Folhetim - O Amor de Mariano - 3ª e última parte


26/01/2008

de M.P.Haickel

Parte final
Desterro: óleo s/ tela de J.Júnior

Mariano virou motivo de chacota, e cada vez mais creditava sua vida àquele amor. Mesmo separados, Mariano tentou aprumar sua estrutura vencida: amava ainda mais Dadá. Nos encontros às escondidas, entregava-se às carícias de uma profissional. Embriagava-se no cheiro dela e não demorava a cidade toda sabia do seu xodó. Não lhe bastavam os adjetivos de galhudo, relutava contra tudo e contra todos para satisfazer-lhe às vontades… Muitas vezes implorou para que ela voltasse para casinha deles, na Rua da Saúde; ela, como antevendo, dizia não, sempre que podia. Assim viveram os últimos longos anos. Um amor clandestino, louco, infernal, que por último atormentava-lhe o juízo.

Era tarde demais pra voltar atrás, o vermelho do sangue misturava-se ao ocaso. O sinistro ocorreu com a chegada de um gringo. Viera num catamarã, velejando da Europa até atracar no Portinho; levado a conhecer a cidade pelos pescadores, bebera muito no sobradão da Palma, onde, deslumbrado, acabou adormecendo no quarto de Dadá, que sonhava se libertar; velejar pra longe daquela ilha, onde amargava tanta desventura, com amores malfadados por toda cidade. Arrumava os paninhos depois de uma noite de transa.

Quando entrou Mariano porta a dentro no mirante:

— Vais me abandonar, Dadá?

Distraída, vestia ainda as peças de roupa íntima:

— Eu nunca vou te abandonar, Mariano!

— É esse que quer te tirar de mim, Dadá? Por quem ouço dizer que estás doida…?

O gringo levantou sem muito perguntar nem entender, tentou acertar uma pescoçada em Mariano, que, de esquiva, sacou da peixeira na cintura e cortou-lhe a barriga, deixando à mostra as tripas.

Dadá correu para ajudá-lo, quando Mariano com a faca na mão gritou:

— É com ele? Então preferes ele a mim?!

— Que loucura é essa, Mariano? Estás louco?

— Louco de amor por ti, Dadá! — e logo em seguida com várias facadas lhe cravou o peito antes de sair correndo porta a fora, embalado para o banquinho do porto. Ali chorou horas, depois feito criança sentiu calafrios, amor, ódio, desespero, angústia e medo. Todo o seu amor era agora uma mistura de sentimentos que não sabia mais distinguir. O sino da torre solitária do Desterro badalava o juízo final. Dadá parecia flutuar, vinha do mar, sua veste alva arrastava na areia da prainha, que vinha dar na praça, a perguntar-lhe:

— Por que, Mariano, se tu bens me conhecia, sabias de tudo?… que ficava com outros homens!… por que Mariano que tu me matastes?

Mariano parecia em alto mar. Sentia vontade de entender! Chorava e ria com os flashes que lhe vinham da memória: tinha matado seu único e verdadeiro amor. A pergunta estalava em seu cérebro, martelando: “Por que tu me matastes, Mariano?”. Respirava fundo, fechando os olhos e nada mais via. O sangue na mão lhe causava torpor. O crespúsculo tingia tudo de rubro. A maré enchia com ondas que formavam banzeiros. Mariano, como que caindo em si, lhe disse em voz alta, mas já para o nada:

— Queres saber, Dadá, o por quê? Os outros te possuíam. Mas este último era diferente, queria-lhe a alma! Isso eu não podia deixar! Foi por isso, que eu o matei! Ele queria roubar-me tua alma… eu não podia deixar, Dadá…

Mariano sabia que seu amor tornara-se por fim uma loucura, uma obsessão. Foi então que, levantando-se do banco, saiu direto pro mar. Mergulhou fundo, nadou atrevessando a arrebentação e seguiu firme pro meio da baía; lá boiou por horas, sempre buscando aquela sensação de quando viu Iemanjá na sacada do sobrado antigo da Rua da Palma, linda; nadou ainda por horas, debalde, sempre entrando em alto mar, e diferente daquela primeira vez, não mais voltou.

FIM.
E VEM AÍ, mais um folhetim de M.P.Haickel

Em breve O FUNCIONÁRIO…

PARA SUA MAIOR COMODIDADE!

AGUARDE!!!!

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