Em Brasília, um Centro Cultural para o o Poeta Cassiano Nunes
Jacinto Guerra *
No Caderno Pensar (Correio Braziliense, 20-10-07) o jornalista e crítico literário Pedro Paulo Rezende afirma, com clareza e propriedade: “A maior homenagem que Brasília poderia fazer para Cassiano Nunes seria transformar sua casa em um centro cultural.”
O jornalista tem toda razão: esta é, sem dúvida, a melhor iniciativa que a cidade poderá realizar em homenagem a este notável cidadão de Brasília.
A opinião, divulgada inicialmente pelo Correio Braziliense, já tem o apoio de duas instituições culturais importantes – a ANE – Associação Nacional de Escritores e Casa do Poeta de Brasília –, que já iniciaram uma campanha pela instituição da Casa de Cassiano Nunes, num movimento de reivindicação comunitária ao Governo do Distrito Federal, Universidade de Brasília e Ministério da Cultura.
Conheçemos de perto o interesse e o empenho do Secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, em preservar, da melhor forma possível, a memória de Cassiano Nunes (1921 - 2007), o poeta cuja obra pode ser lembrada em frase lapidar de um de seus mais belos poemas: “Nunca me sinto pobre ao contemplar as estrelas.”
Mais do que uma fantástica biblioteca, em área urbana densamente povoada na Asa Sul, o Centro Cultural Cassiano Nunes poderá ser uma obra definitiva do governador José Roberto Arruda, no sentido de enriquecer ainda mais o Patrimônio Cultural e Literário de nossa Brasília, na véspera de seu cinqüentenário.
Com isto, a capital da Esperança terá mais um espaço de arte e cultura aberto ao povo, com milhares de livros à disposição do público, de estudantes e de pesquisadores – um moderno Museu Literário, digno da capital de um grande país, como é o Brasil.
Certamente, para um projeto da importância cultural e comunitária como este, não faltarão empresas interessadas em investir com um retorno certo de imagem, porque estarão, também, ajudando a fazer de Brasília, cada vez mais, uma cidade de leitores e de cidadãos melhor preparados para o futuro.
Professor de literatura, poeta, conferencista e animador cultural dos mais notáveis que o Brasil conheceu, Cassiano Nunes nunca esteve na torre de marfim dos intelectuais: foi sempre um homem do povo, fazendo de sua casa na 711 Sul um espaço dos livros e das mais generosas idéias em benefício do Brasil que, no dizer do poeta, “apesar de tudo …ainda persiste em ser uma terra de amor, como a celebrou Mário de Andrade num verso imortal do Noturno de Belo Horizonte.”
Por estas razões, nossas lideranças culturais e empresariais devem reivindicar, com empenho – ao Governo do Distrito Federal, à Universidade de Brasília e ao Ministério da Cultura – a instituição da Casa de Cassiano Nunes, a ser incorporada e administrada pela UnB, como um ativo centro da memória cultural e literária da cidade que ele tanto amou.
Desmembrar o grande acervo de livros da Casa de Cassiano Nunes, destinando-os à UnB e à Biblioteca Nacional de Brasília, como tem sido anunciado, é uma homenagem menor. Cassiano, Brasília e o povo do Distrito Federal merecem muito mais.
Entendemos que a residência do professor Cassiano Nunes, com todos os seus 30 mil livros, centenas de documentos e os pertences do poeta constituem um conjunto de bens culturais de elevado interesse público, para Brasília e o país. Tudo isto está a indicar que o GDF deverá negociar com o herdeiro do imóvel, em busca de uma justa indenização, esclarecendo que será inevitável o seu Tombamento pelo Poder Público como bem cultural de grande interesse para a comunidade do Distrito Federal.
Natural de Santos, no litoral paulista, filho de imigrantes portugueses, Cassiano estudou e lecionou em grandes universidades da Europa e dos Estados Unidos. Andou pelas ilhas de Cabo Verde e outros lugares mundo afora. Conheceu o Brasil das grandes cidades e o vasto interior do país, que ele muito admirava, dizendo que sua ambição, quando jovem, era “ser vento e geografia.”. Foi, sobretudo, um mestre muito querido e, como escritor, deixou prosa e poesia da melhor qualidade, demonstrando uma grande visão de esperança no Brasil – e uma crença sem limites nos altos valores da cultura humana.
*Jacinto Guerra, professor e escritor, é um dos membros da Campanha da ANE pela instituição da Casa de Cassiano Nunes, criada por ato do presidente da Associação Nacional de Escritores, jornalista e poeta Joanyr de Oliveira. Outro membro da Comissão é o professor Luiz Carlos Cerqueira, presidente da Casa do Poeta de Brasília.
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