A chegada

Era época de seca braba quando fui assumir minha primeira nomeação oficial. Da capital até a responsabilidade, dois dias e uma noite de estrada ruim, aliás, péssima, e transporte precário. Estou até hoje por ver uma nuvem de poeira maior. Ninguém enxergava um palmo, nem na frente nem atrás do ônibus. Dentro, seres estranhos, saídos de um mundo totalmente desconhecido para mim. Num canto, um reservado padre, de aparência jovem, lia seu breviário. O bodum do suor se espalhava no ar, piorando ainda mais o cheiro dos animais de criação que jaziam amarrados no fundo da viatura. Mochilas, sacos e malotas mal acomodadas nos bagageiros, ameaçavam todo o tempo cair na cabeça dos passageiros. De pé, uma mulher de meia idade cambaleia pra lá e pra cá por cima dos bancos. Chega perto de mim, embebe um algodão com Leite de Colônia e me oferece. Agradeço, meu nariz também. Um solavanco a leva a oferecer seu perfume pro passageiro da frente. O mulato educado também recusa, abanando com a mão. Quatro e meia da tarde. O sol já esfriava e preparava a cama, pintando o mundo de vermelho alaranjado ou laranja avermelhado.

– A marinete ta chegando!… A sopa de Seu Neném!

Jamais vira tanta festa e tanta correria por causa de uma lata velha que mal saía do lugar e tremia mais do que febre amarela. Cansado, estropiado, eu me sentia como se estivesse carregando um feixe de lenha nas costas por toda a viagem. Quando a atmosfera decantou um pouco, é que eu pude enxergar, através da janela, que existia um ou outro vivente em meio àquela nuvem de pó.

– Fim do conforto!

O motorista, um grande gozador de toalha no pescoço, mangas arregaçadas, puxa uma alavanca que ninguém sabia se era câmbio ou freio de mão, levanta e limpa os óculos tipo Ray-Ban. Mais pra “raí” do que pra “ban”, ou melhor, mais para marrom do que para verde.

Ninguém me esperava. Tam pouco alguém poderia imaginar que estava chegando ali e naquela hora, o novo coletor de impostos; mesmo porque, além de a minha idade não condizer com este espécime, pela aparência e pela camada de poeira que me cobria ficava ainda mais difícil de se presumir algo a meu respeito. Pior ainda, do que tinha vindo fazer naquele fim de mundo: lugarzinho feio, seco e quente. Poeta ali não devia existir e, se existisse, deveria enfrentar sérias dificuldades para arranjar alguma inspiração que prestasse.

– Quer comprar laranja moço?… É docinha, bem docinha.

– Não,. Obrigado, mais tarde talvez…

– Olha a tapioca com peixe! É só dois “minréis”!… Olha o peixinho torrado!

– Moço compra tapioca com coco, é só miliquinhentos… Barato!

Esfreguei os óculos com o lenço, os vendedores não passavam de crianças. Um deles tinha uma perna coxa, que o obrigava a se desdobrar em esforço para poder acompanhar a concorrência. Naquele momento, um cético começava a tomar consciência do próprio ceticismo, ao tentar imaginar de que forma iria cobrar impostos sobre peixes, tapiocas, laranjas docinhas. Quem sabe, eu não ficaria conhecido como o criador do IUTC – Imposto Único sobre a Tapioca com Côco, e carregaria este estigma até a quinta geração. Ainda que poeira desse rendimento…

Encostado numa pilastra, um sujeito branquelo nem queria saber se alguém estava olhando. Enfiava o dedão no nariz e fazia bolinha atrás de bolinha. Entre uma e outra, olhava ao redor e matutava um pouco. Devia pensar algo como: o mundo é uma bola ou o mundo é feito de bolinhas. Quem sabe, Deus, um dia, não enfiou o dedo no nariz e, entre os dedos modelou a terra e a jogou no universo? Quem sabe todos os outros planetas não são, também, bolinhas filosofais do nariz de Deus?

– Cidadão, me dê uma esmola pelo amor de Deus!

O que havia no bolso, dei. Ele não poderia ter escolhido hora mais oportuna para pedir.

Do livro, O banquete dos hipocondríacos de Tércio de Freitas, publicado pela Thesaurus Editora de Brasília, à venda no site www.thesaurus.com.br

tercio_freitas.gifSobre o Autor – Antônio Tércio de Freitas, nasceu em Barbalha-Ceará, em agosto de 1951. Em plena seca de 71, mudou para o Rio de Janeiro, onde se formou em Economia, na Faculdade Cândido Mendes de Ipanema, e fez o Mestrado na Fundação Getúlio Vargas/EIAP.

Em 1980 veio para Brasília, onde trabalhou nos ministérios da Agricultura, da Educação, no MIC e no GDF. Lecionou, por quatorze anos, nas faculdades de Economia da Universidade Católica, do CEUB e da UDF, onde encerrou a carreira de docente. Nos últimos anos, trabalhou como consultor do Governo Federal, através do IPEA, da Cepal/ONU e do IICA/OEA.

Atualmente trabalha com consultoria nas áreas de projetos industriais, e para governo federal. Publicou dois livros de contos pelo selo da Thesaurus Editora. Atualmente prepara o livro A Bicha Ortodoxa, ainda sem previsão de lançamento.




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