valter hugo mãe e sua urgência enorme em saber das coisas
De passagem por Brasília, como convidado especial da 27ª Feira do Livro, o escritor valter hugo mãe, vencedor do prêmio José Saramago com o livro “o remorso de baltazar serapião”, Quidnovi, 2006, deu uma entrevista exclusiva para a Revista Nós Fora dos Eixos, onde revela sua visão de literatura e fala sobre seu próximo romance. valter hugo mãe escreveu diversos livros de poesia, entre os quais: bruno, Littera, 2007; pornografia erudita, Edições Cosmorama, 2007; livro de maldições, Objecto Cardíaco, 2006; o resto da minha alegria seguido de a remoção das almas, Caderno do Campo Alegre, 2003; útero, Quasi, 2003; a cobrição das filhas, Quasi, 2001 e três minutos antes de a maré encher, Quasi 2000.
Sua poesia está traduzida/editada em antologias ou livros autônomos em países como Espanha, Brasil, República Checa, Tunísia, Israel, Alemanha, Suiça, França, Lituânia, Eslovênia, Estônia e Estados Unidos. Esporadicamente, dedica-se às artes plásticas, tendo realizado a sua primeira exposição, intitulada o rosto de gregor samsa, no final de 2006 na Galeria Símbolo (Rua Miguel Bombarda, Porto).
Outras informações sobre o autor, bem como modo de contato, poder ser conseguidas em www.valterhugo mae.com.
Nós Fora dos Eixos - valter como você vê a literatura contemporânea?
valter - a literatura está cada vez mais dividida entre aqueles que acreditam que ela tem o seu lugar, servbem ainda para aumentar o que o indivíduo já é, e aqueles que entendem que a literatura é apenas mais um produto de consumo. Acho que nunca como hoje aconteceu de tanta gente se interessar pelos livros apenas pelo seu lado comercial ou mediático de projeção para um protagonismo qualquer… e por isso que vejo a literatura assim: entre aqueles que sonham atualmente com as palavras e acreditam na magia das palavras e aqueles que usam as palavras para enriquecer, para colocar coisas nos bolsos.
Nós Fora dos Eixos - Uma das polêmicas que existem hoje na literatura é se o que vende mais é a mensagem ou a história. Na sua opinião qual o mais importante dos dois?
valter - Eu acho que por questões pura, o que está em causa hoje em dia, talvez seja a mensagem. A história contada assim ou contada assado, personagens a mais ou menos personagens acaba por ser acessório quando o livro sustenta sobretudo uma idéia. A verdade é que os grandes best sellers internacionais de fato não vivem da história. No caso do Código Da Vinci, por exemplo, aquela trama que acontece no livro é absolutamente desinteressante, o que está ali em causa é uma mensagem do livro que é a problematização que passa pela decendência de Cristo, que passa pelo o que possa ter pensado o Leonardo da Vinci sobre tudo isso, por isso que acho que em termo comerciais o que toda gente anda a procura não é de uma história, mas sim de uma idéia talvez.
Nós Fora dos Eixos - valter nós sabemos que você é um escritor que vai de encontro à Academia… como é o seu relacionamento com a Academia?
valter - Eu não tenho problemas com a Academia…
Nós Fora dos Eixos - O fato, por exemplo, de usar seu nome sempre em letras minúsculas, você não repercute para além da Academia?

Em sua estada em Brasília, valter publicou uma edição limitada para colecionadores do livro mil e setenta e um poemas pela Thesaurus Editora
valter - tem sim, mas eu também tenho consciência que meus livros serão uma leitura mais fácil para os leitores mais experiente, mais exigente, que consiga encarar e enfrentar textos mais difíceis. Mas eu não tenho interesse de ser um autor difícil pura e simplesmente, o que eu acho é que enquanto autor tento ser o mais genuíno possível comigo mesmo, e o que eu faço é aquilo que eu quero fazer e, aquilo que eu faço como acho que é aquilo que deve ser feito ou como as coisas devem ser feitas, como eu acho que sei fazer de melhor e por isso não faço concessões nesse sentido. Eventualmente se fizesse alterações meus livros venderiam muito mais, mas a minha opção não é essa, a minha opção é lutar por uma litertura de valor, uma literatura que acima de tudo esteja interessada no avanço da língua portuguesa, no avanço do pensamento, do que é sermos humanos em 2008.
Nós Fora dos Eixos – valter, quais são os seus planos literários para o próximo livro? Já dá para adiantar alguma coisa para o seu leitor?
valter – Eu já estou a escrever o próximo romance e é a história de um homem com 79 anos que subtamente vê sua mulher falecer e que tem de se reencontrar, quando ele próprio tem a sensação de que a vida está a acabar e busca então um motivo para suportar os dias, e por isso, como é que um homem que acaba de perder sua companheira, até certo ponto a sua identidade… como é que um homem desses se convence de continuar a viver?
Nós Fora dos Eixos – Já que a temática desse seu próximo livro é o amor, como é que você o enxerga em final de século XXI? Mudou, não mudou? É só um sentimento de natureza humana, ou não?
valter – O amor tá cada vez mais prático, né! O ser humano cada vez mais tenta racionalizar e o amor fica assim um bocado em perigo… a entrega está cada vez menor e a perda é sempre mais controlada, e isso até certo ponto é uma pena. É preferível enfrentar um amor de absoluta perdição, ainda que um dia acabe e tenhamos que sofrer até morrer. Mas ainda é preferível isso do que viver impavidamente sem qualquer alteração, sem qualquer inibição do ser.
Nós Fora dos Eixos – Então quer dizer que os leitores podem aguardar uma obra muito intensa, vibrante?
valter – Com certeza será uma obra de muita intensidade… por algum motivo o Saramago diz que sou um tsunami, e isso é que faz com que as minhas obras tenham muita voracidade, muita pressa, muito urgência sobretudo. Há uma urgência enorme em saber das coisas, em conhecer as coisas, experimentar e humanizar as coisas… é isso aí.
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