Espírito Natalino

Conto natalino de Gerson Valle* publicado na Série O Livro Na Rua, Escritores Brasileiros Contemporâneos.

- Machado de Assis indagava-se, perplexo ante as transformações ocorridas no passar do tempo, se foi ele ou o Natal que mudou. Eu nada pergunto-me. Natal já não há! - pontificou Isaac, coçando seus longos bigodes de filósofo verdadeiramente nietzschiano, nos idos dos mil novecentos e noventa e quase dois mil. E concluiu para seu amigo interlocutor, conhecido pelo apelido de Papai Noel:
- Esta certeza o fim de século me assegura. Se alguma coisa mudou fui eu, com meu corpo mais usado, a cabeça mais cansada… O Natal não pode mudar, pois não muda o que não há.

Sim, Deus morrera com Nietzsche, saiu da conversa, pensando, Papai Noel. Os filósofos andam antes do tempo. Sua morte verdadeira deu-se ao longo do nosso século. E este chega ao fim, sem mais esperar pelo Seu nascimento, renascimento que se dava a todo ano. Fora falso ou verdadeiro aquele espírito, a idéia do retorno, de algo bom acontecendo… Isto morrendo, o que será da Humanidade? Mas, a colocação de Isaac, tão comum a todo analista de nossa época, seria tão definitiva assim? de só ver o materialismo triunfando, o consumismo, individualismo, a violência, a nenhuma reverência a qualquer valor hierárquico, que dirá à deidade, tudo isto, enfim, que parece compor a era pós-bomba-atômica? Teria sido a partir dela o grande desengano de todos nós? Ou seria só o comercial de todo instante de nossas televisões coloridas? Eu, se mergulho no fundo de mim mesmo, não encontro nenhum Natal por lá?

Papai Noel é como era conhecido desde os tempos da adolescência. Quando lhe saiu a barba, um que outro fio de cabelo branco apareceu também em sua cabeça. Ou foi por isto ou isto foi simplesmente coincidência. Na verdade, seus colegas de colégio já o tratavam como um cara desprendido, que gostava de beneficiar os outros, como Papai Noel gosta de dar presente. Dizem que foi uma amiga que ele adorava, mas que sabia que poderia namorá-lo só por desfastio (sabia que ela não tinha especial afeição por ele, mas era possível namorá-la) quem lhe deu o apelido. Apesar de adorá-la namorou uma outra moça só porque soube que ela estava gamadíssima por ele, e, assim, não quis magoá-la. Foi deste fato que, dizem, a tal amiga adorada mas não namorada, lhe inventou o apelido. O fato pode ter sido este ou qualquer outro, revelando, de toda forma, alguma coisa característica de seu espírito, algo que tem a ver com Papai Noel, ou, quem sabe, o próprio espírito de Natal?

Da casa de Isaac à sua casa passava pela igreja do Sagrado Coração de Jesus. Subindo uma ladeirinha, dava no pátio externo da igreja, um estacionamento para os carros dos devotos. Subiu ali sem pensar bem porquê. Vontade de entrar numa igreja…. Há quanto tempo não fazia isto! Desde a missa de sétimo dia de sua mãe. Não tinha a mínima idéia do que ali dentro se passava. Existe algum público ainda aos domingos? Alguém ainda crê? E depois da missa, assiste-se a aqueles filmes de estupro e assassinatos com a mesma inocência de quem tira meleca do nariz? Sem valorizar, refletir, descriminar? Então, o cristianismo morreu mesmo. Isaac está certo: Natal já não há.
Não teve coragem de entrar na igreja. Para quê? O que isto iria mudar, se não lhe ocorria a convicção consciente da verdadeira fé? Porém, todo ano, nele, por algumas horas, no dia de Natal, alguma emoção lhe tocava, lembrando-se de uma vaga impressão trazida da infância. No fundo de si mesmo havia, na verdade, o quê de indescritível e agradável? E teve medo que neste ano não retornasse aquela sensação gostosa, que é como compartilhar suas secretas sensações, tocar na alma alheia com sua própria alma, penetrar na serenidade equilibrada do universo… Religou o carro e continuou seu caminho para casa.

- Temo ser o Natal passado tão glorioso que ofusque a pompa deste meu novo reinado - poetou. - Sim, a vida me deu um reinado. O ar que respiro, os morros que me cercam… O significado de Natal é sentir a beleza deste mundo. Nascer para ele. Será que o vou perder também, como todos? Ao menos como todos na visão de Isaac? Será que vou passar ao lado de tantas árvores sem notar que elas existem? No Natal enfeitam-se árvores para que todos se lembrem de como são belas. É como a maquiagem na mulher… Não é que ela precise, mas realça e chama a atenção. Os meus natais passados tinham algum sabor, sim. Depois passa, os hábitos cotidianos fazem esquecer os quadros pendurados na parede, de tanto que ao largo delas passamos, esquecendo de olharmos seus detalhes. O Natal é o momento. Passa, sim. Tudo passa. Mas, como é necessário! Terei ainda tais momentos? Os outros, todo mundo, será que terão?

