De Brasília a São José dos Pinhais - Uma viagem nos caminhos de Minas, São Paulo e Paraná
Jacinto Guerra
“Lagoa Santa é um bom lugar para se viver”.
(Peter Lund, cientista dinamarquês, que fez do Brasil sua pátria na América do Sul)
Com o Planalto Central coberto de nuvens passageiras, deixamos Brasília rumo a cidades, lugares e paisagens de montanhas e de história. Descemos em Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. No Aeroporto Internacional Tancredo Neves, um dos melhores e mais bem situados terminais de aviação das Américas (infelizmente pouco utilizado), não existe apenas um cenário de beleza e de modernidade, porque o turista encontra-se imediatamente com a fascinante pré-história da região de Lagoa Santa, no coração de Minas Gerais.
A poucos quilômetros do grande e moderno aeroporto, fica a cidadezinha de Confins – ao lado de duas lagoas formadas entre montanhas –, numa região que é referência obrigatória para os estudos internacionais de arqueologia, paleontologia e formações minerais, em razão, principalmente, das ossadas pré-históricas retiradas de suas grutas e cavernas a partir de meados do século XIX.
Confins tem este nome porque o lugarejo formou-se num ponto muito distante das últimas fazendas situadas nas terras do Curral del Rei, onde construíram Belo Horizonte. É muito pequena a população do município que possui um dos melhores aeroportos do Brasil: quatro mil moradores, pouco mais que o número de habitantes de uma superquadra de Brasília.
Mas a palavra Confins leva-nos, também, aos domínios da literatura: é que nos anos 1950, Mário Palmério, professor e político mineiro, surpreendeu o país, como escritor, ao lançar o romance Vila dos Confins, cujo cenário é uma pequena cidade da antiga Minas Gerais, com seus coronéis, sua política e seus costumes.
Ainda no aeroporto, quando o turista retira suas malas da passarela que as trouxe do avião, sua visão volta-se para um belo painel estilizado com a reprodução de pinturas rupestres que artistas da pré-história fizeram ali perto. É uma fascinante imagem de modernidade. Transporta-nos há tempos distantes da aventura do homem em nosso planeta.
De Confins, entramos na Linha Verde, moderna auto-estrada que se dirige a Belo Horizonte e outras cidades da área metropolitana de BH. Mas nosso primeiro destino não é a capital mineira. Vamos para Lagoa Santa, com seu Parque Aeronáutico, suas grutas e cavernas pré-históricas, suas águas lendárias e seu charme de cidade bucólica e acolhedora. A pracinha modesta, porém simpática tem, no centro, um pequeno avião, daqueles antigos, que chamávamos de aeroplano. Trata-se de um monumento em homenagem ao mineiro Santos Dumont e aos aviadores e aeronautas que ali moram e fazem história.
Logo adiante, na Rua Comandante Victor, encontramos, a céu aberto, o atelier de um artista que faz grandes esculturas em madeira, Celso Vieira, patrimônio vivo da arte. Mineiro de muito talento e sabedoria, meio escondido, na simplicidade de gente que veio da roça e conseguiu vencer na cidade.
A figura mais notável de Lagoa Santa em todos os tempos é o famoso Dr. Lund – Peter Wilhelm Lund – antropólogo, botânico e zoólogo dinamarquês que ali viveu até sua morte, em 1880, realizando trabalhos e pesquisas da maior importância para a ciência e a cultura universais. Trabalhos muito interessantes sobre o Dr. Lund foram escritos, em Brasília, por um mineiro de Mariana: o cronista Danilo Gomes, que brinda seus leitores com textos imperdíveis: “O tesouro de Peter Lund”, publicado no livro Crônicas Mineiras, da Editora Itatiaia/Rede Globo, 1984, além de “Peter Lund de Lagoa Santa” (Estado de Minas, 4 de abril de 1985, página 7).
Por falar em literatura, quem vai a Lagoa Santa precisa visitar a Biblioteca Municipal, instalada num belo edifício de vários andares, bem no centro da cidade, onde estão à disposição dos leitores, um rico acervo de livros e periódicos e muitas obras raras. Instituição de causar inveja a muitas cidades mineiras e brasileiras, a Biblioteca de Lagoa Santa não impressiona apenas pela sua arquitetura e seus livros. Lá o turista pode, tranqüilamente, ler jornais e revistas – e, depois, deslumbrar-se com a paisagem frente a seus olhos: muitas casas e quintais cheios de arvoredo, as águas da Lagoa banhadas pela luz do sol e, mais ao longe, no horizonte, montanhas de Minas.
