Modernidade
Por Danilo Pretti Di Giorgi*
Qual seria o significado de “moderno”? Como seria um “país moderno”? Depois de ler a edição especial de 40 anos da revista Exame de outubro, cuja capa gritava “1967-2007, a construção de um país moderno” - mas que para mim apresenta idéias ultrapassadas - , resolvi recorrer ao dicionário. Na minha busca, o sentido que mais se aproxima do que imagino o editor da revista tenha tentado transmitir é o que traz a idéia de contemporaneidade, de atualidade.
A capa é ilustrada com uma montagem de fotografias daqueles prédios de vidro escurecido, de arquitetura futurista, edifícios normalmente pouco eficientes energeticamente, com pouco aproveitamento da luz solar e lacrados de forma a tornar essencial o uso constante de aparelhos de ar condicionado e luzes artificiais. Modernos?
Com as informações das quais dispomos hoje sobre a crise ambiental, em especial do clima, “moderno”, no meu entender, é pensar um novo mundo, onde o ser humano consiga reconstruir suas idéias e sua forma de vida para alcançar uma nova relação, mais benigna, com o planeta. Reduzir a demanda por energia e o consumo são essenciais para atingir essa meta.
Mas o pessoal que fez a revista não parece pensar assim. A palavra “moderno” é repetida incontáveis vezes nas reportagens, sempre associada à proliferação de automóveis e shopping-centers, à explosão do consumo e ao inchaço das cidades. Monstruosidades como a Grande São Paulo, um aglomerado insustentável de 18 milhões de seres humanos, são colocadas como prova de que o Brasil está indo no caminho certo. De que o país saiu de uma economia “agrária, atrasada e fechada (…) para transformar-se numa economia moderna e relevante para o mundo”.
No final da matéria principal (e só ali), em um breve parágrafo, são espremidas as dívidas sociais do país. Detalhes como a fome, a violência, a vexaminosa concentração de renda e uma taxa de analfabetismo superior à média da América Latina não podem atrapalhar uma festa tão bonita e luxuosa do Brasil “moderno”. Por falar nisso, a Daslu, claro, é citada como prova do sucesso do nosso modelo de país.
Toda a lógica das reportagens especiais pode ser resumida na idéia de que a felicidade humana mora no consumo, no crescimento do poder de compra e em quanto um povo é capaz de comprar bens supérfluos (aliás, a palavra “supérfluo”, que fazia muito sucesso antigamente, parece agora ter saído de moda. Sinal dos tempos). Os Estados Unidos, “a sociedade de consumo por definição”, são colocados como objetivo a ser alcançado por nós brasileiros.
A esta altura você pode estar se perguntando com eu poderia esperar algo diferente de uma revista de direita. Tem razão, e eu não espero. O que quero, voltando à questão colocada no início do texto, é questionar o conceito de “moderno”, usado pela revista para defender o aumento da produção e do consumo e a transferência das pessoas do campo, para que se acumulem nas cidades e sejam substituídas por máquinas.
Como podem os responsáveis pelos textos daquela revista ignorar a realidade que nos cerca a todos, eles incluídos? Como podem propor como ideal para o futuro que todos os povos atinjam o padrão de consumo dos norte-americanos, quando se sabe que isto é impossível? É de conhecimento de todos que não dispomos de recursos naturais para tanto.
A Exame, assim como a revista Veja, transformou-se, já há alguns anos, numa revista editorialista. Não existem mais reportagens, apenas textos editoriais reafirmando a forma de pensar do Grupo Abril. Uma reportagem recente da Veja também comemora, ignorando a questão ambiental, o recorde em 2007 na venda de carros (2,5 milhões) e de celulares (50 milhões).
O que seria do mundo se todo habitante adulto dirigisse seu próprio carro? Que seria do Brasil e de outros países marginalizados se chegássemos às taxas americanas, de quase um carro por habitante? Do ar? Do trânsito?
Fico em dúvida se este pessoal realmente ainda não entendeu a gravidade da situação ecológica “moderna” ou se estamos lidando com hipocrisia pura. Chego à conclusão, ao ler, na mesma edição, uma reportagem orientando os empresários sobre as formas de aplicação mais eficientes de seus programas sócio-ambientais, que a ficha não caiu. A responsabilidade ambiental é vista apenas na sua casca, apenas como forma de melhorar a imagem da empresa, sem reflexão sobre seu real sentido e sem aprofundamento no tema.
