Almoço no Inferno
De Altimar Pimentel*
Dois homens eram compadres muito unidos. Viviam na maior camaradagem. Tinham o costume de cada dia um almoçar na casa do outro. Foi quando um deles morreu e o outro ficou triste, sentindo a falta do companheiro, pegou maginando : “ É isso mesmo. NO tempo que meu compadre era vivo eu chamava e ele vinha almoçar comigo. Hoje ele já não pode vir…”
Então foi fazer a visita à sepultura do compadre lá no cemitério. Chegou lá, ficou por ali, triste, pensando nos tempos passados, disse:
– Ô meu compadre, vamos almoçar amanhã comigo? Eu tenho tanta saudade do tempo em que a gente vivia junto…
– Pronto! – gritou uma caveira pulando fora da catacumba. Pronto. Amanhã, onze horas, eu estou com você na mesa.
Com aquilo o homem se assombrou. Se assombrou e saiu correndo, gritando no meio do mundo:
– Ai! Ai! Ai!
E o povo vendo o desespero:
– O que é isso? O que é isso?
– É uma caveira atrás de mim que vem solta!
– Cadê, que ninguém está vendo?
O homem apontava e o povo não via. Somente ele via. Assim, correu, correu, foi esbarrar na casa do vigário. Os padres, coitados, são quem agüentam essas coisas mesmo. Botando a alma pela boca, o homem agarrou-se com o padre:
– Seu reverendo, me acuda!
– Diga, filho, o que é que há que você está assim assombrado?
– Eu disse uma lorota lá no cemitério com um compadre meu que morreu e tinha o costume, quando em vida, de almoçar um dia comigo e no outro eu com ele. Fui chamar o meu compadre pra almoçar comigo, pulou uma caveira da catacumba e disse que vinha almoçar amanhã às onze horas à minha casa. Vim perguntar ao senhor o que é que hei de fazer. Porque eu sei que ele vem mesmo e eu não suporto. Uma caveira dentro de minha casa eu me assombro e não agüento.
– É filho, o jeito é agüentar, que é para você não pilheriar quem já morreu. Que com quem morre ninguém pilheria. Ninguém sabe se está nos poderes de Deus ou no Inferno, com Satanás. Eu vou ouvir você em confissão e recomendar a Deus. Se o seu compadre vir amanhã, você volte aqui para me dizer. Porque se ele vir somente almoçar ainda está bom, mas se chamar você onde ele está. Se estiver no Inferno voc~e está perdido.
– Mulher, amanhã prepare o almoço para mais uma pessoa, que a caveira do meu compadre disse que vem almoçar comigo. Se ele chegar você mande almoçar e diga que eu viajei. Eu vou subir no sótão e me esconder.
– Está certo.
No dia seguinte, quando deu onze horas, a caveira bateu palmas lá na porta:
– Ô de casa.
– Ô de fora. Quem fala?
– Sou eu. Cadê o almoço?
– Está pronto. Seu compadre viajou no meio do mundo e disse que você podia entrar e almoçar.
A mulher tremendo de medo. Mas mulher é sempre mais corajeira do que o homem:
– Sente-se e almoce. Não faça cerimônia.
– Que conversa feia é essa? Você dá licença eu ir buscar meu compadre puxando pela perna onde ele estiver?
– É. Se você sabe onde ele está eu não ligo não.
A caveira saiu subindo a procura do sótão e quando chegou lá esse homem estava amarelo, caído no chão que não se segurava mais em pé. Esse homem tremia tanto que quando o compadre chegou que pegou na perna dele e deu o sopapo, ele disse:
– Ai, meu compadre, solta que eu vou mesmo!
– Compadre, que negócio feio é esse? No tempo em que eu estava vivo vinha, almoçava aqui, você nunca se escondeu e agora se escondendo com medo de mim! Que coisa feia é essa? Vombora almoçar comigo na mesa.
O homem teve que ir. A caveira ali pegou a comer. Comia pela boca a comida saia pela espinhaço. E o compadre espiando. Não tirava o olho da caveira. Era um olho na cozinha e o outro na caveira, com vontade de dar uma carreira e sem poder. Faltava coragem que as pernas não agüentavam mais. Sei que nessa brincadeira, o compadre foi enchendo o bucho. Disse:
– Bem. Eu já almocei hoje aqui, agora quero que amanhã você vá almoçar comigo.
– Compadre, não queira não. Não queira não que eu estou satisfeito. Faça de conta que eu almocei.
– Não. Que negócio feio é esse? Toda vida não foi de costume comermos os dois na mesa, e como é que você agora não quer ir na minha morada? Vai!! Eu vim aqui, agora você vai na minha morada!
– Não queria não.
– Não tem quem dê jeito. E tem uma coisa. Se quando der onze e meia você não chegar eu venho buscar, e é mais cruzeiros. Agora vamos fazer o seguinte. Quando der perto de onze horas, você tem caminho certo. Vá por qualquer um, ou torto ou de banda, trabalhe mais para o lado esquerdo que tem que sair lá. Quando abrir um caminho limpo, largo, então você cai mesmo na minha moradia. Afunda um pedaço de chão e você está onde eu estou.
Com essa conversa do outro foi que o medo arrochou no homem. Quando a caveira foi embora, saiu batendo ossos no meio do mundo. Mal ela sumiu da vista do compadre, ele correu pra casa do padre. O padre velho foi quem pensou nesse dia:
– Seu padre me acuda!
