Mau Olhado
Gelmires Reis – “100 Contos”, pg. 41.
De conformidade com a supertição popular, mau olhado produz quebranto, que é o resultado mórbido de influências negativas sobre certas pessoas de poder defensivo, como crianças e mártires de doenças prolongadas e depauperantes. Eis o motivo de mães e cuidadosas colocarem no pescoço de seu filhinhos de berço figurinhas, amuletos, santinhos, e medalhinhas, para os preservarem dos efeitos perniciosos de bruxos e bruxas, de repelente apresentação, que, se acham em estado de penúria alimentícia, pedindo um pedaço de pão, para lhes matar a fome, ou uma roupa velha, para lhes cobrir a nudez. Trata-se, no caso, de medicantes de comiseração e não repulsa, que os corações caridosos sabem prover, dentro dos postulados evangélicos, sem lhes melindrarem a dignidade humilhada de necessitados. Nem deles deseja prejudicar seus benfeitores. – Entretanto, o mau olhar existe, produzido por um potencial magnético de ocasião de verificar, em nossa casa. Os efeitos danosos se manifestam não só na visão, mas na voz e nas mãos. – Filho de pobre lavrador foi picado por venenosa jarucuçu, nos trabalhos de roça, vindo procurar recursos médicos na cidade. Atendido prontamente, no consultório e na farmácia, quando não havia ainda hospital entre nós, veio procurar nosso amparo, que foi concedido amistosamente, permanecendo o doente, na varanda, para a devida recuperação. – No terceiro dia de tratamento, estava ele sossegado e aliviado, quando entrou uma senhora de alta galeria social, elegantemente vestida, cabelos perfumados, expansiva e bondosa, que se compadeceu do sofrimento amargurado daquela vítima do ofidismo prejudicial. Foi o bastante para as dores recrudescerem de tal forma que o paciente começou a chorar desesperadamente. – Somente se acomodou, quando ela se despediu. – Na cozinha, possante tacho de sabão pipocava, cheirosa e prometedoramente. Apenas o olhou e gabou a situação esperançosa da indústria saboeira, aquilo tudo virou barrela imprestável. Para a sua recuperação anterior, teve a empregada de lançar mão de todos os seus conhecimentos divinatórios, cabalísticos e mandigueiros, para solucionar o problema. Tudo em vão! Chegou uma velha preta e aconselhou: amarra palha seca de milho na asa do tacho e reze três padre-nossos e três ave-marias em cima das fervura. Foi tiro e queda! Tudo voltou à normalidade. – Mulher encrencada dos órgãos reprodutores pediu para colher um ramo de arruda, em nossa horta, a fim de fazer meizinha curativa. A moita da planta estava forte e vigorante, entretanto, no outro dia, era um feixe de folhas e galhos secos. Para este caso, não houve jeitos, nem benzeduras. – Desde, então, por precaução, ninguém estranho tem licença de entrar na horta.
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