Arquitetura do homem

Hilda Mendonça

Capa do livro Arquitetura do Homem de J.C. Taveira

Capa do livro Arquitetura do Homem de J.C. Taveira

O homem, “este artefato de músculos e sustos”, é o leitmotiv de João Carlos Taveira em Arquitetura do Homem, Thesaurus Editora, 2005, com 120 páginas, arte final de Flávio Lopes da Silva, revisão e comentários do grande poeta Anderson Braga Horta, prefácio de Ronaldo Costa Fernandes. Este é, sem dúvida, um dos grandes livros de Taveira, dividido em cinco partes que, distintas entre si, formam um todo coeso como estruturação do Homem que nos remete a Gregório de Matos, nestes versos: “O todo sem a parte não é todo / a parte sem o todo não é parte.” Assim é essa arquitetura elaborada por Taveira.

Na primeira parte “Eterna Construção”, encontramos o poema que dá título ao livro “Arquitetura do Homem”. Taveira traz aqui um poema duro, quase concreto, que nos remete a Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso” e nessa mesma linha segue com o corpo, “este artefato de músculos e sustos” construído; no entanto, este corpo ora rígido, é o invólucro de “A alma”, “chama que anima / irmã atenta e etérea”. Vem “O tempo”, “Voragem dos abismos / aliança de inefável labor / na construção da vida?” Nota-se que ele afirma, sem nenhuma certeza explícita, esta interrogação.

Há uma pausa em seu devaneio de construção para um fato corriqueiro (que não deveria ser, mas o é) estampado em “Notícia de jornal”, voltando às voragens dos sonhos e indagações em “Navio Fantasma” e “O argonauta”, e faz agora um “Autoconhecimento”, fechando a primeira parte com “A máquina”, volta ao concreto inicial.

Na segunda parte, que Taveira sabiamente denominou de “Inútil Construção”, abre-a com uma “Profissão de fé”. Parece-nos que retoma o tema espiritual que propõe em “A alma” e é aí que traça “O esboço para um poema”. A seguir, o poema esboçado se impõe em “A imposição do poema” e o homem, quase um semideus, aparece na “Contemplação de Apolo” em que já se mostra inteiro; contudo, permanece a indagação. Vem a preocupação com o ambiente do Ser, arquiteto em sobreviver em “Proclamação da rosa” e diante da fragilidade da vida induz-nos, a nós, desprovidos de bens materiais, porém ricos de idéias, o “Testamento” e encerra com “Variações sobre um tema pouco original” a certeza de que, tal como Bach e Mozart tinham de que a música haveria de sobreviver a todo sofrimento humano, a poesia também sobreviverá.

Na terceira parte são as “Imprecações”. Nelas, Taveira se põe diante do espelho e há indagação do Ser: Homem ou Demônio?

Na quarta parte, a música dá a tônica em seus versos, mas não abandona a indagação. É interessante em “Toada” o verso “Minas resiste”; vemos que o Sentimento do Mundo, de Drummond, é muito mais uma raiz mineira que teima em resistir, pois o mineiro sai de Minas, mas Minas não lhe sai do sangue.

Na quinta e última parte vêm os sonetos e os haicais. Ah, o soneto, tão bonito de se ler e ouvir, mas tão difícil de escrever! E Taveira, fugindo do modelo parnasiano das rimas e adotando o verso-livre, compõe com inovação e mestria sonetos lindíssimos, como “Soneto do amor ardente”. Contudo, em “Soneto de sedução”, “Soneto de aspiração”, “Soneto de arrependimento”, Soneto de insensatez” e “Soneto de desencanto” ele se rende à rima e o faz com a mesma perfeição.

O arremate do livro são os haicais, obedecendo ao tema e as estrofes como deve ser um verdadeiro haicai.

Encerrei de alma leve a leitura desta que, espero, seja apenas uma das muitas obras que a verve deste grande mineiro de Caratinga continuará a nos brindar.

Passos, 2 de julho de 2008.

* Hilda Mendonça é escritora e professora de literatura, aposentada. Morou durante vários anos em Brasília e hoje reside em Passos, Minas Gerais, sua terra natal.

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