Cultura como veículo para a educação – uma proposta para reflexão
por Roberto Vital Anau* publicado no site www.espacoacademico.com.br
Esta carta originalmente foi enviada a um senador e a um vereador, de partidos distintos. Trata-se de uma despretensiosa contribuição ao debate sobre os caminhos para reverter a dramática queda de qualidade do ensino público nos níveis fundamental e médio nas últimas décadas do século XX – não revertida nesta primeira década do séc. XXI. Parte de uma experiência pessoal para generalizar uma proposta de fazer da cultura um veículo para a educação, em combinação, também, com o esporte e o turismo escolar. O foco é o Estado de São Paulo, mas a preocupação e o método podem ser generalizados, evidentemente com adaptações a culturas, recursos e ambientes específicos a cada Estado e região brasileira. Propõe-se como tema para reflexão.
A qualquer interessado em educação de qualidade universalizada em nível básico:
Num domingo recente tive uma experiência que reputo extraordinária. Apaixonado por música clássica e ouvinte inveterado da mesma (na USP, era tido como “chato” ou “careta” entre os colegas por isso), fui ao Teatro Municipal assistir a um concerto cujo título indicava preocupações pedagógicas: Música e Matemática. Ao chegar, quase desisti, pois havia multidões de crianças chegando de ônibus com suas professoras. Achei que, se conseguisse entrar, não conseguiria ouvir nada. Sou avesso a barulho em concertos, por parte de pessoas incapazes de curtir manifestações artísticas em silêncio. Imagine-se meu desânimo…
Minhas expectativas foram contrariadas: foi ótimo! Tratava-se de um misto de encenação e iniciação musical. Uma professora e um aluno, encenados por artistas, começaram a disputar se iríamos ter aula de Matemática ou Música. Venceu a segunda, claro, mas a professora – a típica chata – não se deu por vencida e anunciou que uma leva à outra. E, utilizando cordas, tubos e outros objetos, explicou superficialmente – mas de forma útil e agradável – as variações de timbre, os ritmos etc. . Chegou a haver uma competição de canto com crianças presentes. A orquestra e o coro deram demonstrações excelentes de peças clássicas populares. O mais importante era o silêncio da garotada, que nos intervalos e nas brincadeiras fazia uma algazarra de amedrontar qualquer freqüentador de concertos. E a cena típica: garotos absortos em pensamentos ao ouvirem as melodias; outros entusiasmados, imitando os gestos do regente; alguns mostrando-se mutuamente os diversos instrumentos à medida que estes eram chamados ao longo de cada peça. Claro que sempre havia os grupinhos chatos que ficavam conversando baixo, rindo ou cochichando – para variar, aborrecentes, não crianças. Estas foram seduzidas pelo espetáculo.
Saí com um misto de paz e ansiedade. Paz pela afirmação empírica do poder da cultura de seduzir pessoas não “habituées”, principalmente crianças. E ansiedade pela reafirmação, agora com provas, de uma antiga proposta de utilizar a cultura como veículo para a educação.
Sim, é isso! Costuma-se achar o contrário: sem educação não se faz cultura. E, sempre que se abre um pouquinho de oportunidade, a cultura mostra-se um instrumento incomparável no processo educacional! Ela torna a educação muito mais plena, prazerosa e emocionante.
Morro de inveja das crianças espanholas toda vez que sintonizo a TVE. Um programa chamado “Pinto-Pinto” traz crianças selecionadas nas escolas, às quais uma bela apresentadora, em lugar das bobagens estupidificantes das nossas, apresenta a vida e uma obra importante de um grande pintor. Em seguida, são convidadas a pintar algo em que tenham pensado a partir daí e um artista plástico comenta seu trabalho. É uma espécie de gincana cultural, menos focada na competição e mais na criação. Outro programa apresenta música clássica a um auditório infantil: óperas, música de concerto etc., num clima infantil mesmo, com um apresentador que conta as histórias retratadas musicalmente, fala dos instrumentos etc., com marionetes semelhantes às da TV Cultura comentando e brincadeiras simples no meio. A garotada vibra! E sempre há os que imitam o maestro ou os instrumentistas. No final, o apresentador chama vivas para os personagens, a orquestra e termina pedindo um “Viva la musica clasica!”. É uma mensagem cujo conteúdo subliminar é maior que o explícito, como sabe qualquer conhecedor de teorias das comunicações.
