Tudo é Jazz, de Ouro Preto, apresenta sua programação
Em Nova Orleans do início do século passado, alguns instrumentistas negros começaram a expandir as possibilidades musicais de instrumentos tradicionais de bandas de rua, como trompete e trombone, para fazerem uma mistura inédita entre o rigor da cultura clássica européia e a batida visceral da música africana. O resultado foi nada menos do que a maior revolução musical do século XX: o jazz.
O cheiro de jasmim do perfume das mulheres que freqüentavam as primeiras apresentações jazzísticas é uma das tentativas de explicar a origem do nome, mas o irresistível balanço dos traseiros (ass, em inglês) e a pitada de subversão do gênero também são uma boa pista para entender a origem do termo. O fato é que, quando se trata de jazz, definições e restrições tornam-se inviáveis (e contraditórias) justamente porque delimitar e definir significa perder a sua característica mais importante: a liberdade.
Universal, como toda forma de arte, o jazz ecoou pelo mundo agregando cores e tons locais à sua democrática forma de expressão. Por cutucar e embaralhar as regras imutáveis da música clássica, o jazz serviu (e ainda serve) de fonte de inspiração pra tudo aquilo que hoje conhecemos genericamente como música pop. Talvez, nessa inevitavelmente fracassada tentativa de definir o jazz, uma palavra consiga pelo menos dar uma idéia da sua dimensão: Tudo. Tudo é arte. Tudo é improviso. Tudo é Jazz.
Reinventando a tradição
Ao longo dos anos, o jazz sempre caminhou com um pé na tradição e outro na vanguarda. A sexta edição do Festival Internacional de Jazz de Ouro Preto – Tudo é Jazz, mantém o espírito de homenagear os pioneiros do estilo e promover as revelações do gênero.
Com assinatura de Maria Alice Martins, Túlio Mourão e Ivan Monteiro, além de Fátima e Eduardo Tropia (Jazz Paralelo), o festival, patrocinado pela Gerdau Açominas, leva à cidade histórica de Ouro Preto, de 13 a 16 de setembro os mais aclamados nomes da cena jazzística internacional. A programação diversificada, inclui grandes nomes da cena atual, como Madeleine Peyroux e Maria Schneider, entre grupos que revigoram e modernizam o som de Nova Orleans, além de oficinas, palestras e workshops com grandes pensadores e realizadores do jazz. Ao todo serão 24 shows e 130 músicos que se apresentam em dois palcos.
Palco Diamantina
O primeiro dia do Festival, 13 de setembro, começa com a apresentação da Orquestra Experimental da UFOP. Serão apresentadas obras de Astor Piazolla e Rufo Herrera sob a regência do maestro Sílvio Viegas. Depois disso, quem sobe ao palco é Joshua Redman, um dos mais importantes saxofonistas do atual cenário jazzístico, acompanhado pelo seu trio. Para encerrar a primeira noite tem a apresentação histórica do trompetista Wallace Roney e seu sexteto. Elogiado pelo New York Times como “improvisador que adora linhas complicadas, quase matemáticas, e que toca com uma graça felina”, Roney já gravou doze álbuns como líder e já colaborou com algumas sumidades do jazz, como Art Blakey, Ornette Coleman, Herbie Hancock, Joni Mitchell e Miles Davis.
Na sexta-feira, 14 de setembro, acontece uma das apresentações mais esperadas de todo o festival. A “Billie Holiday do século XXI” Madeleine Peyroux destila seu repertório suave e sensual em versões jazzísticas de composições do universo pop. Esta noite destaca, ainda, o quinteto do baixista israelense Omer Avital – que une experimentalismo e tradição em suas composições -, a trompetista canadense Ingrid Jensen e o trio do pianista americano Aaron Goldberg, que recriou com sensibilidade temas de Tom Jobim e Djavan em seu último álbum.
No dia 15 de setembro a noite começa com o SambaJazz Trio e sua mistura original de samba e jazz. Na seqüência, o Duofel, composto pelos violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno – que tocam juntos desde 1977 – apresenta-se nos palcos do Tudo é Jazz. A noite de fusão ente o jazz e a música brasileira continua com o concerto do pianista João Donato em parceria com o lendário saxofonista Bud Shank, músico que por quatro vezes ganhou o invejável prêmio como o mais valioso músico da National Academy of Recording Arts and Sciences (NARAS). O encerramento do terceiro dia de shows fica por conta do quinteto de Oscar Castro Neves e seus sofisticados conceitos harmônicos.
Largo do Rosário
Ao ar livre, em apresentações gratuitas, poderão ser vistos, na quinta-feira, 13 de setembro, os Duos Sete Estrelo e Violar. Em seguida, o show do Grupo Linha Verde e o encerramento do bandoneonista argentino Rufo Herrera e o Quinteto Tempos, com sua proposta musical de popularizar a música erudita sem abrir mão da qualidade. O variado repertório de Herrera inclui, além de composições próprias, músicas de Bach, Astor Piazolla, Hermeto Pascoal e Marco Antônio Guimarães.
No dia 14 de setembro, as apresentações começam com Juarez Moreira Trio seguido do quinteto Célio Balona. Depois é a vez do saxofonista Nivaldo Ornelas entrar em cena. No sábado, 15 de setembro, tem André Dequech Trio e, a seguir, um tributo ao compositor belorizontino Pacífico Mascarenhas com o pianista norte-americano Cliff Korman e o pianista e flautista argentino Jorge Cutello. Participam desse show o baterista Neném e o baixista Ezequiel Lima. O acordeom de Toninho Ferragutti e seu quinteto de instrumentistas fecham o dia de shows.
O encerramento do Festival Internacional de Jazz de Ouro Preto – Tudo é Jazz, no domingo, 16 de setembro, acontece em grande estilo. A maestrina, arranjadora e compositora Maria Schneider rege 22 músicos brasileiros em uma apresentação gratuita no Largo do Rosário. Eleita três vezes a melhor arranjadora do ano pela Downbeat Magazine, a bíblia do jazz, Schneider tornou-se, com o sucesso de seu penúltimo álbum, a primeira artista a vencer um Grammy por um álbum vendido exclusivamente na internet. Além disso, o Concert in the Garden foi eleito o Álbum de Jazz do Ano do Jazz Journalists Awards e da Downbeat Critics Poll. Em Ouro Preto, a maestrina irá apresentar músicas de seus discos Allegresse e Concert in the garden, além de outras peças que incluem músicas de Ivan Lins e da trilha do filme Spartacus.
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