A terrível verdade da ausência

Por Diógenes da Cunha Lima*

Altimar Pimentel, certamente, é um dos filhos da alegria de Deus. Por isso, levou a vida com bom humor, inventividade, pesquisa e descoberta em qualquer das suas múltiplas atividades como professor, jornalista, historiador, dramaturgo, folclorista emérito.

Soube da terrível verdade da ausência, com a dor que não tem remédio.

Altimar, terno e simples, é também habitante da minha memória e da nossa cidade Natal. Toda a platéia do Teatro Alberto Maranhão aplaudiu de pé Como nasce um cabra da peste e a fantasia do Diálogo de Nuestra América, peça baseada no meu Livro das Respostas, louvando perguntas de Pablo Neruda. Aqui também foi encenado o Auto de Natal, que construiu a partir de um texto de Waldson Pinheiro. A encenação grandiosa atraiu uma multidão que ovacionou principalmente a entrada do Menino Jesus pretinho.

O alagoano bem cedo descobriu que o fértil solo cultural da Paraíba abriga fortes raízes. Ali, coletou toda riqueza do conto popular das canções infantis, do romanceiro, dos mitos e lendas.  E disse-me não ter sido difícil por contar sempre com a colaboração de Cleide Pimentel, sua admirável mulher e companheira.

As Academias de Letras são, no íntimo, construtoras de biografias. Daqueles que se tornam imortais pela lembrança, dos que merecem a qualificação de exemplos. O bom escritor quando passa, permanece. A Academia Paraibana de Letras usa a voz autorizada de Joacyl de Britto Pereira; do presidente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, com o brilho do seu presidente Luis Hugo Guimarães; e da esposa do homenageado Cleide Rocha da Silva Pimentel. A Academia Norte-rio-grandense de Letras dá o seu testemunho por minha palavra. Somos todos beneficiários não só da amizade do escritor Altimar Pimentel, mas das suas pesquisas, do seu talento criador, da sua generosidade prestante.

Estou cada vez mais consciente de que cada dia que vivo, vivo menos um dia. Isso não nos impede de dar o máximo do que somos pela valorização de nossa terra e da nossa gente, da amada terra do Brasil.

É muito cedo a sua partida, mas o nosso escritor esteve sempre pronto. Os amantes do teatro sabem que o importante não é entrar em cena, mas desempenhar o papel de tal maneira que, a qualquer momento, possa sair dela.

As crianças descobrem a sua identidade ouvindo histórias, cantos e canções. Os anjos conhecem a sua própria identidade. Mesmo assim, acredito que Altimar, nesses novos tempos, está ensinando cantigas-de-roda para tornar ainda mais ternos e felizes os anjos do céu.

SER AMIGO

Para Altimar Pimentel

Um bom amigo torna limpa a alma em flor,
Melhor do que parente, doce como o amor.

Ser amigo é ter no íntimo a alma aberta,
Braços abertos para o abraço, oferta.

É esquecer as máscaras, a fantasia
Que vestimos a fim de conferir valia.

Só, triste como Jó, doente de solidão,
E o sem-remédio tem fim: amigo no coração.

É partilhar momentos, quedas, sonhos, sons,
E fazer dupla via das nobres emoções.

É reviver o fato ao qual Jesus explica:
Nosso pão repartido cresce, multiplica.

É perceber o outro da aurora ao sol posto
E partilhar o nosso clã, gosto e desgosto.

A amizade traz boa sinergia, eterna,
E gera, não direi amor, mas vida terna.

Amigo é quem mais oferece que exige
E em matéria sã a lealdade não transige.

Bela memória, lúcida lembrança empresta,
Sendo recordação, a amizade é festa.

Ser amigo é ser igual nas diferenças
E dourar o afeto, e renegar descrenças.

É manter, nas tormentas, um seguro abrigo,
Ter alguém, solidário, a quem chamar amigo.

* Diógenes da Cunha Lima, especial para Revista Nós Fora dos Eixos

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