No mundo dos mortos
Emir Santana Prazeres*
Um dos meus leitores, o Dr. Servo, referindo-se em tom de brincadeira sobre os meus sonhos relatados no livro “O Amuleto Milagroso”, disse: “O Doutor está sonhando muito, isso prova que está dormindo demais”. Rindo, concordei com a observação do leitor, que nada mais é do que avô de minha terceira bisneta, Catarina, a qual não chegou a conhecer o avô em vida, porque ele faleceu antes dela nascer.
Por outro lado pensei, enquanto durmo o meu espírito passeia por aí a fora.
Em 01/12/1998, sonhei que havia entrado no mundo dos mortos, eu e a minha irmã, Maria do espírito Santo, que ainda está viva e em breve completará noventa anos.
Entramos numa enseada de alguns quilômetros de largura, pois vi claramente as margens da mesma. Tive a sensação de termos deixado para trás e para baixo um enorme vazio, tal quel um espaço sem fim. Não notei obstáculo ou barreira ao entrarmos na enseada, ou seja, na passagem de um mndo para o outro.
A água da enseada era de cor azulada em toda a suextensão. Não existiam ondas, ventos, nem mesmo brisas. A superfície da água era inteiramente calma, lisa, não tinha nem marola.
Após entrarmos naquele mundo, passamos a deslizar sobre a superfície da água como se estivéssemos patinando com o nossos próprios pés, em vez de andarmos como fazemos aqui na Terra. estávamos descalços.
Quando chegamos em terra, na parte final da enseada, encontramos um quiosque a uma certa distância da beira da água, tipo os que existem em nossas praias e vi algumas pessoas nas proximidades dele. Eles trajavam roupas comuns como as que usamos aqui na Terra, mas estavam descalças. Lá encontramos Zezinho, o nosso irmão mais velho, já falecido há vários anos.
Perguntei a ele:
– Como está você?
– Sem novidades. Porém acabei de passar por um teste terrível, mas tudo bem.
Não ousei lhe perguntar que tipo de teste fora feito, porque achei que não poderia nem deveria me dizer.
Depois Zezinho me convidou para darmos um pesseio. Nossa irmã ficou próxima ao quiosque. Seguimos deslizando sobre a água azul da bela enseada. Mais adiante, fizemos uma pequena parada em terra, na margem esquerda da enseada. Longe de onde estávamos eu vi uma moça que vinha em nossa direção e era igualzinha a uma nossa sobrinha já falecida, cujo o nome é Dulce. Ao vê-la passei a chamar-lhe pelo seu nome:
– Dulce, Dulce, porém ela não respondeu.
perto de onde estávamos, vi algumas pequenas casas tipo uma vila de resid~encias geminadas. A primeira casa era pintada de amarelo e tinha uma varandinha quadrada, um muro baixo e pequeno jardim na frente. A citada moça passou por perto de nós e se assentou na varandinha da casa. Aí eu voltei a chamá-la em voz alta:
– Dulce Prazeres.
– Eu não sou Dulce.
Olhando melhor vi que realmente não era a minha sobrinha, porém uma sósia dela. Então voltamos para a água e Zezinho me disse:
– Vamos à área dos mutilados.
Em pouco tempo chegamos a um local onde havia uma prainha e nela estavam vários mutilados tomando banho de sol na areia. Em frente, num pequeno remanso, um número grande de deformados boiavam na água. Uns tinham braços tortos e paralisados. Corpos enrijecidos flutuavam ao Deus dará. Um tinha a metade do corpo fora da água e o braço esquerdo torto e para cima, no ar. Um estava com o corpo e os membros paralisados e vagava ereto só com a parte superior do crânio fora da água. Muito triste ver aquela situação. Todos os movimentos daqueles corpos eram lentos e involuntários. No entanto, não se ouvia um grito de dor nem mesmo um simples gemido.
Enquanto eu observava aquele quadro tão triste e chocante, um homem de meia idade se aproximou de mim, e, colocando o seu braço esquerdo sobre o meu ombro direito, pois ele não possuía o seu membro superior direito me disse:
– Vou te beijar.
Não tive outro jeito senão responder:
– Pode beijar à vontade. Então ele passou a me beijar na face direita e fez isto por várias vezes.
Ainda bem que não foi na boca, já imaginou que fria! Depois acordei.
Que conclusão poderão tirar o leitor e a leitora a respeito deste sonho?
De minha parte eu diria que aquelas mutilações parecem físicas, porém são da própria alma, do espírito. Se forem do espírito que fatores em vida provocaram tão desastrosos efeitos? Os pecados, pensarão provavelmente os religiosos.
Acho que não temos como sabermos. Somos inteiramente ignorantes quanto às coisas divinas, embora muita gente diga isto e aquilo como sendo verdadeiro.
* Do livro O Sabiá de Santo Antônio, um corolário de crônicas e contos de Emir Santana Prazeres, publicado pela Thesaurus Editora de Brasília.
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