Tente propor isto aqui e ouvirá: “Ah, mas o pessoal não está acostumado, as pessoas não irão gostar…”. A estupidez contamina. O exemplo do Municipal prova o oposto. Parte dos adolescentes, em fase transitória em que a imitação é a regra, já começam a seguir os modelos culturais destacados pela mídia “jovem” e adotam a postura típica de que qualquer coisa fora disso é “careta” e quem for descolado tem mais que contar piada, cochichar etc., para não parecer careta também. Claro que há exceções – e não são poucas, como pude ver, pois os que agiam assim não eram majoritários nem entre os próprios adolescentes presentes. Já a criançada deixa-se seduzir, envolver, muitos se mostram fascinados, mesmo.
Quero dar um exemplo do potencial imenso deste gênero de atividade. Ao final do concerto, a professora mostrou certa nostalgia, falou de uma canção que sua avó cantava e a pediu ao maestro. Orquestra e coro entoaram o coro dos escravos judeus na Babilônia da ópera Nabucco, de Verdi. É uma espécie de hino não-oficial da Itália. Já tocou em tudo quanto foi novela e mini-série referente aos imigrantes em nosso País. É lindo, mesmo (a minha avó cantava isso, mas era tão desafinada que eu achava feio, coitada! Mais tarde, já adulto e ela falecida, ouvi e apreciei a beleza dessa canção, apreendendo também a sua história). Foi bom. Mas, imagine se alguém – essa “professora” ou outra, o “aluno”, o maestro -, contasse que essa música foi proibida pelas autoridades austríacas na Itália, pela emoção que causava no povo italiano, então aspirando à sua unificação nacional e à expulsão das potências opressoras! Isso tem tudo a ver com Garibaldi, que é um elo de ligação entre a história mundial e a nacional; tem a ver com geografia – onde fica a Itália, o que é hoje a Áustria, tudo isso é Europa, tem o Oceano Atlântico no meio, de lá vieram milhões de pessoas para cá, nosso idioma se enriqueceu com as contribuições deles…). Quantas disciplinas poderiam se beneficiar disso? E não seria muito mais emocionante apreendê-las assim?
O assunto é ainda mais profundo – e urgente. Acho os CEU´s da administração Marta Suplicy excelentes. Depois de hostilizados pelo ex-prefeito Serra em campanha, estão sendo retomados pelo ex-vice Kassab. Mas sei que são caríssimos - investimento e manutenção -, inviabilizando-os como opção de curto prazo para essa integração (sua implementação terá que ocorrer em perspectiva de médio a longo prazos). No entanto, dispomos de inúmeros equipamentos culturais e esportivos, incluindo espaços abertos, na nossa cidade (e em muitas outras do Estado). Morei um tempo próximo a São Miguel Paulista e fazia caminhadas num espaço excelente, na antiga Av. Tiquatira (hoje tem três nomes sucessivos, inclusive Calim Eid e D. Hélder Câmara, como a mostrar a incongruência dos nomes atribuídos a ruas pelos nossos brilhantes legisladores…). Há anfiteatro aberto, espaços menores para apresentações a céu aberto, pistas para esportes etc. . E eu me perguntei o tempo todo por que as escolas locais não organizavam atividades ali: peças teatrais, apresentações musicais de qualidade (MPB, samba de raiz, moda de viola, música folclórica, regional etc.), competições esportivas, leituras dramáticas, declamação de poesia, exposição de artes plásticas…
Não podemos depender apenas dos CEU´s ou qualquer coisa do gênero, pois temos urgência. Até as pedras sabem que as crianças e ainda mais os jovens da periferia, fora da escola, têm apenas uma opção de “lazer”: a roda de fumo, que leva a coisas piores. Alguns estão em torcidas organizadas, o que não é muito melhor; outros exibem a moto ou o carro (de vinte anos atrás, mas brilhando!) que o pai ou a mãe deram, com o escasso dinheiro que não investem em educação. Para onde vamos?
E enquanto isso, secretários de cultura cuidam de “museus”, os de educação, das “escolas”, os de esporte, de “competições” e “quadras”… Este processo é tão esquizofrênico que imagino que nem na Suíça é assim!
Não sou Luther King, mas “I have a dream”. Meu sonho é que as escolas – especialmente as da periferia, sem discriminar ninguém, mas voltando a inverter as prioridades como foi feito com os CEU´s – organizem com os equipamentos culturais da cidade uma rotina em que cada classe tenha uma atividade cultural por mês: música de concerto ou ópera, pintura, escultura, teatro, cinema (de arte, não comercial), poesia, contos. Encontros com artistas, também. Meu sonho é que isso não seja uma liberalidade, uma esquisitice, uma eventualidade, mas esteja integrado ao currículo escolar, com atividades multidisciplinares que preparem antes e desenvolvam depois: redações, apresentações, debates em classe, trabalhos escolares, pesquisas, exercícios. O Teatro Municipal, a Sala São Paulo, o Teatro São Pedro, o Memorial da América Latina, o MASP, a Pinacoteca, o Mube, cineclubes, bibliotecas municipais, são apenas alguns dos espaços passíveis disso. Os teatros de bairro – João Caetano, Artur de Azevedo e outros, idem. Fora os semi-públicos e privados : Sesi (galeria e teatro), Sesc, Itaú Cultural… Há alternativas em inúmeras cidades do Estado, também. É um sonho impossível?
