Aristóteles España é traduzido no Brasil por António Miranda

capa_dawson.jpgSão versos desgarrados, pungentes, punçantes. Com apenas 17 anos de idade, o poeta é levado ao desterro, ao confinamento, à tortura com a derrocada do governo de Allende. E faz os registros clandestinos de seu martírio, desconcertantes. Para quem conhece o autor, como eu, resulta impactante imaginá-lo naquelas lonjuras de frio e desolação, escarrado, humilhado, escrevendo versos (como eu disse em verso próprio, ainda jovem como ele, “para salvarse de la ruína”). O agudo e cáustico poeta Gonzalo Rojas o descreve como um mártir para a hipocrisia dos sobreviventes, no sofá de suas comodidades. “Pues cuanto arde en el cuaderno desollado es auténtico.”

Ainda durante a tradução dos vesos de Aristóteles recebo aq notícia de que o poeta está em estado de saúde precaríssimo, sem recursos para o tratamento, recorrendo aos amigos porque no Chile não há assistência pública nestes casos. Quer ir a Cuba, vir para o Brasil. Teme pela vida, acredita ser o fim. Mas vai para a Argentina, onde viveu períodos de exílio, para uma recuperação difícil.

De nova Iorque me escreve seu (nosso) amigo José António Goicuria pedindo as traduções de poemas deste livro para o curta Nos Rodean (They Sorround Us), para legendá-lo em português, visando apresentá-lo durante a I BIENAL INTERNACIONAL DE POESIA DE BRASÍLIA.

A Thesaurus Editora decide, em hora oportuna, publicar esta obra singular e emblemáqtica, de um tempo terrível que não é estranho a nós brasileiros, mas que a gente custa a acreditar que aconteceu, longe de nossos olhos. Mas que a poesia descarnada do jovem poeta nos revela para nossa vergonha e desespero.

Sobre o tradutor - António Miranda é poeta, tradutor, dramaturgo e diretor da Biblioteca Nacional de Brasília.

Abaixo um dos poemas que narra os negros tempos de Allende, nas palavras de Aristóteles España :

PARA ALÉM DA TORTURA

Fora do espaço e da matéria,

nema região altiva (sem matizes nem cores)

cheia de humo horizontal

que atravessa pântanos invisíveis,

permaneço sentado

como um condenado à Câmara de Gás.

Descubro que o temor é um menino desesperado,

que a vida é um grande dormitório

ou um cais vazio no meio do oceano.

Há disparos,

ruídos de máquinas de escrever,

aplicam descargas elétricas em meu corpo.

Sou um estranho passageiro em viagem ao desconhecido,

ardem minhas unhas e os poros, os carros elétricos,

na sala ao lado golpeiam alguma mulher grávida,

as flores do amor e a justiça vicejarão mais adiante

sobre as cinzas de todas as ditaduras do planeta.

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