Lindberg Cury, um exemplo de vida

Por Adirson Vasconcelos* 

capa_lindberg.jpgQuando nossa geração, esta que construiu e consolidou Brasília, tiver passado, e mais outra e mais outra, as gerações futuras hão de olhar para o passado brasileiro e hão de recordar, com admiração, os pioneiros da epopéia de Brasília. E quererão conhecer, mais e mais, como viveram esses homens que foram capazes de um feito tão marcante na vida do seu povo, cuja História o consagrou chamando-o de “a obra do Século XX”.

Embora o Presidente Juscelino venha a ser a figura maior a ser evocada, os nossos pósteros hão de raciocinar que uma obra tão monumental, edificada num período de tempo tão curto e na precariedade das condições da época, não é obra de um homem só. Claro que haverão de reconhecer em JK uma extraordinária visão estadística, uma liderança carismática e um elevado espírito de brasilidade só comparável, na História, aos gestos e à visão de Tiradentes. Ambos, marcos humanos e cívicos do Brasil de todos os tempos.

É por isso que insisto junto a muitos companheiros e amigos candangos e pioneiros de Brasília para quem não deixem de fazer, e por escrito, um depoimento testemunhando sua experiência dos dias vividos principalmente naqueles três anos de atividades febris a fim de darmos conta da construção de toda uma cidade, pronta e acabada. Centenas e milhares de brasileiros haveriam de chegar, a partir de 1960, para fazer funcionar, já no seu primeiro dia de vida, a cidade-Capital do nosso país, “cérebro das altas decisões nacionais”, como profetizou o Presidente JK.

E tudo aconteceu como por encanto, como por milagre, dentro do planejado e como queria Juscelino. A cidade foi inaugurada festivamente a 21 de abril de 1960, com ruas, avenidas, eixos, palácios, repartições públicas, moradias, escolas e hospitais, serviço de água, luz, telefone, etc – tudo, tudo funcionando a contento. A notícias correu mundo e repercutiu por todos os tempos.

Uma experiência altamente gratificante e reveladora da grande capacidade realizadora de um povo, principalmente porque este povo era conduzido por uma liderança autêntica.

Tão significativo quanto a epopéia da construção, foi, devemos reconhecer, o processo de fixação e consolidação de Brasília como cidade e como Capital do país, no seus primeiros 40 anos de vida.

Uma fase igualmente pioneira. Nada fácil fazer funcionar numa cidade-Capital plantada inovadoramente em pleno interior central do país, numa região antes pouco habitada e desprovida dos meios básicos de promoção do desenvolvimento, embora de riquezas telúricas, inclusive no seu potencial humano.

Felizmente, a vida gregária se formou harmoniosamente, no correr do tempo, com brasileiros oriundos dos mais diversos cantos do país integrando-se no novo meio físico planaltino, de onde brotou, pelas miscigenação, um novo tipo étnico,, o brasiliense.

A vida político-administrativa, pelas novas oportunidades criadas para o trabalho ordenado, alcançou resultados surpreendentes, em termos de eficiência e produtividade.

O imenso Centro-Oeste e o grande Norte integraram-se ao todo nacional. Deram saltos de desenvolvimento nos campos sociais, econômicos e culturais pelo simples posicionamento geográfico da nova Capital do país no território interiorano, colocando-a como pólo propulsor e de irradiação desse mesmo desenvolvimento.

A urbs se fez civitas.

Assim, os nossos pósteros, em gerações vindouras, hão de recordar o passado que predestinadamente vivemos. Analisando a trajetória brasileira ao longo dos tempos, hão de se fixar em 1960, no século XX, e reconhecer Brasília como um marco histórico da vida nacional, um divisor de águas, comparando-o só com o descobrimento, em 1500, e a nossa independência política, em 1822.

Daí a minha preocupação e insistência junto a amigos e companheiros desses tempos pioneiros-candangos para que gravem e escrevam para a História os seus momentos de pioneirismo e a sua experiência de vida com relação a Brasília. De minha parte,até que me sinto gratificado pela missão cumprida de ter retratado, em resumo, os momentos de muitos, evocando suas vidas e seus feitos em Os Pioneiros da Construção, livro de mais de mil páginas que vem se somar a outros de igual sentido, entre os quais, A Epopéia de Brasília e A Mudança da Capital, principalmente. Mas, ainda tenho muito a fazer…

Agora, recebo, com muita satisfação, a notícia que me dá Fernando Pinto, exímio jornalista e escritor, de que o pioneiro Lindberg Aziz Cury está escrevendo páginas primorosas sobre sua experiência pioneira em Brasília.

