Uma casa navega no mar - crônicas, contos e pequenos ensaios de Jacinto Guerra
Por Victor Alegria, especial para Nós Revista
Logo nas primeiras páginas de Uma casa navega no mar, Jacinto Guerra brinda o leitor com duas epígrafes de notáveis escritores da Língua Portuguesa: Miguel Torga e Cassiano Nunes, com os quais o cronista muito se identifica.
O primeiro, poeta e contista que engrandece a literatura moderna de Portugal, afirma que “é preciso ajustar a nossa luneta de horizontes pequenos e alargar, depois, o compasso com habitualmente medimos o tamanho do que nos circunda”. O segundo, poeta e ensaísta, dos melhores da literatura brasileira, lembra, numa frase-verso muito feliz, que nunca se sente pobre ao contemplar as estrelas.
A luneta, que nos aproxima tanto das estrelas como das coisas da terra e do mar, é o instrumento que amplia a visão do escritor, abrindo-lhe as portas da imaginação e do fazer literário. Com a transformação de coisas pequenas em motivos de criação literária, Jacinto tempera suas histórias “com as sutis e finas ervas de seu jeito, gosto e estilo, imprimindo-lhes marca pessoal”, afirma Danilo Gomes, notável escritor, que considera o autor de O gato de Curitiba como “um craque de primeira linha no time dos cronistas brasileiros”.
Da conversa simples e despreocupada de um narrador curioso e perspicaz, o leitor encontra uma valiosa bagagem de conhecimentos retirados da simplicidade do ali e aqui de suas andanças, peregrino que é, de luneta em punho a observar estrelas em cada passo que trilha. Sua felicidade e bom humor é a presença atuante de um alto astral, que aparece em texto de agradável leitura, tanto nas crônicas como nos contos e nos ensaios.
O mais interessante de sua obra literária está na leveza de um estilo, em que se destacam o pitoresco e a clareza de expressão. É o que acontece, com o narrador a viver Num clima de Natal ou participando, com entusiasmo, de Um Carnaval diferente. Tudo isto depois do encantamento com a poesia de Mário Quintana, antes de apreciar um Marreco com repolho, em Guabiruba, num restaurante alemão, ou seja, um cotidiano vivido e observado atentamente.
Em Belo Horizonte, grande cidade mediterrânea, as crianças brincam no mar. E na pequena Lagoa da Prata, o menino conversa com uma andorinha, numa crônica autobiográfica de muita ternura, memória de infância do autor de Arraial da Senhora do Sol, em que aparecem personagens surpreendentes como Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade.
Mais adiante, a menina brinca e reza nos Preparativos de Primeira Comunhão, crônica cheia de humor, envolvendo professores, alunos e pais, numa pitoresca reunião escolar. Num domingo, a dona-de-casa prepara delicioso almoço com figado de galinha e um vinho raríssimo importado de Portugal, numa história que começa nos Açores, continua em Lisboa e vai terminar numa festa de família no interior de Minas Gerais. Surpreende-nos, de forma inusitada, a crônica ou mini-conto Na frente da Escola, narrativa de um encontro de pais e filhos, em bela tarde numa superquadra de Brasília.
Um livro infanto juvenil? É sim, literatura de alta qualidade, capaz de agradar leitores os mais diversos - dos netos aos avós -, desde os que sempre apreciaram uma boa leitura aos que começam a fascinante aventura de leer. Para encerrar nossa conversa, é interessante lembrar que outras surpresas e emoções aguardam o leitor neste livro instigante e moderno, que acaba de chegar às livrarias e bibliotecas nos mais diversos lugares e cidades de Língua Portuguesa.
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