultivado no Brasil, a partir de 1800, uma dança que iria influir na formação da célebre canção portuguesa e legar-lhe seu próprio nome. O escritor lusitano Luís Moita assegura que o termo fado, posto em circulação por diversos escritores dos séculos XVI e XVII , foi tão usado pelo poeta Bocage que acabou por entrar em grande voga. O fado brasileiro, segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo,

já estaria divulgado entre o povo quando a corte portuguesa se estabeleceu no Brasil em 1808. A introdução do fado em Lisboa só ocorrerá a partir de 1822, momento em que adquiri feição particular como canção apaixonada e melancólica, por vezes irônica e mordaz, além de seu acompanhamento, passando a ser realizado pela bela sonoridade da guitarra portuguesa. De acordo, ainda, com Luís Moita, o “fado deve ter sido batido em Portugal, pela primeira vez, por bolieiros e fidalgos, por ciganos, arrieiros e marujos da rota do Brasil”.

No início do século XIX, a corte portuguesa refugiou-se no Brasil na sequência das invasões francesas. O fado passou a integrar influências dos ritmos brasileiros em intercomunicação com a poesia nascida nos bairros populares de Lisboa. Foi também por esta altura que a guitarra de 12 cordas, introduzida pela colónia britânica residente na cidade do Porto, passou a acompanhar o fado. A relação entre a voz e o instrumento passou a ser directa, com o estilo vocal a tornar-se muito expressivo e a equilibrar as deficiências do vocabulário popular.

O CHORO - Por volta de 1870, surge na cidade do Rio de Janeiro o choro, jeito brasileiro de se tocar os gêneros dançantes europeus em voga nessa época, como valsas, polcas, xotes, mazurcas e quadrilhas. Das adaptações desses gêneros, começou a surgir o repertório característico do choro, que reservava amplo espaço a improvisação e a à virtuosidade instrumental. A definição da palavra choro dita como a mais correta, é a designação da corporação de músicos, de importante atuação no período colonial, como choromeleiros. Para o povo, naturalmente, qualquer conjunto instrumental deveria ser sempre apontado como os choromeleiros, expressão que, por simplificação, acabou derivando em choros. Se a pesquisa nos leva à certeza da história ou não, a verdade é que a sonoridade delicada de cada um dos instrumentos com cordas duplas marcam, através de dois gêneros diferentes: o fado e o choro, a identidade cultural de cada país.

Tanto a Guitarra Portuguesa como o Bandolim são piriformes, ambas apresentam uma forma de pêra. Porém, a guitarra portuguesa tem um tampo mais largo, além de possuir 6 pares de cordas, já o bandolim, cuja afinação é idêntica ao do violino, contém 4 cordas duplas. O bandolim brasileiro é especial. Jacob do Bandolim mandou fazer um bandolim maior do que o que já existia, inspirado na guitarra portuguesa e as costas não mais abauladas e sim retas.

De qualquer modo, o Fado parece ter surgido primeiramente em Lisboa e Porto, sendo depois transportado para Coimbra através dos estudantes Universitários (já que Coimbra foi, durante muitos anos, a cidade Universitária por excelência), e tendo aí adquirido características bastante diferentes.

Em Lisboa e no Porto encontramos o fado cantado essencialmente na parte mais antiga da cidade, em tabernas ou casas de fado, pequenas, antigas, de paredes frias, decoradas com os símbolos daquela forma de canção nessas duas cidades: o xaile negro e a guitarra portuguesa.

Em Lisboa já em Setecentos estavam na moda músicas de dança exóticas, entre as quais o batuque de origem africana, mas importado directamente do Brasil. E em meados de Oitocentos explodiu a moda do fado: inicialmente na forma do fado batido, um género dançado, tocado e cantado, de clara origem africana pelo que diz respeito à dança, com a parte melódica semelhante à modinha e um ritmo semelhante ao samba originário. Após poucas décadas o Fado teve entrada nos salões da burguesia, onde o canto era acompanhado também pelo piano. No Fado de Lisboa, como seria de esperar num género poético-musical tremenda-mente popular, a temática recaía quase invariavelmente na existência quotidiana dos bairros populares de Lisboa. Trata-se portanto de retratos espontâneos do dia-a-dia, mas também da imagem que os seus cantadores pretendiam projectar desse mesmo quotidiano. Além da temática amorosa (paixões, ciúmes, posse, ausência) que é identificável logo nos primeiros fados conhecidos, abordam-se também códigos de honra e vergonha, as fronteiras entre a legalidade e a marginalidade, os rituais do trabalho e a denúncia de teor proto-socialista, a nostalgia do meio rural e até os escândalos políticos, as notícias ensanguentadas próprias dos tablóides e as grandes catástrofes.