Existe um abismo, em textos de um mesmo veículo de comunicação, entre a defesa do ambientalismo como ideal, de um lado, e a defesa de atitudes que vão contra os princípios que mostram ser realmente efetivos na batalha contra o descontrole climático, de outro. Isso é comum não apenas nas páginas de revistas reacionárias, mas dentro de nós mesmos.
Também não é fácil lidar com a situação para aqueles entre nós para os quais a ficha já caiu, para quem já entendeu a gravidade da situação e sabe que não há outro caminho a seguir que não o de uma mudança radical nos hábitos, costumes e formas de nos relacionarmos com tudo o que nos rodeia no planeta. Como resolver este enigma vivendo dentro de um sistema ainda baseado nas formas ultrapassadas – para alguns, modernas – de lidar com a realidade que nos cerca é um enigma cuja resposta deve ser encontrada por cada um, numa busca dentro de si mesmo.
* Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista. Email: digiorgi@gmail.com
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Comentários
Oi Dirceu Coutinho, vou guardar com muito carinho o seu comentário. Me mande seu email para trocarmos mais ideias. O meu é digiorgi@gmail.com
abs
Danilo

Caro senhor,
Reverencio suas palavras e parabenizo-o pela consideração ao equilíbrio ecológico. No entanto gostaria eu de enfatizar alguns aspectos e até mesmo propor reflexões.
Chamou-me atenção o uso do termo “moderno” para algo já antiquado no novo cenário que posso dizer: holiwodiano. Bem denomino-o assim pelo fato de que hoje é muito lindo, glamuroso, “fashion”, afirmar o ser ecologicamente correto. Todos, desde estrelas do cinema a mercenários da informação, exatamente todos, na tentativa de sobreviver ao mercado da publicidade pessoal, ao jogo de conquistas imbecilizados da nossa sociedade humana dizem-se ecologicamente corretos. Vejo pessoas reproduzir, repetir tudo o que vê, ouve e sente como sendo importante só por que está na MODA. Acho que a chave de tudo o qual pretendo resume-se a essa palavra amiga de todos… Não sei o que é pior: se a moda ou o homem enganado por ela; sei que tagarelar a respeito do mundo e das formas de abordagens sociais soa-me contraditório quando o sujeito não se apresenta com determinados predicados inerentes às afirmações. Uma coisa pode parecer óbviamente errônea mas mesmo assim optarmos por ela.Um caso típico é o dos carros, todo mundo sabe que grande parte da poluição atmosféria advém de veículos mas ninguém consegue viver sem eles. Todo mundo sabe que a ambição está destruindo o Homo sapiens sapiens e mesmo assim todos almejam um salário melhor, passar em um concurso melhor, fazer um doutorado para dar aula em um lugar melhor e tudo isso para ter um carro melhor, um apartamento melhor, uma mulher melhor, uma escola melhor…melhor…melhor(a verdadeira repetição de algo que alguém em algum lugar disse estar correto e que desde crianças assim fazemos). Acho que já está na hora de realmente propormos algo e mais do que isso, agirmos coerentemente, de acordo com nossos ideais e não ficar “papagueando” o óbvio. Como diz um amigo meu “o óbvio é óbvio mas deve ser lembrado”. Para mim o óbvio nesse caso é que no mundo subdesenvolvido a esperança maior está no padrão de vida americano (pode perguntar para quem quiser e veja se estou mentindo). Aqui, “no subdesenvolvimento”, a preocupação é a mesma dos “povos do desenvovimento”: dinheiro e sucesso. Somente alguns seres nascem com uma mentalidade coletivista, a maioria, de forma extremamente esmagadora só quer saber de ficar “na boa”. Para mim chega de oratória decorada, de querer impressionar com a moda. Estar na moda não é somente usar apetrechos materiais, mas também ideais. Quero deixar bem claro que não o conheço e não afirmo ser o senhor mais um tagarela, o que pretendo é instigar um raciocício já em fase de estagnação a respeito do que é certo ou errado
no agir humano. Deixo uma questão para ser respondida por qualquer um que esteja lendo esse comentário: é errado uma pessoa nascida em berço de lama almejar, para seu filho, berço de ouro?
E em caso extremo, como os que vemos em Brasília, pessoa nascida em berço de ouro almejar, para seu filho, berço de diamante?
Como diz um outro amigo meu: são as razões humanas.E voltando a questão da revistas que o senhor expos, acho que eles, os riquíssimos editores de lá, também estão preocupados com o futuro de seus filhos!
Espero que o homem aprenda a olhar para o seu próprio umbigo… Quer dizer, cordão umbilical, pois todo alimento vem da sociedade.
Agradeço a oportunidade e aguardo réplica, afinal pensar é tão bom…