Percurso de uma paixão

“Trecho do livro Antologia Personal de Astrid Cabral”

Nasci em Manaus, a 25/09/1936. Pequenina ainda, itinerei com os pais por Salvador, Niterói e Recife. Aos 4 anos de idade, com a morte de meu pai, ofi cial da marinha mercante, retornei com a mãe e a irmã à casa dos avós maternos, conceituados mestres de Manaus.

Morávamos em um sobrado que se erguia na Avenida 7 de Setembro, em frente ao Palácio Rio Negro, entre pontes sobre igarapés povoados de palafi tas e flutuantes.

Desde muito cedo, portanto, a visão de um Brasil dividido entre riqueza e pobreza. Também desde cedo, o agudo contraste entre a natureza selvagem e o requinte urbano implantado com o apogeu da borracha.

Cresci em meio a jardim, horta, quintal, pássaros e xerimbabos, numa rua em que os bondes da Light passavam cantando nos trilhos. Ali fi cava o casarão neoclássico, ex-consulado da Colômbia, construído com material importado, pinho de Riga e mosaicos vindos da Europa. A primeira vez que fui a Paris surpreendi-me ao reconhecer no chão de um restaurante, o mesmo de minha casa.

Integrava família numerosa de catorze pessoas, entre as quais cinco tias, afilhados de origem indígena e empregadas. Muitas vezes substituí as tias ensinando adultos que vinham a residir conosco ainda analfabetos, pois a preocupação social e cultural sempre esteve presente em nosso lar, onde não faltavam piano, livros, e o constante zelo da avó pelo bom uso do português.

Comecei a ler aos cinco anos, graças à Dona Fernanda, professora portuguesa da vizinhança. Foi quem me introduziu ao mundo mágico de fábulas e contos de fada, sem usar a temível palmatória de algumas escolas. Dos seis aos oito, fui semi-interna no Colégio das Dorotéias, para adquirir bons modos, conforme os objetivos da mãe, mas de onde saí em protesto contra o diversificado tratamento dado às alunas, segundo a posição sócio-econômica. Concluí o primário no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, apaziguada com a justiça dos critérios democráticos que reinavam por lá.

Aos 11 anos vislumbrei a vocação da literatura, ao me preparar para admissão no ginásio, com Ismênia Malaquias, professora famosa pela competência, mas cujo chamariz maior era seu pomar de goiabas. Melhor que o sabor das frutas, descobri o prazer da escrita. Assim, durante o recreio me envolvia nas tarefas de composição verbal, resistindo ao chamado dos colegas para entrar na farra dos jogos e brincadeiras.

No ano seguinte, já no Instituto de Educação, pirralha intrometida, passei a freqüentar a SAEL (Sociedade Amazonense de Estudos Literários) em meio a rapazes bem mais velhos. Muitos dos integrantes desse grupo deflagraram mais tarde o movimento renovador do Clube da Madrugada, responsável pela tardia instauração do Modernismo no Amazonas.

Aos dezesseis comecei a publicar artigos e crônicas na imprensa local. Logo depois conquistei primeiro lugar, em concurso da União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas, com monografi a sobre Euclides da Cunha. O avô me incentivara, colocando-me em mãos Os sertões, esclarecendo-me aspectos da obra. Os rapazes classifi cados abaixo de mim, oradores consagrados, não se conformaram com o resultado. Ignoravam que a linguagem escrita exigia outro tom, e como, por temperamento tímido, nunca subi a nenhuma tribuna, fi caram pensando que alguém havia feito o trabalho por mim.

Quando aparecia em público era apenas para declamar poemas, sendo que às vezes ousava dizer algum de minha autoria como se fosse de alguém anônimo. O amor pela palavra sempre me guiou os passos pela vida afora. Estudava com afinco línguas e aos catorze lia, com facilidade, Balzac, Flaubert, Musset e Lamartine, romancistas de língua espanhola, sem falar nos clássicos portugueses e brasileiros. Nessa época, a influência francesa era hegemônica e só mais tarde pude aprofundar os conhecimentos de inglês. Cursei o curso clássico no Colégio Pedro II, objetivando estudar Letras no Rio de Janeiro, em hipótese nenhuma Direito na única faculdade local.

Para o avô eu devia tentar o Rio Branco, por causa do pendor para línguas, mas eu sempre soube que no meio diplomático não passavam de instrumento para o exercício da política e da vida social.

Meu interesse verdadeiro era o conhecimento lingüístico, a palavra em si. A certeza na escolha da profi ssão era tamanha que, embora moça pobre, declinei de generosa bolsa de estudos para seguir administração na Fundação Getúlio Vargas.

De 1955 a 58 cursei neolatinas na antiga Faculdade Nacional de Filosofia iniciando também a atividade do magistério, com alunos particulares de latim e português, bem como aulas de francês no curso preparatório do vestibular, mantido pelo centro acadêmico. Formada e já casada com o poeta goiano Afonso Félix de Sousa, lecionei, no Colégio Assunção, língua e literatura brasileira para o ensino médio, até ser convidada pelo professor José Carlos Lisboa a integrar a primeira turma de docentes na Universidade de Brasília.

