Inferno – Circular*

Olho sombriamente o velho edifício público. Grave, rococó, de uma beleza arcaica, contrasta escandalosamente com minha cara queimada em praias de muito sol e céu azul lavando-se em águas sempre atuais. Uma das paredes laterais está em obras. Fito com desgosto grande janela aberta entrincheirada na armação dos andaimes. Ripas rabiscam-lhe a fisionomia austera, detritos de materiais de construção conspurcam-lhe o venerando parapeito roído pelo tempo. Dou a volta e entro pelos fundos. Utilizo a escada, creio que o elevador não funciona. Desce uma jovem balbuciando um hino. Parece-me um cântico religioso. Mais acima encontro outras em fila, também cantando. Esquecem a letra, vacilam, trêmulas vozes juvenis desencontradas. Quedo um instante a mirá-las, os lábios não gritando a pergunta que minha curiosidade formula. Chego ao topo. Vejo dois vultos que saem esgueirando-se contra a parede. O negro foi meu colega na faculdade. Bato-lhe amavelmente no ombro (Como vai, Norberto?). Diz alô sem olhar para mim e vai-se embora. O outro, um velho amigo, segue com ele ignorando-me por completo. Magôo-me. Que terei feito para lhes merecer tal frieza? Aborrecido vou andando pelo corredor até minha sala. Entro alguns passos e paro espantado: que diferença! Irreconhecível, antes lembra casa de cômodos de última categoria, miserável cortiço, do que sala de repartição pública. Atrás de mim alguém me chama. É o Diretor, cuja mesa —de quatro pernas, retangular, sem gavetas— está agora ao lado da porta. Posto-me em pé diante dele, que vocifera “Você devia ter-se apresentado há dias!”. Respondo-lhe Mas as minhas férias terminam hoje! “Ah! é?” diz com ironia e retira-se. Volvo o olhar à direita. Outra mesa lá está, pegada à do Diretor, tocando-se cada qual por uma das quinas — dois pássaros que se beijem. Eu, que estivera assoando o nariz diante do Diretor e continuava com o lenço nas mãos terrivelmente embaraçado no ato de dobrá-lo, finalmente o consigo enfiar em ordem no bolso. Tiro do blusão (compareço ao trabalho sem paletó e gravata) minha esferográfica e, julgando recolhida a ponta, passo a espetá-la na palma da mão ao acaso. Mas a ponta está projetada e emporcalha-me. Recolho-a, a caneta ainda assim me suja, as manchas cada vez maiores, desbotada, circularmente. Zango-me. Volvo de novo o olhar para a direita. Desta vez noto uma funcionária à mesa: jovem casada que muita promessa já me fez com seus grandes olhos mouriscos. Não me fita. Vejo de relance que seu lenço (xadrezinho cinza) jaz amarfanhado sob a mesa. Penso que, muito embora se afirme o contrário, seria talvez polido apanhá-lo, mas provavelmente está sujo e hesito, resolvendo afinal fingir que não o percebi. Torna o Diretor e, aproximando-se, me entrega travesseiro e colcha. Só então descubro uma cama na sala: velha, rústica, o imundo lençol furado tentando em vão ocultar o capim seco a brotar em tufos do colchão. Ora ora que coisa mais incrível! Será tanto o trabalho que precisemos dormir na repartição? Felizmente esta cama não me é destinada (ou eu a ela). Largo-lhe em cima colcha e travesseiro. O Diretor, dizendo que vai mostrar-me as minhas dependências, marcha para larga porta de única folha com a pintura escalavrada, podre, na qual eu nunca havia reparado. Torce na fechadura chave enorme e entramos num quarto estreito e comprido como segmento de corredor largo de metro e meio. Paredes descascadas, piso de tábuas rangentes, a cama não deixando um centímetro de espaço aos lados. Revolto-me. Neste quarto não fico. E a minha claustrofobia? Não, simplesmente me recusarei a esta humilhação. O Estado tem de dar a seus funcionários acomodações condignas. Se me demitirem irei à Justiça. Mas o infecto paralelepípedo já tem dono. Antes que eu abra a boca, ergue-se no leito um rapaz de que não me apercebera, contagiando-me da miséria de sua triste figura: alto, pálido, esquálido, suarento, rosto fino, eqüino, em que zigomas explodem violentos — eixo perfurando pólos de bola elástica. Sentado no colchão, seus cabelos pretos roçam as ripas paralelas do teto —imitações de caibros— embora eu e o Diretor, de pé, sequer necessitemos curvar-nos. Com curto oscilar horizontal de cabeça, luz de febre nos olhos, que diríamos fitarem-nos, não parecesse atravessarem nossos corpos e se fixarem num ponto atrás de nós, o pobre moço geme —relógio de pêndulo invertido a exaurir-se num tique-taque pungente— “Estou muito doente, muito doente…”. O Diretor abre outra porta e puxa-me, meus olhos pressentem a erupção das lágrimas, confrangido sigo-o. Penetramos noutro cômodo, semelhante ao primeiro. Frouxa luz brota de não vejo que fonte. Estendido no soalho apenas coberto por uma esteira, em decúbito dorsal, torso nu, limitando conosco pela calva, um homem roxo-plúmbeo, maciço e liso de pele, aparentando a rigidez dos mortos, a inelasticidade dum peixe estragado. Dá a impressão de um buda fantástico. Sobrevoa-lhe o peito esférica nebulosa de insetos brancos — inéditas mariposas anãs — mosquitos flóreos. Estará morto? Serão esses homens funcionários inválidos que o Estado asila? criminosos políticos? cobaias de experiências demoníacas? Olho para o Diretor — quase aéreo, quase imperceptível, quase ilocável, apenas vagamente corpóreo para guiar-me, apenas a mão do Destino conduzindo-me, o Diabo levando-me pelos labirintos do Inferno! Vamos para terceiro compartimento. Estamos descendo, não há desnível entre os quartos mas estamos descendo. Duas velhas conversam a um canto, percebo gestos mas não ouço vozes. Perto há uma porta ou janela aberta a meio metro do chão, bastante para passarmos encolhidos. Será a porta definitiva — prevejo. Uma das velhas ocupa metade da estreita passagem. Para atravessar temos de espremer-nos contra a mulher, que todavia não se afasta. Prosseguem as duas na inaudível conversa como se não existíssemos (ou não existissem). Após breves passos na escuridão vemos novamente o dia. Por uma espécie de passarela rústica chegamos a grande janela a cujo nível está comprido andaime rodeando o edifício. Semelha a mesma que vi ao entrar, embora tudo pareça mudado. Abaixo do andaime, em toda a extensão, a rua está escavada, com os esgotos à mostra. Adiante um rio grande para o Canal do Mangue e pequeno para o Estige escoa em meandros a transparente podridão de suas águas. Este rio nunca esteve aqui. Em poucas horas cavou seu leito e deitou-se. Espanto-me. De qualquer modo posso ver o céu, o sol brilha, e isto me alivia. Viro-me para o Diretor: Agora podemos contornar o edifício e entrar pela frente. O Diabo encara-me sinistro e diz: “Não. Voltaremos pelo mesmo caminho.”

Conto de Anderson Braga Horta, poeta, ensaísta e crítico literário. Seu livro mais recente Criadores de Mantras, foi publicado pela Thesaurus Editora de Brasília.




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