A jangada de Orson Welles
No extenso areal da praia esperam a volta das jangadas. O sol da tarde ainda qnte. Miríades de estrelas-cadentes cintilam e somem ininterruptamente na reverberação marítima. Semelhantes a gaivotas brancas no horizonte, logo surgem duas jangadas, navegando em parelha. As mulheres estendem as mãos sobre a testa, afastando o sol dos olhos, querem ver melhor quem vem na frente, talvez, os próprios maridos. Longe avulta o restante da frotilha, velejando rápido! Some o sol sobraçando suavemente. Os pescadores chegam. Rolam as jangadas para a areia alta. A conversa é curta, mas animada, enquanto sobem o morro do Mucuripe, as velas enroladas nos mastros, cestos repletos de camarão, o tesouro de prata e ouro em cordas de cavala, pargo, cioba, garoupa, corvina! As estrelas em cardumes de tainha na altura sidérea. Depois da janta de pirão com peixe frito, a rede de algodão na varanda de palha do casebre, o café, os olhos e o sonho diante do mar refletido no céu!
– Antonia, você parece que ganhou alma de anjo! Que estranho…
– Que brincadeira é essa, homem? Aonde já se viu coisa assim? Você ta é variando das idéias!
– É o teu rosto, parece outro! Remoçado, novo, bonito! Você parece que tem luz dentro dos olhos, sabe? Você ficou diferente, melhor, mais… mais sadia! Faceira, alegre, entende?
– Que exagero! Sou eu mesma, não mudei nada! Repare melhor! O mesmo papel de embrulhar pão de sempre!
– Espera que eu adivinho! Existe mistério nisso.
– Ribamar! Que invenção mais besta, agora? É lorota sua, deixe disso! Não é nada mesmo! Vou buscar mais café! Você ta é de estória comigo!
– Eu vi um paninho de bebê no quarto…
– Ora, é da Conceição! Presente que eu…
–Você nunca mentiu antes, diga logo o que é!
– Surpresa, não é mentira. Eu só queria deixar pra contar no teu aniversário, que é depois de amanhã. Agora, você estragou tudo!
– Segredo sempre esconde medo. Conta logo o que é!
Antes, ela senta de lado na rede, passa a mão sobre o cabelo do marido e faceira e meiga diz:
– Estou grávida de um mês! Mamãe garante que vai ser menino! Ribamar sorri feliz, abraçam-se entre beijos.
Era o peixe melhor da vida, ser pai! Ensinar para o filho a arte e a força e a honra de ser pescador, continuar a linhagem praiana! Levá-lo ao mar pela primeira vez, provocar a vontade e coragem dele! Vê-lo crescer, ganhar corpo e força!
– Antônia! Isso é coisa que se esconda? Felicidade é sol!
– Foi capricho besta, desculpa…
* Jarbas Júnioir é autor do romance A Jangada de Orson Welles
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