A sempre renovadamente mesma poesia
Por Alfredo Dolcino Motta*
Em Um Sol Maior que o Sol, temos um César de Araújo sempre renovado e, por paradoxal que pareça, o mesmo.
Renovado, na medida em que o Poeta se apresenta definitivamente maduro, consciente, na plenitude do domínio do seu ofício de escritor, a explorar, surpreedente e magicamente, as possibilidades criativas da Língua Portuguesa, como, por exemplo, em “ De tanto ser mim-eu, / virei minheu”, do poema Indigestão Ególatra.
Há, assim, uma permanente decantação no trabalho poético de César de Araújo, decantação esta que se vem processando desde os seus primeiros poemas, quando já despontava como um dos principais expoentes da poesia brasileira da segunda metado do século passado, até este seu novo livro, em que seu fazer poético atinge o que, hoje (porque César é capaz de transcender qualquer prognóstico que se faça acerca de sua obra), nos parece o resultado mais bem sucedido de todo um tempo de rica maturação/produção.
Não é – longe disso – por mero acoso que César chega a uma possível culminância em sua poesia, e sim por um permanente esforço de polir a sua poesia, fazendo com que esta contenha pluralidade de significados, que o leitor vai descobrindo, na síntese vocabular e na musicalidade própria de cada um dos seus poemas.
Assim, e parafraseando Antônio Callado, pode-se afirmar que, em César de Araújo, a sua poesia resulta de trinta por cendo de inspiração e de setenta por cento de transpiração.
Embora faça com que sua poesia alcance níveis tão elevados, dignos de um verdadeiro artesão/mágico da palavra, e o próprio César que reconhece as dificuldades do seu ofício poético, o que se revela, por exemplo. Em “Sei que nunca escreverei / o poema que sonhei”, de seu poema Dessonhação, versos que nos remetem aos versos iniciais do poema O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade: “Lutar com plavras / é a luta mais vã / entanto lutamos / mal rompe a manhã”.
Fugindo aos modismos, passageiros como costumam ser, e às fórmulas fáceis de uma poesia mais imediatamente digerível, César se utiliza do seu instrumental – que, em suas mãos, se transforma em inventivo briquedo, a Língua Portuguesa – , para fazer com o leitor, ao mesmo tempo em que vai enveredando pelas construções a que César imprime vida e criatividade, pense, reflita, faça, enfim, de sua leitura, um meio de ampliar as suas possibilidades de compreender e transformar a realidade.
Mas se este é o César sempre todo renovado, é ele também o mesmo. O mesmo em sua identificação com a condição humana, cujos sonhos, sentimentos, tropeços e perplexidades César sabe exprimir como poucos em nossa literatura.
Este conhecimento da natureza humana, resultante de sua própria vivência e de sua integral solidariedade às pessoas – sobretudo àquelas marginalizdas, carentes, humilhadas, desassistidas – , faz de César Araújo um aut~entico intérprete da luta por dignas condições de vida, no que se inclui o acesso e a fruição dos bens a que todos deveriam fazer jus.
Exemplo, ele mesmo, dos que, à custa do seu próprio sacrifício, sempre se opuseram a quaisquer regimes de força e de opressão, César continua – o que tem sido uma constante em sua obra – a defender uma atitude de resistência e combatividade frente a toda sorte de arbítrio como a todo sentimento de fatalidade, decepção e desencantamento, como temos, por exemplo, em “Não vale a pena apequenar-se”, do poema “Arrependimento”.
A essa mesma defesa de resist~encia vem reunir-se, em toda a trajetória poética de César de Araújo, a sua indignação, a sua intransigência com os que se consideram os “melhores”, os “imunes” a qualquer erro, o que temos, por exemplo, em “Longe de mim/ os que falham nunca!/ Enchem-me de vergonha!” os versos do seu poema “Vade Retro”.
Por sua vez; embora nos defrontemos com o pessimimso que se pode extrair dos versos “Estou envergonhado dos meus olhos. / Vi tudo errado / Agora, cego, nada”, so seu poema “Nem Miragem”, o certo é que o Poeta jamais se entregará ao desalento, ao desânimo, à rendição em sua luta em favor de uma realidade em que tyodos possam participar do dadivoso banquete da vida, o que nos é confirmado pelo verso “De qualquer modo, sou”, do seu poema “O Numerado”.
O poeta é porque ele vive, porque ele vive e canta, e o seu canto é a certeza da construção de um novo tempo, tempo de solidariedade e de fruição, por todos, de todos os bens da vida, tempo para cuja construção estamos todos convocados. O Poeta canta, porque, como canta Mercedes Sosa, se se cala o cantor, cala-se a própria vida.
E é o próprio César de Araújo quem nos dá a certeza de que este novo tempo virá, quando nos diz “Um sol maior que o sol / pousou na escuridão” do seu poema “Operação”.
Sempre renovadamente o mesmo: este é César de Araújo, o Poeta que integra o particular no universal; que faz com que a dor – mas não somente a dor, como também a esperança – de um cada um sejam a expressão da dor e da esperança de todos.
Enfim, é possível que não nos transformemos, para melhor, depois de ler – uma e muitas vezes – este trabalho que tanto honra a Poesia Brasileira – “Um Sol Maior que o Sol”.
* Procurador Federal & Professor
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Alfredo Dolcino Motta foi meu professor de latim no cursinho pré-vestibular em 1970. Figura marcante por sua inteligência e cultura. Fico grata, desde já, se puder ter notícias deles.