Entrevista com Jacinto Guerra: As Origens de Picão Camacho em Aboim da Nóbrega
16/10/2007
O escritor e professor Jacinto Guerra, concedeu esta semana, desde Brasília, uma entrevista ao Portal de Aboim da Nóbrega, onde reafirma a importância histórica de Picão Camacho para a região mineira de Bom Despacho, no Brasil, assim como a sua provável ligação à família Picão, lugar de Picão, em Aboim da Nóbrega. Para além de escritor e professor, Jacinto Guerra foi secretário de Cultura e Turismo de Bom Despacho (1997-2000), quando se desenvolveu o Programa de Intercâmbio com Vila Verde, e levou a Bom Despacho a Orquestra Strauss, de Viena, Áustria, que, em 1997, também, se apresentou em Brasília, Goiânia, Juiz de Fora, Ouro Preto e Belo Horizonte. Jacinto Guerra é autor de vários livros, tendo o último o título “JK - Triunfo e Exílio”.
Leia a entrevista na íntegra.
Portal de Aboim da Nóbrega (PAN) – Quem foi Picão Camacho?
Jacinto Guerra (JG) – O capitão Manoel Picão Camacho foi um bandeirante luso-brasileiro que, nos fins do século XVIII, fixou moradia na região entre os rios Lambari e São Francisco, em Minas Gerais, onde se localiza Bom Despacho. A cidade surgiu de uma pequena aldeia fundada por colonizadores portugueses que vieram do Minho.
Tudo indica que Picão Camacho foi um líder influente e carismático, tanto que deu nome ao Rio Picão, (o Nilo que fertiliza as terras de Bom Despacho) e a um logradouro da cidade: a Rua Picão Camacho. No meu conto “Um Carnaval Diferente”, o sertanista Picão é personagem importante, representado por um boneco gigante que abre o desfile principal de nossa maior festa popular.
Figura lendária e histórica, além de personagem da literatura, Picão Camacho ficou no imaginário de nosso povo e começa a transformar-se num mito da região de Bom Despacho .
PAN – Qual a ligação de Bom Despacho com o bandeirante Picão?
JG – A tradição oral recolhida no século XIX pelo vigário Nicolau del Duca diz que Manoel Picão Camacho foi o primeiro homem civilizado a penetrar nas florestas virgens da região de Bom Despacho.
No entanto, estudos recentes do historiador Orlando Ferreira de Freitas, em seu livro Raízes de Bom Despacho, comprova a importância histórica do capitão Camacho, de quem é descendente, mas revela que outros colonizadores portugueses o precederam na conquista da região.
Além disto, primitivos moradores deixaram vestígios arqueológicos de sua presença em território bondespachense, com é o caso da Igaçaba da Fazenda Indaiá, uma das peças mais importantes do Museu da Cidade. A nossa cultura popular foi, também, enriquecida pelos negros que, fugindo da escravidão, no período colonial, aqui organizaram quilombos duramente combatidos pelos capitães-de-mato.
PAN – Como os bondespachenses relacionaram Picão Camacho com Vila Verde e, especialmente, Aboim da Nóbrega?
JG – Em 1997, em companhia de autoridades municipais de Vila Verde – os vereadores Pimenta Pereira e Mota Alves – visitamos Aboim da Nóbrega e, especialmente a Casa de Picão Camacho, edificada no século XVIII.
As autoridades vilaverdenses informaram à delegação de Bom Despacho (liderada pelo então Presidente de nossa Câmara Municipal, vereador Francisco Araújo Cançado ) que aquele bem cultural era a antiga moradia da Família Picão Camacho, provavelmente dos pais do sertanista Picão, que teriam vindo para Brasil, dando origem aos Camacho brasileiros.
Mota Alves informou-me que a USP – Universidade de São Paulo, na década de 1940, publicou uma obra sobre a Família Picão Camacho. O historiador Tarcísio Martins – natural de Moema, região de Bom Despacho, e radicado em São Paulo – tem estudos sobre a família do bandeirante Picão. Acredito que outras luzes sobre o assunto poderão surgir em Braga, na Universidade do Minho.e, também, no Brasil, entre estudiosos e pesquisadores.
Em 1998, ao receber o Prêmio MG Turismo, no Ouro Minas Hotel, em Belo Horizonte, o presidente da Câmara Municipal de Vila Verde, José Manuel Fernandes, fez interessante divulgação internacional do Lenço dos Namorados – e definiu Manoel Picão Camacho como um símbolo do intercâmbio de seu Concelho com a cidade de Bom Despacho.
Tudo leva a crer que o capitão Camacho tem suas raízes familiares na província do Minho, em Aboim da Nóbrega. De qualquer forma, por estas e outras razões – também interessantes – são promissoras as nossas relações com Vila Verde e Aboim da Nóbrega, povoação que tem muito a ver com o nosso Engenho do Ribeiro, próspero distrito e vila de Bom Despacho, cidade e município da República Federativa do Brasil.
Tudo isto inspirou Bom Despacho a tornar-se a cidade da Senhora do Sol, porque antigamente, no Minho, Nossa Senhora do Bom Despacho assim era chamada pelos seus devotos. São, portanto, razões culturais muito sólidas que levaram as duas cidades luso-brasileiras – Bom Despacho e Vila Verde – a se unirem num programa de intercâmbio e de geminação voltado para a história e futuro de nossas comunidades.
31 de Janeiro, 2008 às 6:17 am
O meu bom amigo Jacinto Guerra tem revelado certa preponderância para o estudo histórico e consequente edição dos seus trabalhos. Pena que outras hipóteses subsidiadas não lhe sejam concedidas.