Que bom! Fico feliz com a informação, inclusive porque a participação de Lindberg, não só no tempo da construção mas principalmente na fase difícil da fixação e da consolidação de Brasília, seja como cidade seja como Capital, foi altamente salutar.

Admirável o seu empenho por Brasília, a tenacidade e a perseverança com que sempre defendia os interesses da cidade, com visão político-administrativa e clarividência. Um papel que desempenhou inicialmente como líder das classes produtoras, notadamente como presidente da Associação Comercial, de onde suas palavras e atitudes ecoaram, através da imprensa e outros meios, motivando outros segmentos significativos da comunidade que espontaneamente aderiram aos seus objetivos e à sua liderança.

Tal fenômeno fez da Associação Comercial o que, certa ocasião, denominei de “a casa do povo”, pela seriedade e magnitude como as grandes questões do interesse público eram ali tratadas, inclusive com as presenças, a convite ou quase convocação, de importantes autoridades. Estas iam até lá – e se sentiam prestigiadas – para prestar esclarecimentos e anunciar seus projetos e intenções.

Lindberg Aziz Cury fez da Associação Comercial uma caixa de ressonância dos anseios da comunidade brasiliense. Ali nasceu, inclusive, a representação política para o Distrito Federal. Inacreditável como Lindberg atraía para uma entidade eminentemente patronal, figuras tanto à direita quanto à esquerda. Sem dúvida a sinceridade e a força da sua pregação e do seu idealismo brasiliense. Ali nasceu, inclusive, a representação política para o Distrito Federal. Inacreditável como Lindberg atraía para uma entidade eminentemente patronal, figuras tanto à direita quanto à esquerda. Sem dúvida a sinceridade e a força da sua pregação e do seu idealismo brasiliense. Recordo que, ali, foi palanque para nomes de grande projeção na vida nacional: Oscar Niemeyer, Chico Buarque, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Ulisses Guimarães e o hoje presidente Lula quando líder sindical. Um dia o povo o elegeu senador, tendo, no Senado, realizado um trabalho notável.

Estou falando de Lindberg Aziz Cury e destes momentos brasilienses por causa da notícia que me foi dada pelo Fernando Pinto e também pelo encontro casual que tive, dias depois, com o próprio Lindberg. E neste, o cumprimentei por saber que estava escrevendo um depoimento sobre sua experiência de vida em Brasília.

Lindberg confirma o fato, mas me segreda: “são umas mal-traçadas linhas”. Contradigo o amigo, pois conheço o seu talento e a sua experiência como empresário, advogado, líder comunitário, orador e conselheiro da Academia de Letras de Brasília. É a modéstia que bem o caracteriza e é própria das criaturas iluminadas. Mas, Lindberg não esconde a sua ansiedade e o seu entusiasmo pelo que está fazendo, parecendo alguém que anuncia um filho que vai nascer. E posso perceber que este filho é também de Marta, sua dedicada esposa, que o tem acompanhado exemplarmente com dedicação, amor e vidência por toda uma vida. Um exemplo de mulher, de esposa admirável, de mãe devotada e de amiga fraterna.

O meu entusiasmo e a minha alegria pela confirmação que Lindeberg me dá, encoraja-o a me consultar se eu, “sendo pioneiro e historiador de Brasília”, poderia escrever umas linhas para a abertura do seu testemunho brasiliense. Claro, já estão escritas, aqui. E as faço com muita satisfação e muita honra, pois, a par de todos os seus méritos e talentos, estou falando de alguém que, pelos reveses da vida, perdeu um grande patrimônio econômico-financeiro, mas não perdeu aquilo que as traças e os ratos não corroem, nem comem, nem roubam, – a dignidade! Esta, é, sem dúvida, a grande herança que recebeu dos seus ancestrais libaneses, notadamente de “seu” Aziz e de dona Sarah, seus pais. Isto, só, já o engrandece e o consagra perante a história e a espiritualidade.

Concluindo, estou me lembrando que um dia, numa festa de aniversário do Núcleo Bandeirantes – nossa antiga Cidade Livre, berço de Brasília – referi-me a Lindberg e comparei seu trabalho e sua missão em favor de Brasília aos gestos de pioneirismo, de visão empresarial e de solidariedade universal de Mauá e João Cordeiro. Ambos empresários, ambos líderes classistas, ambos grandes prestadores de serviços às comunidades do seu tempo. Que o testemunho de Lindberg Aziz Cury, sob o formato e a perenidade do livro, cheguem à nossa e às gerações futuras, principalmente aos jovens, que terão momentos gratificantes e de aprendizagem porque neste livro vão encontrar um exemplo de vida.

Adirson Vasconcelos é escritor, jornalista e historiador.

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