Ao lado disso, o esporte deveria receber a importância de uma atividade pública, com competições por modalidade por região e inter-regiões, com torcidas organizadas nas escolas, com regras. E o lazer? A começar pelo turismo: quantas crianças de Guaianazes, Campo Limpo ou Pirituba conhecem o Centro de São Paulo? A Catedral da Sé, o Mosteiro de São Bento, os Centros Culturais do Banco do Brasil e da CEF, o Anhangabaú, o Viaduto do Chá, o Mercadão da Cantareira, o próprio prédio da Prefeitura e seu jardim suspenso? E as Av. Paulista, Brasil, Faria Lima e Berrini? Outra atividade interdisciplinar! E a natureza na nossa cidade? Parques e jardins, a Cantareira, Guarapiranga… Dá tontura pensar na multiplicidade de ações, lições e percepções que se pode passar a elas! E, se pensarmos em nível estadual (esta carta originalmente tinha âmbito municipal), por que não retomar um antigo projeto do Gov. Montoro – “o Interior vai à praia, a cidade vai ao campo, a Capital conhece o Estado”, com os melhores alunos de cada escola, incentivando a competição intra e interescolar?
Frente a isso, nosso ensino medíocre, desmotivante, inculto, que manda semi-analfabetos às universidades (sou professor universitário em instituição privada, sei o que estou falando), é um passaporte para o atraso irreversível do nosso povo, do nosso Estado e do nosso País!
O que falta? $? Mentira. Não é aí que está o problema. As atividades que proponho aqui não envolvem grandes recursos orçamentários (e onde eles forem necessários, é possível obtê-los através de parcerias). É a inércia burocrática que emperra: “é outra secretaria, sabe, fica difícil…”. A inércia acadêmica também: “Para que tudo isso? Dá trabalho, o professor já corre tanto, como é que vai pensar ou preparar uma coisa dessas?” O mesmo com o pessoal da Cultura: “Já pensou? Uma inundação de crianças e adolescentes toda semana? Vão destruir, sujar, aborrecer, e vai sobrar para nós, pobres funcionários…”. Ninguém consegue exigir de uma equipe de governo que formule um plano conjunto e minimize custos e riscos através do planejamento integrado?
Tantos problemas podem começar a ser enfrentados assim… Primeiro, o impulso à educação. Crianças mais motivadas, com maiores referências culturais, adquirem o gosto pelo conhecimento, lêem mais, tornam-se mais críticas e exigentes; os professores terão que se preparar melhor; a musculatura burocrática terá que se exercitar de forma nova, suplantando fronteiras inter-secretarias (às vezes elas me parecem mais rígidas que aquelas entre países) e desenvolvendo a criatividade na gestão; parcerias podem e devem ser realizadas com entidades culturais e patrocínios privados poderão ser aproveitados (por exemplo, no fornecimento do transporte, lanches e até de material de apoio). Segundo, o impulso à própria cultura. Só não vê quem não quer: a isso chama-se criação de mercado. Essas crianças irão voltar, trazer amigos, familiares, muitas tornar-se-ão assíduas, outras eventuais; se pensarmos no universo escolar desta cidade, uma minoria significativa representa uma revolução cultural! No Estado, então… O impulso ao turismo, com a ampliação de visão que ele possibilita, e ao esporte, saindo da dependência estrita dos clubes juvenis (sem restrição aos mesmos)… Mas há quem prefira o gueto, até por que “tudo isso é muito difícil, as coisas não funcionam desse jeito…”. A mesmice cansa, principalmente quando seus danos, evidentes no universo semântico e cultural cada vez mais restrito das novas gerações midiatizadas (por uma mídia competente na pasteurização e homogeneização de autômatos nivelados por baixo), tornam-se óbices ao próprio desenvolvimento sócio-econômico.
Desculpe o tamanho, caro(a) leitor(a), isto é um misto de desabafo, proposta e crítica. Espero que sensibilize alguém – educadores, políticos, pais e alunos. Em todo caso, usando a citação religiosa de um velho ateu barbudo que muitos acham fora de moda, “Dixit et salvavi anima mia” (Apresentação da Crítica ao Programa de Gotha, de K. Marx.
* Economista (FEA-USP), Mestre (FAU-USP) e Assessor da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Guarulhos (SP) e docente.
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