Entrevista com Silvestre Gorgulho, Secretário de Estado da Cultura de Brasília
1.O que essa bienal vai oferecer de diferencial em relação as outras que ocorrem no País?
R - Existem muitos festivais de poesia pelo Brasil e em outros países, inclusive o mais famoso de todos, o de Medellin, na Colômbia. Em geral, estão voltados para a poesia escrita e recitada. A I Bienal Internacional de Brasília nasceu diferente. Temos uma equipe muito boa pensando a I BIP, como o professor Antônio Lisboa de Miranda, a jornalista Angélica Torres, a professora Sylvia Cyntrão, da UnB, o Walter Silva, presidente da Câmara do Livro do DF, o Guilherme Reis, da Cena Contemporânea. Temos uma parceria muito forte com o Instituto Cervantes e o Instituto Camões. Vários embaixadores estão dentro do projeto como o embaixador Hugo de Zela, do Peru, e o da Colômbia, Tony Jozame Amar. A nossa proposta é bem mais ampla. Queremos fazer um inventário da poesia que se pratica no século 21, como toda a sua diversidade, desde o cordel até a poesia visual. Da poesia que se publica em livros até a que se propaga pelos blogues. Além das perfomances de poetas consagrados e dos iniciantes pelos bares culturais de Brasília. Este seria o diferencial.
2. O Seminário de Crítica de Poesia vai discutir a poesia em diálogo com as outras artes. O que a UnB e a Bienal pretendem com essa proposta?
R – Esta é uma proposta acadêmica muito interessante. O objetivo é saber como a poesia se relaciona com a tecnologia e com as outras artes. Vários especialistas vão discutir a relação da poesia com a tecnologia, o teatro, o cinema, as artes plástica, a questão do gênero e até com um problema que existe e a gente não se dá conta: o problema das traduções. Tudo isto num espaço acadêmico. Os pesquisadores, os especialistas vão buscar entender este fenômeno numa perspectiva mais abrangente e até científica.
3. Qual o foco da exposição Obranome 2 e por que esse nome?
R - O curador desta exposição é o professor Wagner Barja, diretor do Museu Nacional. O Wagner está montando a segunda edição de Obranome. Pelo título dá para perceber que se propõe uma mostra de poesia visual, de poesia que se transforma em objeto, que se apresenta por outras mídias além do livro. Engloba instalações, poemas-objetos, performances, projeções de imagens, etc. É bom lembrar que a Poesia Concreta começou no Brasil há mais de 50 anos e, desde então, muitos grupos de vanguarda vêm estudando e propondo novas linguagens e formatos para a poesia que vão ser expostas no Museu Nacional durante a I BIP.
4. Haverá performances e recitais nas praças e bares?
R – Como já disse, vários bares e locais públicos estão montando apresentações de poesia e poemúsica, que são poemas musicados. Estas apresentações serão em locais fechados, em cafés culturais, até em calçadas como o espaço de calçada do Centro Cultura T-Bone. É uma oportunidade para que poetas convidados se apresentem, mas que outros poetas também possam inscrever-se na hora e apresentar seus trabalhos. Além da beleza, da descontração e de um momento cultural, há sempre a descoberta de novos talentos.
5. O que a Bienal pretende com essa grande oferta de recitais?
R – Pretende justamente transformar Brasília, que já é uma poesia a céu aberto, em um espaço de cinema e de outras manifestações culturais, também ligada com a poesia, fomentando a leitura e a produção literária, principalmente entre estudantes e o público em geral.
Como acontece na Bienal de Medellin, milhares de pessoas de todas as categorias sociais vão assistir e curtir poetas de todos os cantos do mundo. Mas Medellín conseguiu tudo isto depois de 18 anos promovendo os festivais. Nós queremos plantar a primeira Bienal com muita competência para que ela seja como o nosso Festival de Cinema: uma referência.
É bom lembrar que acaba de ser divulgado o estudo Retrato da Leitura no Brasil, que mostrou que a poesia é a quinta categoria de leitura preferida dos jovens. Poesia é um gênero muito especial, que sensibiliza, agrada, enriquece, mais fácil de memorizar, enfim, poesia é uma expressão lingüística para provocar sensações e emoções. Como dizia Garcia Lorca, “Todas as coisas têm seu mistério e a poesia é o mistério que todas as coisas têm”. Não há nada mais receptivo do que uma mensagem poética.
