No Jardim do jaz mim*
“E ela disse:
- Acontece com os jasmins o mesmo que acontece com as pessoas, que de noite saem a vagar depois de mortas.”
O dia amanhecia como num sopro, esvaindo a aurora e toda sua vermelhidão. A pequena cidade espreguiçava-se pelas ruas estreitas; por ali passara o jornaleiro com o silêncio do seu pregão. A aurora vinha e o pequeno jasmineiro, com o vento, roçava no muro baixo e caiado, a um canto do jardim. A notícia, chegaria atrasada e enfadonha. Cheirava o jasmim, pequeninas flores brancas dependuradas. Pedala o jornaleiro levando as manchetes matinais.
As primeiras notícias são despejadas à mesa. O café cheira, confunde-se com o sorriso e vai ressonar no piano da casa; perfeita harmonia entrega os fatos à leitura matinal, que já se sabia por ser notícia: propagandas e “merchandising” preenchem páginas e páginas esbarrando no desejo de consumir um sonho. A melodia é mais digesta: manteiga no pão a folhear o engodo. Pára o piano:
- Aqui ninguém afirma… Você já prestou atenção! – as teclas movimentam-se a pequenos toques em busca do metrônomo posto em cima do piano de cauda.
- Escuta… Presta atenção! – e os movimentos variam numa evolução rítmica de graves a agudos, preenchem a sala, a mesa posta, o jornal, o comentário lambe o desejo e Cristina dedilha suavemente olhando pela janela o dia…
O tempo é estabilizado pelo mecanismo da máquina sobre o piano. Ainda abancado à mesa, Horácio embrenha-se em pensamentos… A música tira-lhe saudades. De imediato corre até a janela abrindo o mundo ao seu redor. Caminha, vai até a porta e as pernas quedam-se: “vês… É inútil…”. A morte ronda-lhe as vísceras, o amor faz-se outro, sente aí, necessidade de concebê-lo outra vez e de forma que não aquela com a qual apaixonara-se por Sara tão completamente. Cristina parece sentir isso.
Sara também tocava piano pela manhã. Sabia dela poucas coisas, mas o suficiente para esculpir no rosto o ciúme. Pára. O metrônomo marca o andamento do tempo. Observa Horácio indo em direção ao jardim. A morte acompanha-lhe os passos. A delicadeza da pequena flor é o momento que silencia a dor… A música volta a pulsar, a exalar seu perfume.
- Que tens? – indaga Cristina, assim que Horácio retorna entregando-lhe as pequenas flores brancas… “Nada… Vivo um tempo para mim. Como um livro amado de poesia que vai soltando as páginas ao tentarmos a reeleitura. Tens algum interesse de juntar-lhe a poesia ao acaso? Continues a melodia… Gosto muito desta música…”
- Bach… Isso me lembra a infância. Uma criança a conduzir-me pelo jardim entre flores, rosas vermelhas e um pequeno jasmineiro de cheiro bom a prantear tudo em volta.
O som da máquina posta em movimento parece dialogar com o devaneio. Horácio a um canto, recostado numa cadeira de balanço, descasca com todo cuidado uma laranja; faz como se estivesse em transe e não com fome. Observando para ver se não feriu Cristina, a sua lembrança vai à procura de Sara em pensamentos apaixonados.
Cristina desconfia das flores ao lado da máquina. Abstrai-se dos sentimentos e volta a dedilhar, calando o metrônomo que vai de um extremo a outro, badalando como indiferente à melodia.
Um vento perpassa pela janela como a arrastar fantasmas. Horácio termina de descascar a laranja. A música estanca. O metrônomo pára. A fadiga do dia apenas começa, e Cristina emociona-se por um momento vendo aquele homem comer calado os gomos de um amor ácido.
e pensar que o céu está vermelho
nos meus desejos e sentimentos
– humanos…
Cristina volta a dar corda na maquinaria. Folheia a partitura. A boca é cega e treina a oralidade da cena. Mastiga as pétalas, palavra à palavra. O livro de poesia solta agora as páginas, assim como os pensamentos despetalam o jasmim. O que tanto lês? Achados e perdidos numa seção de humor/amor? Horácio tem a fronte queimada de sol, os cabelos anelados e permanece urdido em seu umbral. A manhã esvai-se pela sala. Corre até a geladeira e traz uma garrafa de vinho tinto: sangue, esperma, espera tresloucada, estúpida lembrança que o segue, recordação a transbordar a taça:
enquanto gira a terra
envolta num eixo
e a Lua a reclamar de Luz…
Castelo de Angústias,
posse de algo inanimado,
indomável é o amor : inexpressivo, agoniza em tristes Ais…)
Agora, já não tenta disfarçar o tempo que passou. Cristina sabe que naquela manhã, posto à prova seu amor era indiferente. Buscava algumas notas no piano em vão… Tocava pensando na recompensa do beijo, na taça de vinho… A manhã transcorre e lentamente a cidade desperta para ouvir o piano.
Quem passa, com certeza irá se deter para ouvir de onde vem a música, que tal bela musa é capaz de nos humanos incutir-lhe dor e prazer. Horácio degusta o vinho numa tentativa de calar; delira: vinho, sangue… A lembrança de um fogo corre-lhe as entranhas, o amor é um fogo morto: Sara…
Volta-se para Cristina, esguia no piano. Aproxima-se tocam a quatro mãos.
