Caçador de Pirilampos


7/08/2007

Como ia dizendo…

livro Caçador de PirilamposQuem está cerca de duas décadas e meia sem publicar versos, nunca tendo deixado de os escrever, tem uma natural dificuldade em depois os escolher para organizar em livro(s). Sobre as razões desse longo período sem editar, bem como sobre os voluminhos saídos desde Canções para a Primavera (1960) a De águia a zebra (1976), escrevi um longo prefácio a o mar a mar a póvoa (2001), exactamente intitulado “25 anos de silêncio”. Prefácio em que, falando um pouco dos próprios versos, também contei algumas histórias, fiz certos juízos críticos, recordei parte do meu percurso no nosso concreto tempo português, indissociável de muito do que escrevi - e em geral não editei. Nesse prefácio, quase a terminar, dizia: “Posto perante a necessidade de escolher entre os livros que poderia organizar (…), optei por reunir alguns poemas que t~em a ver com a Póvoa e o mar, para mim quase sinónimos. E que t~em a ver, em simultâneo, com a infância, a memória, o tempo irreptível. Foi também uma forma de recomeçar a publicar versos voltado ao sítio de partida”. Na excelente companhia, sublinava, de um grande pintor, Júlio Resende, que na Póvoa foi professor e tão bem “soube captar muito do essencial do seu mar e dos seus pescadores”.

Acrescentava, ainda, que depois desse livro esperava “publicar outro, com um título emblemático da efectiva e afectiva ligação entre os meus versos e aquilo a que o (Fernando) Assis (Pacheco) chamava a ´profissão dominante´: Repórter do Coração. Concluindo: “Título que, bem sei, a alguns logo fará temer o pior. Permitam-me, no entanto, que após um tão longo silêncio, tenha o direito de continuar a ser o que sempre fui. De verteza sem glória, decerto sem êxito, mas seguramente sem nenhuma espécie de transigência ou abdicação. Com a feliz melancolia de uns versos tão mortais”.

Repórter do Coração, de facto, publicado, mas só em 2004 – uma vez mais por descaso ou atraso meu – como o mar a mar a póvoa com esta mesma chancela da ASA, na colecção “pequeno formato”. Mais três anos volvidos, sai este livro que o leitor tem nas mãos, cujos poemas mais antigos, aliás pouco, remontam, como os dois livros anteriores, à década de 60; os mais recentes são de 2005. Não os dato, pelas mesmas razões por que o não fiz naqueles dois livros e assinalei em breve nota introdutória ao último. Ou seja: porque, “salvo nos raros casos em que os poemas já ´nascem´ na sua forma (quase) definitiva, ao longo do tempo mais ou menos os vou modificando; e por não haver razões que exijam ou justifiquem situá-los no tempo.

, de facto, publicado, mas só em 2004 – uma vez mais por descaso ou atraso meu – como com esta mesma chancela da ASA, na colecção “pequeno formato”. Mais três anos volvidos, sai este livro que o leitor tem nas mãos, cujos poemas mais antigos, aliás pouco, remontam, como os dois livros anteriores, à década de 60; os mais recentes são de 2005. Não os dato, pelas mesmas razões por que o não fiz naqueles dois livros e assinalei em breve nota introdutória ao último. Ou seja: porque, “salvo nos raros casos em que os poemas já ´nascem´ na sua forma (quase) definitiva, ao longo do tempo mais ou menos os vou modificando; e por não haver razões que exijam ou justifiquem situá-los no tempo.Convém esclarecer que, quando me refiro a modificações ou mudanças, elas resultam sobretudo de uma em simultâneo minuciosa atenção – através de muitas, repetidas, leituras, em diferentes períodos ou momentos – e de um sensível, árduo, trabalho artesanal com as palavras. Palavras que são a nossa luminosa matéria, o nosso barro frágil e obscuro, a nossa pedra dura e incandescente.

Um trabalho da alma, do olhar, do ouvido, das mãos – que exige tempo e ofício. Um trabalho sempre em busca da impossível perfeição (ou até: da impossível perfeição possível…), um trabalho que, se modifica ou muda o poema, quer dizer: o seu corpo de palavras, deixa intocada, misteriosamente mais visível, fremente, cintilante, a posesia que o habita e sustenta.

A sensação que tenho, a imagem que amiúde me ocorre, é a de as palavras terem de passar por muitas águas. Como o cascalho de que se vai retirando o oiro (ou no qual se poderão descobrir “indícios de oiro”…). Até ficarem apenas as que são – ou desejaríamos que fossem… – as únicas, essenciais, insubstituíveis palavras do poema. Palavras únicas, iniciais, por mais quotidianas e comuns que sejam – ou sobretudo quando o são.

Mas isto levar-me-ia longe. Seja como for, o que verdadeiramente conta são os versos. O que sobre eles e sobre a poesia se escreve, mesmo o que cada poeta, em certo momento, em certa página, até em certo poema, escreve, aparentando ser uma teoria, uma fórmula, mesmo um “comando”, ele próprio em outro momento, em outra página, o contradiz ou desmente nos seus versos. São inúmeros exemplos. Basta ver, em língua portuguesa, os nossos dois maiores poetas contemporâneos: Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade. E, em particular, quanto ao autor de Sentimento do Mundo, ver como o que escreve na primeira parte do seu belo “procira da Poesia” é negado em tantos outros também belos poemas seus…

Retorno à natural dificuldade em escolher poemas para organizar em livro(s), sobretudo com um campo de selecção caótico e que se estende por mais de 40 anos. Neste volume tentei reunir, como o leitor teve oportunidade de ver, poemas quase sempre curtos ou mesmo muito curtos, com alguma unidade, ou coerência, formal e temática, tanto quanto é possível em poesia falar-se de “temática”. Poemas em geral ligados a certos instantes que, por qualquer razão, me emociona(ra)m, marca(ra)m, toca(ra)m, assim desencadeando o relâmpago, o pequeno relâmpago, que está na origem dos meus versos. Digamos que este livro poderia ter uma epígrafe de Cecília Meireles: “Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta.” Ou de Eugénio de Andrade: ” Estou de passagem./ Amo o efémero.”

Por modo de ser, talvez pelo olhar de jornalista (e não terá sido, também, esse modo de ser que me levou para o jornalismo?), frequentemente sinto eterno o efémero; ou até que só o efémero é eterno. E o que há de mais efémero, mais mutável, e ao mesmo tempo mais essencial, mais eterno, do que a luz? A luz irreptível de certas horas, em certos sítios; a luz irreptível de um poente ou de um quadro de amanet. a luz que revela a beleza das coisas, e não só a beleza, o segredo e a singularidade, a luz que revela e nos faz descobrir aquilo que, tantas vezes, está à nossa frente e verdadeiramente não vemos. Também graças a ela posso dizer, como Álvaro de Campos, que “A espantosa realidade das coisas / É a minha descoberta de todos os dias”.

Eis-me, pois, tendo consciência da amplitude do voo, um confesso e apaixonado, embora involuntário, “caçador de pirilampos”. Caçador, caçado, que agredece ao amigo e editor José da Cruz Santos o que uma vez mais fez pelos seus versos, inclusive na selecção e ordenação dos poemas; e que manifesta a sua satisfação por neste volume ter a companhia de Júlia Landolt, cujas pinturas tanto o enriquecem e valorizam, como em obras anteriores acontenceu com trabalhos de outros artistas, em particular Cipriano Dourado, José Rodrigues, Júlio Resende e Graça Morais.

José Carlos de Vasconcelos

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