Imprensa Oficial de SP e Edusp lançam fotobiografia de Clarice Lispector
Livro de Nádia Battella Gotlib acompanha a trajetória da escritora por meio de 800 imagens –a maioria inédita – e esclarece aspectos da história de sua produção literária e jornalística. O lançamento acontece na terça-feira, 15 de outubro, a partir das 19 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Reservada, em constante desajuste com o mundo, Clarice Lispector (1920-1977) destacou-se pela inventividade de sua escrita e pelo modo anticonvencional de organizar a narrativa. Estruturada de maneira cronológica por Nádia Battella Gotlib – professora da USP e reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Clarice Lispector – em função dos lugares habitados ou percorridos pela escritora, esta fotobiografia estabelece um amplo painel visual de sua vida e obra. O livro será lançado na terça-feira, 15 de abril, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073, tel.: 11/3170-4033).
Ucraniana de Tchechelnik, Clarice Lispector chegou ao Brasil em março de 1922, com os pais e as duas irmãs, fugindo da guerra civil que assolava a Ucrânia. A família instalou-se inicialmente em Maceió; pouco tempo depois mudou para o Recife e em 1935 fixou-se definitivamente no Rio de Janeiro, onde Clarice formou-se em Direito. Entre 1943 e 1959, período em que esteve casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, a escritora viveu longe do Rio, acompanhando o marido em suas missões. Passou seis meses em Belém do Pará e quase 16 anos no exterior: primeiro em Nápoles (Itália), depois em Berna (Suíça), Torquay (Inglaterra) e Chevy Chase, perto de Washington (EUA). Nos anos 1960 e 1970, a fotobiografia registra a vida dedicada aos filhos, à literatura, a algumas eventuais viagens, bem como a gradativa divulgação de sua obra, tanto no Brasil quanto no exterior, divulgação que cresceu consideravelmente nos últimos 30 anos.
“As 800 imagens – grande parte delas ainda inéditas – registram momentos desse percurso de vida acidentado, marcado por sucessivos deslocamentos, desde a viagem de exílio da família, quando nasce a filha caçula, Clarice, que parece continuar sempre à procura de um lugar, com a sensação de ‘não pertencer’ a lugar nenhum”, afirma Nádia Battella Gotlib.
Além das fotografias, o material reunido traz anotações, trechos manuscritos de obras, documentos pessoais, cartas que Clarice escreveu e recebeu, capas de seus livros, de livros que leu e traduziu, depoimentos de parentes e amigos, reproduções fac similares de entrevistas que fez e concedeu, pinturas de sua autoria, retratos dela feitos por pintores como Giorgio de Chirico, Carlos Scliar e Dimitri Ismailovitch – e até o fac símile de seu primeiro conto publicado, O triunfo, que saiu na revista “Pan”, em 1940.
Esta vasta documentação, vinda de acervos públicos e particulares, contextualiza cada momento da trajetória da escritora. A relação com as irmãs, Elisa e Tania; com amigos, como Lucio Cardoso, Rubem Braga, Antonio Callado, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Raul Bopp, Ribeiro Couto, Érico Veríssimo; com escritores, como Giuseppe Ungaretti; o nascimento dos dois filhos no exterior; a separação do marido; a volta definitiva ao Brasil; a produção jornalística, a oposição à ditadura – tudo isso vai sendo tecido aos poucos, à medida que o leitor vira as páginas. Como resultado dessa constelação de dados que iluminam uns aos outros, surge um novo retrato da escritora.
“Ao montar essa narrativa, de caráter documental, procurei descrever as situações presentes nas imagens (fotos e documentos) com legendas concisas, acrescentando informações complementares na parte final do livro, intitulada ‘Comentários’. Quando a ‘história’ exigia, transcrevi breves textos, de Elisa Lispector, de outros autores, e, principalmente, de Clarice Lispector. No final, incluí uma ‘Cronologia’ detalhada, com informações adicionais. E uma ‘Bibliografia’ de Clarice, a mais completa que consegui, além de uma bibliografia sobre Clarice, esta, sucinta, mais diretamente ligada aos objetivos do livro”, diz a autora.
Nádia Battella Gotlib espera que o livro esclareça aspectos referentes à história da produção literária e jornalística de Clarice. “Sua produção é, a certa altura, chamada por ela mesma de ‘pulsações’, e está pautada pelo questionamento de valores, desconstrução de regras e certezas, movida pelo desejo dramático de narrar aquilo que, no fundo, constata ser inenarrável”, comenta.
“Esta fotobiografia é um lançamento de enorme importância, pois contempla uma imensa escritora, que soube como ninguém mergulhar nos mistérios da alma humana. O livro traz uma profusão de dados que nos permite conhecer melhor a escritora e a mulher”, observa Hubert Alquéres, diretor-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
Sobre Clarice Lispector
A obra literária de Clarice Lispector conta mais de 30 livros – entre romances, livros infantis e coletâneas de contos –, além da produção jornalística, composta por crônicas, entrevistas e artigos. Sua literatura é um ambíguo e misterioso espelho da mente e da condição humana, registrado por meio do fluxo de consciência, estabelecendo uma prosa interiorizada e inquieta, que se aproxima da poesia, centrada num momento de vivência interior da personagem ou do narrador. O absurdo da vida cotidiana, o conflito entre a imaginação e a realidade, entre o eu e o mundo, são temas constantes em sua obra, na qual se destacam os romances Perto do Coração Selvagem (1943), publicado quando tinha 22 anos; A Maçã no Escuro (1961); A Paixão Segundo G. H. (1964); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977); os livros de contos Laços de Família (1960) e A Legião Estrangeira (1964).
Ficha técnica
Título: Clarice Fotobiografia
Autora: Nádia Battella Gotlib
Editora: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Edusp
656 págs.
R$ 90,00
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