Com o cigarro na boca, deixou o carro encostado ao meio fio da calçada. Não dava para chegar até sua casa e jogá-lo no cinzeiro. Nenhuma lata de lixo pela rua. Isto, para Papai Noel, era sempre uma tortura. Já queimara diversas vezes os dedos por não encontrar onde jogar fora seu cigarro. Outras vezes apagava-o na sola do sapato, e guardava a guimba no bolso, até encontrar onde dela se desfazer sem formar lixo no chão. Mas, isto é inconfortável, acaba deixando cinzas no bolso… Como é que o comum das pessoas age? Como é que se pode sujar as ruas? Revoltava-se mais quando via jogarem não só cigarros, mas garrafas, lixo, nos rios… Como é que alguém pode conviver com a idéia de estar destruindo seu próprio reinado? A paisagem que nos cerca é a única consolação para nossas vistas. Sujá-la, enfeiá-la, poluí-la, destruindo as matas, deteriorando tudo, é acabar aos poucos conosco mesmo. É fazer, definitivamente, que os bons e raros momentos de nossos natais não retornem nunca mais. Afundar-nos na cinzenta desintegração da vida, retorno ao caos, insensibilizar-se para sempre. O cigarro era seu companheiro de toda hora. Gostava dele. Mas, o horror de não ter onde se ver livre de seu toco final, tirava-lhe até o prazer que sentia nas tragadas. E isto se repetia sempre. A angústia de não ter mais natais. Tomou, então a resolução que mais poderia se aproximar de seu espírito de Papai Noel: deixou de fumar! Assim, independentemente de seu sacrifício do prazer de fumar, não teria mais como incomodar os não fumantes com suas fumaças representativas de pensamentos que ninguém tem nada a ver, ou magoar o meio ambiente com os restos que não sabia onde colocar, os filtros difíceis de destruir, as cinzas manchando poltronas e vestidos de namoradas… Não mais incomodando ninguém, sentia-se feliz. E, ao contrário de Machado de Assis não perguntava se o Natal ou ele tinha mudado. Mudara nada, Isaac. O espírito natalino estava dentro dele mesmo. De todo nós se quisermos nos ligar ao que somos. Sobretudo se temos tantos morros vistosos em seu verde exuberante a nos rodear. Não entrava na igreja, mas em volta de si havia um altar, e Deus nascia a cada instante em seu coração altruísta, talvez levando-lhe a natureza de Petrópolis, como a de todo lugar, para quem sabe olhar, para a essência da alma, quer ele acreditasse ou não no Natal, em sua cidade, ou em si mesmo.

* GERSON VALLE tem cerca de 300 publicações em periódicos do Brasil e do exterior (França, Áustria e Itália). Em livros publicou, além da área jurídica: POESIA: “Confetes de muitos carnavais” (ed. Independente, 1982); “Passagem dos anos” (Edições Pirata, Recife, Pe, 1984), “Aparições” (Poiésis, 2001) e “Vozes trazidas pelos ventos” (Poiésis, 2005); TRADUÇÃO de “Lendas” de Gustavo Adolfo Bécquer (Poiésis, 1997); FICÇÃO: “Os souvenirs da prostituta – A novela de Ipanema” (Catedral das Letras, 2006), “Pela internet – Novelas de uma nova era” (EntreLivros Editora, 2006), BIOGRAFIA: “Jorge Antunes, uma trajetória de arte e política” (Sistrum, Brasília, 2003). POEMAS MUSICADOS por Jorge Antunes, Ernani Aguiar, Guilherme Bauer, Ricardo Tacuchian, etc. LIBRETOS PARA ÓPERAS de Jorge Antunes (“Olga”, encenada no Teatro Municipal de São Paulo na temporada de 2006), Odemar Brígido (“A noite de Iemanjá”), Guilherme Bauer (“Fronteira”, baseada no romance homônimo de Cornelio Penna). PEÇA INFANTIL ENCENADA: “Dança das árvores” (Petrópolis, 2001). Prêmios: 1º lugar no concurso de contos da Associação Nacional dos Escritores (ANE) em 2006; 1º lugar em 2004 e 2º lugar em 2003 em concurso de poesia da Accademia Internazionale Il Convívio (Itália); Concurso Osman Lins de Contos da Fundação de Cultura Cidade do Recife; Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody; Livro de Poesia do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro; distinção em prosa e poesia de 2005 pela Academia Petropolitana de Letras, etc. É conselheiro editorial da publicação mensal “Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte” desde 1998.

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