Nas cinzas do Inferno de José Viale Moutinho


3/08/2007

moutinho.jpgTerceiro livro do autor relacionado com a Guerra Civil de Espanha, agora com testemunhos inéditos de combatentes do Exército Popular e das Brigadas Internacionais que sofreram terríveis experiências nos campos de concentração de Dachau e de Mauthausen. Depois de No passarán!( 1998, 2ª ed., 1999. Prêmio Noberto Lopes, da Casa da Imprensa de Lisboa) e Trincheiras (Ausência, 2003), Nas cinzas do inferno (Ausência, 2004).

Também ficcionista, Viale Moutinho publicou, entre outros, Entre povo e principais (2ª ed., Ausência, 2003) e Los Moros (2000), ambos romances, No País das Lágrimas (2003), Cenas da vida de um minotauro (2002, Grande Prêmio do Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores), já editado no Brasil e pelo Círculo de leitores, e Já os galos pretos cantam (2003, Prêmio Edmundo de Bettencourt), estes de contos. Poeta, é autor de O Amoroso (2ª edição, Ausência, 2003) e o essencial da sua obra poética está recolhido em Sombra de Cavaleiro Andante (2004). Tem no prelo Ocasos de Iluminação Variável (Prêmio Edmundo de Bettencourt, Ausência).

Não obstante haja quem manifeste a sua perplexidade por haver quem se interesse pelos temas relacionados com a Guerra Civil de Espanha, o autor insiste, tanto mais que nem tudo está contado. Não sendo este um livro de História, surge com a veleidade de contribuir para ela, garantindo uma linha nas bibliografias da especialidade. E no caso vertente, são conversas com quatro espanhóis, três deles deportados no campo de concentração de Mauthausen e um no campo de extermínio de Dachau; outras duas conversas com dois austríacos, que pertenceram às Brigadas Internacionais e também estiveram prisioneiros em Dachau; finalmente, o livro seleciona os passos que pareceram mais significativos e úteis da autobiografia inédita de um deportado em Mauthausen. Três notas comuns nas vidas destes homens: fizeram a Guerra Civil de Espanha, suportaram os lamentáveis campos franceses para refugiados na Côte d´Azur e conheceram as agruras do universo concentracionário nazi. De um modo geral, todos eles manifestaram que, mesmo assim, tiveram sorte na vida que lhes coube. Todos eles foram protagonistas do Holocausto.

Na abertura do seu livro Españoles en los campos nazi, David Serrano diz muito claramente: “Ainda na atualidade há uma tendência de associar conceitos como Holocausto ou campos de extermínio com a vontade nazi de eliminação da comunidade judaica. Nada mais longe da realidade quanto à história do nosso país, silenciada na maior parte de manuais escolares ainda hoje. Os esforços da Solução Final em destruir os afetos ao regime fascista não podem escurecer a presença de republicanos espanhóis nos campos de concentração e extermínio nazis”. Bastaria isto para justificar também mais este livro. Porém, a questão vai mais além. Importaria que chegasse a Portugal. É que, por exemplo, folheando o livro sobre Dachau, de Paul Berben, aparece-nos um documento que relaciona a situação dos efetivos dos internados nesse campo, dispostos por nacionalidades, a 26 de Abril de 1945. E ficamos com a notícia da existência de oito portugueses. Os seus nomes? As suas circunstâncias biogrãficas? Não sabemos, pelo menos eu não sei. Claro, que representam oito portugueses ante 14.994 polacos, 13.536 russos ou 12.057 húngaros? Mas quantos portugueses deram entrada em Dachau, e, na viagem para lá, quantos pereceram? Há uma data de perguntas que bem justificam uma investigação, havendo apoio para a realizar. Infelizmente, nenhum sobrevivente português escreveu as suas memórias, pelo menos não constam das biografias. Quem se presta a avançar para procurar saber? O problema é que as testemunhas do Holocausto vão rareando e este tipo de documentação está por exumar, se é que existe nos nossos arquivos.

Pois bem, neste volume, sigo as pistas de vombatentes no lado republicano da Guerra Civil de Espanha. Sigo as pistas com riscos, porque se há alguns intervenientes que nunca confiram as suas memórias a ninguém, e o fazem agora com grande rigor, outros estão de tal modo habituados a levantar platéias que acabam por criar uma espécie de depoimento de tal modo enfeitado e retocado, que só se torna útil à automitificação do interessado. Por isso, e apenas por isso, tenho deixado de lado horas de conversa estereotipada, ainda que capaz de entreter algum interlocutor, aliás com relativo gozo e ainda mais relativo proveito.

A sessenta anos do fim deste universo concentracionário, é tempo de tudo isto ser encarado sem complexos. Tal como refere David Serrano, importa articular o fenomeno em todas as suas proporções e caminhos. E esclarecer a mais distraída opinião pública de que o Holocausto não foi exclusivo dos judeus, pois a senha nazi estendeu-se ainda aos militantes comunistas, aos oficiais e soldados do Exército Vermelho, aos que combateram contra Franco na Guerra Civil de Espanha, aos ciganos, aos homossexuais, a quem mais? A uns quantos portugueses, que aqueles oito formam um número meramente circunstancial, mas a quantos? E a quem? e em que outros campos de matanças?

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