– Quem lhe acode é Deus. Eu não lhe acudo em nada. Posso cobrir você com as palavras de Deus, botar uma coisinha dágua, benzer e dar um cordão de São Francisco.
– Serve seu padre. Faça qualquer coisa.
– Bem. Você bota esse cordão de São Francisco na cintura e uma imagem embutida por dentro da camisa que pode até ser sua felicidade. E se confesse. Chegue pra cá.
Depois de ouvir o homem em confissão, o padre disse:
– Pronto. Está recomendado a Deus. Podes seguir a sua viagem. Você agora vai ao Inferno, que eu sei que esse homem está lá, que quem está no poder de Deus não vem atentar ninguém em casa. E tem uma coisa. Faça por onde ele não dar fé do cordão de São Francisco na entrada. Porque se der fé na entrada lhe mata de baque. Deixe ele dar fé depois que estiver dentro, senão você vai penar.
O homem agradeceu ao padre e voltou para casa. No outro dia, quando deu perto de onze e meia, disse à mulher:
– Mulher, eu já vou de viagem.
– Vá meu filho, vá com Deus, Deus seja seu guia. Tanto na frente como nas costas, por detrás, de banda e o Coração de Jesus tome conta!
A mulher não soube onde botou o homem nessa hora com medo de que ele ficasse lá no Inferno. Ele foi andando, andando, com pouco caiu dentro de um buraco. Quando viu estava dentro do Inferno. Espiou de banda, estava na porta uma moça com tromba de porca. Era a vigia do Inferno. Espiou para ele e disse:
– Pode entrar. Você não é compadre de um que tem aqui?
– Sou.
– Ele foi está ali. Já mandou chamar você para mesa. A mesa está quase pronta.
Ele foi espiando, viu um povo todo diferente. Fogo por desmantelo. Por todo canto era esperto encarregado de gogo. “Sabe que aqui é o Inferno mesmo”.
– Você está dentro dele.
– Ó meu Deus!
– Não fale em Deus aqui, meu amigo! Olhe, se você quiser passar nem fale em Deus. Senão leva já uma surra.
– Se eu não falar em Deus, hei de falar em quê?
– Aqui? No Diabo.
– Não. Eu não quero negócio com o Diabo , não. Diabo que fique pra lá!
– Não conversa assim não quer Caim vem chegando ali e a volta dele é crua. E tem Lampião que está também sendo chefe do inferno – está de banda.
Nessa brincadeira, chega o compadre e diz:
– Meu compadre é positivo. Chegou, hein!
– Cheguei.
– Prepare aí o almoço que meu compadre vem com muita fome. Antes de comer vamos contar as novidades, ter uma conversa. Prosar.
– Eu não quero prosar não, compadre. Do jeito que estou, não posso perder tempo. Estou vexado por voltar para casa qu`eu deixei lá um terço para resolver, umas missas….
– Não fale nisso aqui, meu amigo! Você parece que está aperreado? Só fala em missa, em Deus. Aqui ninguém fala nisso. Aqui a volta é cruel . Bota o almoço.
Botaram o comer. Era unha de moça pintada, beiço de moça cheio de batom, rouge. Sei que só era negócio de uso. Corte de cabelo, cabelo chamado escorregue, outro chamado gata manhosa, e sei que tudo isso tinha sido modelado dentro do Inferno que o compadre depois me contou. Ele foi, disse:
– Meu compadre, eu não quero comer mais não. Já enchi meu bucho e o senhor vai me desculpando.
– Não. Coma mais. Você parece que está se fazendo. Quero ver você comendo.
O homem o jeito que teve foi se sujeitar. Mas ele fazia assim: levava uma colherada na boca e soltava por dentro da camisa, o comer saia embaixo. E nessa brincadeira, até que estufou a camisa. Então apontou a ponta do cordão de São Francisco. A caveira quando espiou que viu, disse:
– Que negócio é esse que você em na cintura?
– É um cordão de São Francisco, compadre.
Com isso a caveira danou-lhe o braço no pé do ouvido:
– Pois por onde você entrou saia! Seja a última vez que pilheria com quem já morreu, que você não sabe se está no poder de Deus ou está no Inferno, meu compadre! S’ arretire daqui!
Nesse momento deu um redemoinho, pegou esse compadre, tirou nos ares, na banguela, e ele só ouvia a voz da caveira gritar:
– Seja a derradeira, meu compadre! Não pilherie com quem já morreu que você não sabe se está no Inferno ou está no poder de Deus, meu compadre!
E o compadre nessa brincadeira foi esbarrar em casa. Quando caiu no redemoinho ofi no terreiro de casa. Correu onde estava o padre e contou como foi a viagem. O padre chegou e disse:
– Foi São Francisco, filho, que lhe livrou desse perigo! Vá se confessar de novo e não se esqueça de ir à Igreja e dar dinheiro ao Santo.
O padre ficou logo interessado no dinheiro, porque sabe que o dinheiro é meio…. Foi logo mandando no dinheiro, porque sabe que o dinheiro é meio… Foi logo mandado dele dar um dinheirinho à caixa das almas, porque sabia que era pra ele. Nesse dia o padre teve dinheiro porque ele ficou com muita alegria de ter saído do Inferno. Passou dinheiro pro reverendo, que ficava dando fogo:
– Foi são Francisco. Dê dinheiro! Dê dinheiro!
* Altimar Pimentel é autor do livro Estórias do Diabo
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