Em nossa rápida temporada neste “lugar das águas santas”, Nilce e eu fomos recebidos, com fidalguia, por Cláudia e Dirceu Bernardes, que moravam num excelente bairro em Belo Horizonte e tiveram a feliz ousadia de deixar a cidade grande para trabalhar e viver num lugar envolvido pelo fascínio da natureza, das águas e do ar puro, coisas e lugares que, felizmente, ainda existem no mundo e neste Brasil de tantas riquezas e misérias.
Mas quem gosta de viajar e de ler, precisa encontrar o livro Lagoa Santa – Vidas e Ossadas, de Henrik Stangerup, editado em 1982, em Copenhague, na Dinamarca, e imediatamente traduzido para o português (Nórdica, Rio de Janeiro, 1983), hoje uma raridade encontrada somente em bibliotecas e velhas livrarias. Escritor e cineasta, muito conhecido e admirado na Dinamarca e outros países, Henrik Stangerup (1937-1998) – ao escrever esse fascinante romance que conta a vida e a obra de Lund – merece as melhores homenagens em Lagoa Santa e nos outros cenários de sua obra que muito valoriza Minas Gerais e o nosso país.
Deixando de lado os livros e a figura inesquecível do Dr. Lund e suas muitas histórias que precisam ser mais conhecidas, o melhor da cidade é a própria Lagoa, margeada de arvoredos e belas casas antigas em quase toda a sua extensão. Com todo o respeito e admiração pela Itália, para muitos brasileiros a orla da Lagoa Santa é mais romântica que os canais de Veneza. É lugar de caminhar e de namorar ao lado de águas mais tranqüilas, de ar mais puro, no meio da natureza, ouvindo a música do vento e o canto dos pássaros, coisas que não vemos nem sentimos num passeio de gôndola em Veneza, apesar do fascínio da arte e da história que envolvem a rainha do Adriático.
Em Lagoa Santa, tive a oportunidade de longas conversas com o jovem Secretário de Turismo e Cultura, Túlio Coutinho Bernardes, trocando experiências, falando sobre livros, projetos, idéias e sonhos. Túlio é músico, administrador e micro-empresário de arte e cultura. Visitamos, com ele, as principais atrações turísticas, especialmente a fantástica Gruta da Lapinha e o pequeno Museu Arqueológico, assunto sobre o qual pretendo escrever com mais vagar, em razão de sua beleza e importância para a ciência e a cultura. O prefeito Rogério Avelar é produtor de horti-fruti-granjeiros, um homem da terra com experiência administrativa e liderança empresarial. Eleito uma proposta de renovação política, empenha-se, especialmente, nas questões de educação, turismo e segurança pública.
Depois dc Lagoa Santa, prosseguimos nossa viagem pelo interior de Minas, na direção do Planalto de Araxá e das nascentes do Rio São Francisco. Fomos a Bom Despacho, Córrego Danta e Tapiraí, cidades muito queridas em nossa geografia sentimental, onde vivemos momentos decisivos de nossa história e sempre gostamos de rever pessoas e paisagens inesquecíveis.
De lá, iremos a Belo Horizonte para, depois, voar em direção a São Paulo e ao Paraná, fechando em Curitiba e São José dos Pinhais mais uma etapa desta caminhada de emoções neste Brasil de tantas grandezas e problemas, que precisamos resolver com urgência para a construção de nosso futuro como povo e como nação. (Primeira de uma série de crônicas de viagem a Minas Gerais, São Paulo e Paraná, no período maio-junho de 2007)
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Gostei muito das observações feitas pelo amigo, pois é assim que tratamos os visitantes, como amigos. Bem objetivo nas colocaçoes e melhor ainda no estilo mineiro de ver e sentir as coisas.
Não tive o prazer de conhece-lo, de trocar uma palavras, mas me sinto feliz em saber que pessoas como voce trazem e levam coisas boas de nosso povo e nossas terras.