Morre o poeta Cassiano Nunes
É com pesar que noticiamos o falecimento do professor e cidadão honorário de Brasília Cassiano Nunes Botica, que faleceu na tarde de ontem, 15 de outubro. O velório está previsto para às 14h, no Campo da Esperança, capela nº 3, e o sepultamento ocorrerá às 17h. Conclamamos os colegas confrades e escritores em geral a darem o adeus final ao mestre Cassiano Nunes, o poeta da solidão.
Autor de dezenas de livros, muito querido no meio universitário e literário, Cassiano Nunes nasceu em Santos a 27 de abril de 1921. É filho de imigrantes portugueses. Passou sua infância na Rua Paraná, rua proletária do bairro da Vila Matias, na sua cidade natal, que focalizou na peça Sempre Haverá Anjos – representada no Estados Unidos com o título Angels Provided. Essa e´poca de sua vida, e de modo especial, sua família foram também teatralizadas no drama autobriográfico As Luvas de Ema. Fourmou-se contador no Ginásio Santista, dirigido pelos irmãos Maristas. Foi durante três anos datilógrafo do Instituto de Aposentadoria e Pensões da Estiva. Em A tribuna, de Santos, foi revisor, repórter, redator e crítico literário. Neste matutino, em que publicou seus primeiros artigos em 1937. O seu interesse pela cultura norte-americana concorreu para que fosse convidado a trabalhar no Office of Inter-American Affairs, de Santos, onde chegou à chefia.
No princípio da década de 40, Cassiano Nunes participou do movimento literário santista, denominado pesquisista, na companhia de Cid Silveira, Miroel Silveira, Francisco de Marchi e outros. Mais tarde, com Patrícia Galvão e Geraldo Ferraz, liderou o Centro de estudos Fernando Pessoa. Em 1947, o escritor decide deixar Santos e Edgard Cavalheiro consegue para ele o lugar de secretário-executivo da Câmara Brasileira do Livro, recém-fundada. Nesta posição, secretaria o Primeiro Congresso de Escritores do estado de São Paulo, realizado em Limeira, em que concita seus colegas à defesa do cidadão comum, ou seja, dos direitos humanos, naquela época violados pelo autoritarismo do Estado Novo.
Antes que 1947 finde, o escritor vai ao Estados Unidos, com bolsa de estudos oferecida por instituição cultural americana. Em Miami University (Oxford, Ohio), durante um ano, estuda Literatura Norte-Americana. Voltando ao Brasil vai trabalhar com Mário de Silva Brito na orientação literária de Saraiva S.A. Livreiros Editores, e colabora para o sucesso da famosa Coleção Saraiva. Entrementes estuda latim no curso do Prof. Castelões (onde fica amigo de Antunes Filho e Nelson Xavier) e não tarda a ingressar no Curso de Letras Anglo-Germânicas de Universidade de São Paulo, que conclui em 1954. Durante o ano de 1955, faz curso de doutoramento. De novo com bolsa de estudos, dirige-se para a alemanha, onde vai estudar literatura alemã na Universidade de Heildelberg. Nessa Universidade, dá um curso sobre a poesia modernista do Brasil.
Em 1958, a convite do Prof. Antonio Soares Amora integra a turma dos professores que fundaram a Faculdade de Letras de Assis. Deixa então, a Saraiva para dedicar-se ao magistério. Em 60, Cassiano Nunes volta a São Paulo e trabalha de novo em editora – a Edart – e redige a revista de revendedores da Ford, a convite do Dr. Siro Poggi. De 62 a 65, na qualidade de visiting professor leciona as literaturas brasileira e portuguesa em New York University.
Voltando ao Brasil, intala-se em Brasília a fim de lecionar na Universidade de Brasília, onde, ao completar 70 anos, é aposentado. Em Brasília o professor santista tem intensa participalão na vida cultural. ocasionalmente, deu curso fora: assim se apresentou na Alemanha, na Universidade de Colônia, no Equador, e, no Brasil, na Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá. Nos últimos anos o escritor dedica-se à pesquisa da correspondência inédita de Monteiro Lobato, esforço que não chegou a sensibilizar nenhuma instituição cultural brasileira. às suas expensa, já publicou vários ensaios lobatianos, que têm merecido louvores nos país, e, no exterior, até da Enciclopédia Britânica. algumas teses e obras já lhe foram dedicadas. Seus poemas, que começou a escrever tardiamente, já foram traduzidos para vários idiomas, de modo especial o inglês.
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Comentários
Mestre Cassiano
Cassiano Nunes nos deixou exatamente no Dia dos Professores, ele que foi ao longo de sua vida um excepcional mestre para tantas gerações.
Espírito de rara erudição, sensibilidade e generosidade, interlocutor dos maiores nomes de nosso Modernismo, teve uma trajetória de vida admirável, de um combatente que jamais dá trégua na busca de seus ideais.
O vácuo que deixará em nossos meios literários certamente será imenso, mas seu legado intelectual e humano estará sempre presente na memória daqueles que tiveram o privilégio de ser seus amigos.
Tive o previlégio de conhecê-lo quando eu era muito jovem, na chácara de Nair Lacerda em Ribeirão Pires. Era uma pessoa de riso fácil, pois estava sempre alegre. Foi revisor da tradução das Mil e Uma Noites feita para a editora Saraiva que valeu a Nair Lacerda o prêmio Jabuti de Literatura. É uma pena que Deus nos prive das melhores pessoas que vivem neste mundo. Tenho certeza Cassiano que você já encontrou Nair e estão com tantos outros amigos da Literatura relembrando tempos de outrora.
Estou muito emocionada. O meu avô materno, José Nunes Botica Júnior, sempre me disse que teve um irmão, de quem gostava muito, e que foi para o Brasil e que nunca mais soube nada dele. As últimas informações dadas pelo meu avô e minha mãe, foi de que havia um familiar Escritor. Eu era criança, mas nunca esqueci isso. Meu avô morreu em 1972. A minha mãe morreu em 2003. Lamento que, só agora, tivesse feito esta descoberta, graças à internet. Minha mãe, onde quer que esteja, estará feliz, por ver que eu nunca esqueci e investiguei. Tenho 65 anos, 2 filhas, 1 filho e 2 netas.
Meu estimado professor, cuja gentileza e carinho me ensinaram a ser professor também, cuja poesia me inspirou e cuja amizade sempre me honrou!

QUE VIVA CASSIANO!
Para quem teve o privigélio de conviver com o “mestre”, guardará sempre na lembrança e na retina sua figura dócil, andarilho dos espaços vazios de Brasília (da HIGS 711 ao Beirute), preenchidos de pausas para cumprimentar conhecidos e transeuntes, sempre com algum comentário pertinente da vida cotidiana da cidade e dos vários brasis. Homem cordial, de fala mansa, olhar prescrutador de almas e sorriso enigmático de “Mona Lisa”, um gentleman, na verdadeira concepção da palavra…
Obrigada Bernardo Bernardes, por ter eternisado o professor Cassiano no seu Curta-Metragem “VIVA CASSIANO!(vencedor do prêmio Júri Popular)no 37° Festival do Brasília do Cinema Brasileiro, 2004.