O cristal prismático da taça é uma solução… Assim pensa no sentimento, dilacerado em cores, uma mais bela que a outra. O vinho, a possibilidade de carência sucede ao delírio, ao jasmim no jardim, a casa e a alma.
Posicionar-se à dependência
d’um referencial – humano?
Amar seria então o sentimento maior? Como embriagar-se, se já não a tinha por perto naquele momento. E que casualidade ou compensação lhe pusera Cristina na sua vida? Desde então, Horácio, às vezes amanhecia como se a morte lhe segredasse aos ouvidos que a vida era opção… Que Cristina desvendava seus sentimentos, e companheira oportuna, por uma razão visceral, o amava. Queria, e por que não lhe cobrar a existência ao tirar-lhe páginas de uma poética e gravar-lhe com acordes, sonatas e milongas?…
A retina é um grande espelho d’alma. Sentir. Era o que não privava Cristina de mais nada em relação a Horácio. Sara, uma existência maravilhosa – agora ausente para sempre… Horácio tratando de conceitos seus… Agora acompanha Cristina ao piano. Como viver do passado se ainda a pouco provara da sua carne fresca, da sua jovialidade, das suas descobertas de um mundo extrasensorial, em que os amantes são capazes de buscar para explicar o prisma do cristal? A multifaceta humana golpeando fatalmente o resultado da experiência em sociedade. Como atender à expectativa de uma vida sem mais poder amar? Que destino troçaria do seu ritmo? A quantas andava o mundo eqüidistante dos seus miseráveis sentimentos de posse? O presente ia diluindo o passado e a convivência dos dias que nunca chegam a ser gente não tem sua autonomia na própria existência, mas sim no ato da partida, da morte ter levado a melhor.
do sentimento, demasiadamente
– humano
Antes fosse, que as cinzas estivessem espalhadas pelo jardim, a lembrar-lhe o que corre nas veias, a afastar-lhe esse desejo de morte e invalidez na insensatez da poesia.
Agora ambos tocavam-se de frente. Ambos eram regidos pela maquinária lentidão do metrônomo sobre o piano. O jasmim era a demasiada lembrança de Sara a passear pela sala, ostentando a placa de “vende-se esta casa”, a cripta em que selara o amor, todos os sentimentos. Ambos: Horácio e Cristina. Um, porque amara perdidamente a Sara e outro porque se entregava a um amor pela primeira vez em que saíra da casa paterna. De resto o passar dos dias…
Horácio levanta-se do piano. Caminha até a estante e procura ali um livro. Cristina sai para o jardim. Afasta-se da vida e do seu amor em busca de ar. Respira e é surpreendida pelo dia, com o sol a brilhar intensamente nos olhos. Inspira Horácio a abandonar o passado, o vivido lado a lado, o amor, esse sentimento matreiro que desemboca no esquecimento d’alma, do sentido à flor da pele. Um tilintar de taças que embriaga o querer, subvertendo-lhe o alimento da dor, que de certa forma é somente a expectativa da náusea que fica na boca: o corrompido beijo, o vinho que embaralha a tendência de nunca mais esquecer a pessoa amada, que gostava tanto de jasmim, que permanecem ao pé do muro, no jardim da casa; a velha casa branca de janelas pequenas e abertas para o dia, para a rua, que se mantém próspera ao destino.
Transitam os três pela casa na busca do amalgama: o amor agora tem outras manias, outras dependências onde ficar. Já a presença de Cristina ali, tem outro sentido que não mais o de Sara, que não é mais de Horácio. Talvez essa seja a chance de encher a casa com animais e crianças. Talvez , que o melhor mesmo a fazer, seja começar de novo em outro lugar, debaixo de outro teto, que não mais aquele. Cristina acredita que essa seja a melhor maneira, Horácio desconfia que essa é a primeira porta a ser transpassada. O piano? O que fazer com o piano, meu Deus? Vender e comprar outro? Será que no fundo, ali naquela casa, tudo está impregnado pelo tempo em que Sara vivia aquela realidade ao lado de Horácio?
Uma coisa é certa, ela – Sara -, não se encontra mais nesse mundo. A morte a levara sem que Horácio pudesse fazer nada e Cristina não poderia sofrer essa perda. Era preciso, deveras de muito amor, de modo que: este batia-lhe à porta novamente, como se fora um comprador de sonhos, e Horácio aguardava entre o medo ou a reclusão. Amar de que maneira se o amor não lhe deu subsídios para entender a morte? Amor que para Cristina era novidade e esperança, convertidos em experiências pessoais, a tal ponto e de tal maneira, que este encontrava-se presente em ambos: para Cristina materializado em prazer e sorte; para Horácio esperança e desejo.
Brincalhão o destino vertia-se em elixir da razão. E o acaso que os unia agora, tinha sido a morte de Sara em um acidente de automóvel, numa noite quente de verão.
* Conto de M.P.Haickel, autor do romance-folhetim Cinza da Solidão
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Muito show esse conto!!!
Apaixonei-me pela
Riqueza de suas emoções.
Cinza da Solidão também é uma
Obra maravilhosa!!!
Poeta, vc é surpreendente!!!
Obcequei-me por cada palavra
Lida e sentimentos expostos.
Ora, libera pra gente: “Homem é Tudo Igual”?
Bjs,