6. As atividades ficarão restritas ao Plano Piloto?
R - Muitas sessões da I BIP vão ter lugar no Conjunto Cultural da República, nos auditórios da Biblioteca e do Museu Nacional, na Esplanada dos Ministérios, na UnB e em outros locais do Plano Piloto, como é o caso dos cafés e em faculdades públicas e privadas. Mas estão previstas sessões de poesia – que os organizadores apelidaram de Poemação – também em cidades satélites nos espaços culturais do SESC, em algumas bibliotecas públicas da Secretaria de Cultura, e em outros locais. É impossível trazer todo mundo para um único lugar. Como bem diz a canção, é bom que se leve os poetas para “onde o povo está”.
7. Qual a relação da BIP com a Feira do Livro?
R - Há uma estreita parceria entre a I BIP e a Feira do Livro. Algumas sessões vão acontecer no recinto da Feira, incluindo recitais, apresentação de cantadores, lançamentos de livros, palestras e encontros com autores, entre eles o amazônico Poeta da Floresta, o amazônico Thiago de Mello que é grande homenageado da Feira e também da I BIP.
A Câmara do Livro, com recursos do FAC, está publicando uma antologia “DESTE PLANALTO CENTRAL: POETAS DE BRASILIA” que está na programação oficial da I BIP.
8. E os jovens que estão começando na poesia, qual a oportunidade oferecida a eles?
R - Os jovens merecem sessões especiais, desde um prêmio nacional para crianças e adolescentes de altas habilidades ou superdotados, até os poetas mirins da cidade.
Estão vindo a Brasília, com o apoio do Ministério da Educação, os vencedores do concurso das diversas unidades da federação e aqui vão concorrer ao prêmio nacional. Também estão previstas oficinas em que os jovens e outros interessados poderão aprender a ler poesia, a produzir textos, a conhecer a técnica do Haicai, e até mesmo produzir um blog com os seus próprios poemas. Foram previstas também oficinas para adultos e jovens com deficiência visual e até uma sessão de declamação especial para eles.
9. Como vai funcionar a Mostra de Cinema e Poesia?
R - Filmes sobre a vida e a obra de grandes poetas como Cruz e Sousa, Castro Alves, Cora Coralina e de ícones mais recentes como Leminsky e Ana Cristina César vão ser exibidos no Cine Brasília, aberto ao público em geral, mas com a participação de estudantes da rede pública e privada. Filmes de muita qualidade, de cineastas premiados e consagrados, tanto longas quanto curtas metragens.
10. A BIP pensou em contribuir com a inclusão social?
R - Sem dúvida, na medida em que vai usar a Web para divulgar e manter no site da Biblioteca Nacional os textos e os vídeos de muitas sessões que poderão ser usados em sala de aula, para consultas pelos especialistas e pelos amantes da poesia.
Trata-se de conteúdo informativo de interesse público, no momento em que a Biblioteca Nacional de Brasília abre suas salas de leitura e amplia seu centro de inclusão digital para adultos e crianças. Mesmo voltada para o atendimento do público em seu edifício, a Biblioteca Nacional de Brasília estará inteiramente voltada para a difusão de conteúdos pela Web, inclusive a poesia, mas também em arte, ciência e cultura em geral.
11. A BIP vai dar a Brasília um novo patamar de prestígio cultural, justamente no ano que é a Capital Americana da Cultura, que sedia a presidência do Mercosul?
R - Brasília, ao ser escolhida como Capital Americana da Cultura 2008, também foi um reconhecimento por sua expressão cultural já consolidada nestes anos com seus 40 anos do Festival de Cinema, a nona Cena Contemporânea que é o Festival Internacional de Teatro, aprovação da nova Lei de Cultura, e tantos outros movimentos que mexem culturalmente com a cidade.
12. Por que as homenagens aos poetas Thiago de Melo, Affonso Romano de Sant´Anna, Reynaldo Jardim e Wlademir Dias-Pino?
R - Existem muitos poetas notáveis que foram lembrados e certamente vão ser homenageados em bienais futuras. Thiago de Mello é um poeta universal e foi escolha da Feira do Livro, com nosso total endosso. Neste ano comemoramos os 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos da ONU e Thiago está imortalizado por muitos poemas, mas o Estatuto do Homem cabe muito bem como uma declaração poética dos direitos humanos. Reynaldo Jardim e Wlademir Dias-Pino são renovadores
das artes gráficas e da poesia visual no Brasil. Além de tudo, Reynaldo é um poeta de Brasília. Afonso Romano de Sant´Anna foi escolha dos organizadores do Simpósio de Crítica Literária pela Universidade de Brasília, com todos os merecimentos tanto como poeta e como crítico literário.
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