Discussão sobre a legalização da maconha agita Bienal do Rio

Do Globo

O debate sobre maconha na Esquina do Leitor quebrou a modorra da noite de segunda aqui no Riocentro. O psicólogo Roberto Pereira Coelho e o psicanalista Luiz Alberto Pinheiro de Freitas tiveram uma conversa com momentos exaltados, pontuada por aplausos da platéia. Freitas defendeu a “legalização sem oba-oba”, e Coelho, a proibição. Nos votos do público, a legalização foi apoiada por 64,3% (18 pessoas), enquanto 35,7% (10) se manifestaram pela proibição.

 

Primeiro a falar, Freitas disse que as drogas estão presentes em todas culturas, e que é irreal imaginar que o homem um dia vá livrar-se delas. Trata-se, argumentou, de discutir a melhor maneira de lidar com esse fato. Para ele, o modelo adotado atualmente por quase todos os países, baseado na proibição e na repressão, já se mostrou ineficiente.

 

- Os EUA, por exemplo, têm gastado bilhões de dólares na repressão, e nos últimos anos o consumo não foi reduzido, a oferta aumentou e o preço continou estável. A política de proibição traz, sim, prejuízos muito maiores do que aqueles que pretende evitar. Nós vemos isso muito claramente em nossa cidade, que hoje vive aterrorizada pelos traficantes.

 

Um modelo mais sensato, ele defendeu, seria baseado na legalização acompanhada por campanhas educativas e de prevenção.

 

Coelho, que trabalha na Secretaria Municipal de Combate à Dependência Química, preferiu concentrar sua fala nos motivos que, em sua opinião, conduzem as pessoas ao uso de drogas.

 

- A questão de legalização ou proibição nos remete a uma outra, sobre o próprio sentido da vida. O que viemos fazer aqui? Qual é nossa missão? As pessoas que usam drogas têm uma profunda dificuldade de lidar com a vida como ela é. Mas todo bom guerreiro vai enfrentar a realidade, por pior que ela seja. Temos que dar às pessoas condições de mudar suas vidas.

 

O modelo atual é falho, acrescentou, porque não investe o bastante em campanhas de educação. Ele disse ainda que hoje a sociedade brasileira não está pronta para a legalização, porque não há estrutura médica para prestar auxílio a viciados e as pessoas não estão prontas para resistir à promessa de prazer instantâneo dos entorpecentes. Freitas retrucou:

 

- Não estamos preparados? Então temos que nos preparar. Não podemos é imaginar que somos um bando de bobos incapazes de cuidar de nós mesmos.

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