Morre o poeta Cassiano Nunes


16/10/2007

Cassiano Nunes em uma de suas últimas aparições públicas, no Carpe DiemÉ com pesar que noticiamos o falecimento do professor e cidadão honorário de Brasília Cassiano Nunes Botica, que faleceu na tarde de ontem, 15 de outubro. O velório está previsto para às 14h, no Campo da Esperança, capela nº 3, e o sepultamento ocorrerá às 17h. Conclamamos os colegas confrades e escritores em geral a darem o adeus final ao mestre Cassiano Nunes, o poeta da solidão.

Autor de dezenas de livros, muito querido no meio universitário e literário, Cassiano Nunes nasceu em Santos a 27 de abril de 1921. É filho de imigrantes portugueses. Passou sua infância na Rua Paraná, rua proletária do bairro da Vila Matias, na sua cidade natal, que focalizou na peça Sempre Haverá Anjos - representada no Estados Unidos com o título Angels Provided. Essa e´poca de sua vida, e de modo especial, sua família foram também teatralizadas no drama autobriográfico As Luvas de Ema. Fourmou-se contador no Ginásio Santista, dirigido pelos irmãos Maristas. Foi durante três anos datilógrafo do Instituto de Aposentadoria e Pensões da Estiva. Em A tribuna, de Santos, foi revisor, repórter, redator e crítico literário. Neste matutino, em que publicou seus primeiros artigos em 1937. O seu interesse pela cultura norte-americana concorreu para que fosse convidado a trabalhar no Office of Inter-American Affairs, de Santos, onde chegou à chefia.

No princípio da década de 40, Cassiano Nunes participou do movimento literário santista, denominado pesquisista, na companhia de Cid Silveira, Miroel Silveira, Francisco de Marchi e outros. Mais tarde, com Patrícia Galvão e Geraldo Ferraz, liderou o Centro de estudos Fernando Pessoa. Em 1947, o escritor decide deixar Santos e Edgard Cavalheiro consegue para ele o lugar de secretário-executivo da Câmara Brasileira do Livro, recém-fundada. Nesta posição, secretaria o Primeiro Congresso de Escritores do estado de São Paulo, realizado em Limeira, em que concita seus colegas à defesa do cidadão comum, ou seja, dos direitos humanos, naquela época violados pelo autoritarismo do Estado Novo.

Antes que 1947 finde, o escritor vai ao Estados Unidos, com bolsa de estudos oferecida por instituição cultural americana. Em Miami University (Oxford, Ohio), durante um ano, estuda Literatura Norte-Americana. Voltando ao Brasil vai trabalhar com Mário de Silva Brito na orientação literária de Saraiva S.A. Livreiros Editores, e colabora para o sucesso da famosa Coleção Saraiva. Entrementes estuda latim no curso do Prof. Castelões (onde fica amigo de Antunes Filho e Nelson Xavier) e não tarda a ingressar no Curso de Letras Anglo-Germânicas de Universidade de São Paulo, que conclui em 1954. Durante o ano de 1955, faz curso de doutoramento. De novo com bolsa de estudos, dirige-se para a alemanha, onde vai estudar literatura alemã na Universidade de Heildelberg. Nessa Universidade, dá um curso sobre a poesia modernista do Brasil.

Em 1958, a convite do Prof. Antonio Soares Amora integra a turma dos professores que fundaram a Faculdade de Letras de Assis. Deixa então, a Saraiva para dedicar-se ao magistério. Em 60, Cassiano Nunes volta a São Paulo e trabalha de novo em editora - a Edart - e redige a revista de revendedores da Ford, a convite do Dr. Siro Poggi. De 62 a 65, na qualidade de visiting professor leciona as literaturas brasileira e portuguesa em New York University.

Voltando ao Brasil, intala-se em Brasília a fim de lecionar na Universidade de Brasília, onde, ao completar 70 anos, é aposentado. Em Brasília o professor santista tem intensa participalão na vida cultural. ocasionalmente, deu curso fora: assim se apresentou na Alemanha, na Universidade de Colônia, no Equador, e, no Brasil, na Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá. Nos últimos anos o escritor dedica-se à pesquisa da correspondência inédita de Monteiro Lobato, esforço que não chegou a sensibilizar nenhuma instituição cultural brasileira. às suas expensa, já publicou vários ensaios lobatianos, que têm merecido louvores nos país, e, no exterior, até da Enciclopédia Britânica. algumas teses e obras já lhe foram dedicadas. Seus poemas, que começou a escrever tardiamente, já foram traduzidos para vários idiomas, de modo especial o inglês.

2 comentários para “Morre o poeta Cassiano Nunes”

  1. Berê Bahia comenta:

    QUE VIVA CASSIANO!

    Para quem teve o privigélio de conviver com o “mestre”, guardará sempre na lembrança e na retina sua figura dócil, andarilho dos espaços vazios de Brasília (da HIGS 711 ao Beirute), preenchidos de pausas para cumprimentar conhecidos e transeuntes, sempre com algum comentário pertinente da vida cotidiana da cidade e dos vários brasis. Homem cordial, de fala mansa, olhar prescrutador de almas e sorriso enigmático de “Mona Lisa”, um gentleman, na verdadeira concepção da palavra…

    Obrigada Bernardo Bernardes, por ter eternisado o professor Cassiano no seu Curta-Metragem “VIVA CASSIANO!(vencedor do prêmio Júri Popular)no 37° Festival do Brasília do Cinema Brasileiro, 2004.

  2. Angelo Mendes Corrêa comenta:

    Mestre Cassiano
    Cassiano Nunes nos deixou exatamente no Dia dos Professores, ele que foi ao longo de sua vida um excepcional mestre para tantas gerações.
    Espírito de rara erudição, sensibilidade e generosidade, interlocutor dos maiores nomes de nosso Modernismo, teve uma trajetória de vida admirável, de um combatente que jamais dá trégua na busca de seus ideais.
    O vácuo que deixará em nossos meios literários certamente será imenso, mas seu legado intelectual e humano estará sempre presente na memória daqueles que tiveram o privilégio de ser seus amigos.

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