O Fado de Coimbra ou, mais correctamente, a Canção Coimbrã, é uma forma musical típica dos seus estudantes e da Academia que representam. No Fado de Coimbra existem várias formas: a serenata, eivada de romantismo, com origem nas canções medievais; a canção de raízes com predominância folclórica, que gerações de estudantes trouxeram das suas terras natais; a canção com temas de cariz social, fruto de preocupações sociais, económicas e políticas. Além do canto, há um acompanhamento instrumental, feito tradicionalmente por uma ou duas violas e uma ou duas guitarras. Estes últimos instrumentos são únicos e verdadeiramente característicos da Canção Coimbrã.

O Fado não é apenas uma canção acompanhada à guitarra. É a própria alma do povo português. Ouvindo as palavras de cada fado pode sentir-se a presença do mar, a vida dos marinheiros e pescadores, as ruelas e becos de Lisboa, as despedidas, o infortúnio e a saudade. A grande companheira do fado é a guitarra portuguesa. Juntos, fado e guitarra, contam a essência de uma história ligada ao mar.O fado, por ser de todos os portugueses, está na taberna e no salão aristocrático. Eme manteve sempre as sua características de expressão de sentimentos associados à fatalidade do destino. Ele está marcado pelo phatos das tragédias da Grécia clássica. A canção emblemática de Lisboa é também indissociável dos seus bairros mais típicos. Alfama, Mouraria, Bairro Alto e Madragoa são os seus mais autênticos berços. Por esta razão, ouvir o fado é conhecer Lisboa. É também conhecer os portugueses, no mais profundo da sua alma de povo que enfrentou o mar desconhecido. E, por ser uma canção nacional, o fado está igualmente marcado pelo atracção que a aristocracia boémia sentiu pela ruas e vielas de Lisboa, pelas tabernas e pelas mulheres. O fado foi partilhado por fidalgos, por vadios e por marinheiros.

A Morna - Existe ainda um forte parentesco entre o Fado e a Morna de Cabo Verde, através da mistura de elementos heterogéneos: o exótico ritmo sincopado de derivação africana (landú), embora mediado pela fase brasileira (sob o influxo do samba e do choro, nascidos por sua vez da fusão de melódicas europeias e rítmicas africanas), e a melódica tipicamente europeia (derivada sobretudo da modinha, também esta modificada no Brasil). A Morna pertence ao género da canção popular desenvolvida no âmbito da tradição oral. É a mais europeia e fina de todas as formas musicais cabo-verdianas e aproxima-se muito do fado português por caracteres estilísticos, forma compositiva (introdução musical; estrofes em quartinas separadas pelo refrão, o qual também pode aparecer cada duas estrofes), harmonia (muito simples, do tipo tónica- dominante, com modulações ao máximo entre modalidade menor e maior), rítmica (binária e sincopada) e instrumentação (viola, uma guitarra, muitas vezes com dez cordas, cavaquinho, guitarra portuguesa, uma espécie de alaúde de braço comprido, apesar de na morna a guitarra estar a cair em desuso).

Para concluir, Morna e Fado são devedores do contributo africano sobretudo pelo aspecto rítmico e limitadamente à primeira fase histórica, enquanto a estrutura formal da linha melódica e as bases harmónicas são claramente europeias e remontam à musica popular rural portuguesa. Esta última, além disso, tem fornecido também as temáticas e a vocalidade típicas. Quanto ao resto, a originalidade da morna reside mesmo na síntese entre música africana e europeia, que, afinal, corresponde perfeitamente à especificidade cabo-verdiana.

O PROJETO

O novo projecto “Fado chorado – Choro fadado” é uma tentativa de regresso ás origens e de descoberta das riquezas musicais que unem os dois países irmãos, Brasil e Portugal. Nele se pretende que os dois ritmos musicais se expressem livremente, em paralelo mas também em respeito mútuo às suas especificidades e características.

O Fado é representado por Manuel Campos, diplomata alemão em Brasilia, de origem portuguesa, do Porto, cantor e compositor.

O Choro é representado por Marcelo Lima Campos, brasileiro, exímio tocador de Bandolim, a quem cabe fazer a ponte entre o Fado e o Choro, nas introduções, Refrão, melodias e improvisações.

O exímio acompanhamento do já internacionalmente conceituado e grande tocador do Violão de sete cordas Fabiano Borges, oferece o quadro musical que abarca os dois géneros musicais do Fado e do Choro, no contínuo respeito pelo ritmo do Fado e na virtuosidade da invenção do Choro.

O projeto comtempla na sua maioria Fados de Lisboa, que se tornaram conhecidos pela até hoje mais famosa representante do Fado Português, Amália Rodrigues. Um agradecimento final à madrinha e inspiradora do projeto, Heleninha, que sempre nos animou a continuar.

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Comentários

oi, manuel…

gostaria muito de conhecer este projeto de vcs..
vcs ja tem cd ou dvd?
sou uma amante do choro e como morei em lisboa ano passado, virei tb do fado.
e como estou fazendo uma coleção inspirada no choro, gostaria de ver esse trabalho relacionando com o fado.
obrigada
yorrana maia

faço parte de um grupo de chorões, e pra mim é novidade o choro fadado, por favor me manda um pedaço que preciso conhecer um pouco dessas inclinações musicais,
no aguardo, cordialmente,
Carvalho

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