Arrebatados pela perspectiva de aventura, no impulso apaixonado da juventude, Afonso e eu nos transferimos para a nova capital em 1962, levando conosco dois filhos pequenos, e na bagagem, muita fé e esperança. Na Brasília dos anos pioneiros, experimentei o exílio, longe do círculo de amigos e condenada à paisagem desértica. Vivendo no que me parecia uma gigantesca maquete, fria feito o mármore de seus monumentos, sentia-me agredida pela ausência do verde e das águas a que estava afeita no Amazonas e no Rio. Foram extremamente duros e problemáticos esses primeiros tempos, dois acidentes de automóvel, doenças na família sem adequada assistência médica, quase total falta de apoio doméstico, numerosos confl itos que impediam a rotina tranqüila e produtiva. Valia o desafi o que representava a carreira universitária e a vinda de mais dois fi lhos. Pouco a pouco novos amigos foram surgindo na UnB e em torno da recém-fundada Associação Nacional dos Escritores. Em 1963, consegui lançar o livro de fi cção Alameda, concluído cinco anos antes, e bastante bem recebido pela crítica.

Com a ditadura em 64, a situação nacional e local, se deteriorou, forçando-me a sair da universidade e abandonar o mestrado. Dedicava-me a traduções e crônicas para a Rádio MEC, quando surgiu a oportunidade, através de um concurso público, para ingressar no Itamaraty como ofi cial de chancelaria. Findo o estágio probatório, consegui posto na Embaixada em Beirute, aonde Afonso fora designado como funcionário do Banco do Brasil, tendo em vista a promoção comercial do país. Dali regressamos em 72, com mais uma fi lha, raras emoções e lembranças preciosas. O amor à palavra levou-me a aprender de oitiva o dialeto libanês, o que facilitou o bom relacionamento com as pessoas do povo e a movimentação turística e cultural pelos arredores.

De retorno ao Brasil, lotada no escritório regional do Rio de Janeiro, trabalhei vários anos no Arquivo Histórico e no Instituto Brasileiro de Educação Ciência e Cultura, órgão vinculado à UNESCO. Paralelamente, retomei os estudos de inglês, língua e literatura e concluí o curso da Cultura Inglesa, e o de professora pelo IBEU. Em 1986, fui de novo convocada para servir no exterior, dessa vez no Consulado Geral de Chicago, onde permaneci seis anos desempenhando funções em vários setores.

Com a anistia em 1988 e conseqüente reintegração à UnB, consegui anos depois, permissão para regressar dos Estados Unidos e reassumir o magistério superior em Brasília, onde lecionei literatura brasileira, dessa vez numa cidade acolhedora, confortável e florida.

Em 1996, já no Rio de Janeiro, aposentei-me no serviço público, podendo melhor concentrar energias na assistência à família, bem como na elaboração da obra poética. Se o afastamento da vida universitária por mais de vinte anos representou forte frustração, devo a esse rompimento maior disponibilidade de entrega aos apelos interiores em prol da criação pessoal. Enquanto no exercício do magistério coloqueime inteiramente a serviço da obra literária alheia, na condição de funcionária do Itamaraty, cumprindo tarefas que não me empolgavam, meu amor pelas letras recolheu-se à esfera particular, interiorizando-se e expandindo-se na elaboração de vários livros de poesia.

De 1963 a 1979, entre Alameda e Ponto de cruz, vivi longo hiato de abandono da literatura como produção pessoal, envolvida de corpo e alma com a educação dos cinco fi lhos, problemas de ordem doméstica e prática, desafios profissionais, mudanças de cidades, ambientes e culturas. Foram anos de silêncio e aridez com o afastamento do núcleo criativo. A essa altura amargava o sentimento de ver a vocação sabotada, pois o destino não parecia endossar meus 20 anseios de expressão, garantindo-me o indispensável tempo/espaço para a entrega. Se nunca duvidei do amor pela palavra, sempre me interrogava acerca do valor de um texto fora do universo de seu criador.

Como, no exercício da palavra, transcender a função terapêutica, inerente ao extravasamento visceral? Uma espécie de covardia me castrava a necessária dedicação à difícil empresa. Com a maturidade, porém, consegui ousar, varrer muitas dúvidas e pouco a pouco assumir a paixão clandestina, canalizando as energias na construção da obra que latejava em projeto dentro de mim. Passei a aceitar, com humildade e coragem, os limites individuais dentro dos quais elaboraria o fascínio pela palavra, lançando-me nos abismos da arte, a correr os riscos da temerária aventura.

Nesta nota biográfica, debrucei-me sobre fatos e datas, expondo em seqüência cronológica uma trajetória de vida. Mas permaneci na superficie do óbvio. Somente mergulhando na leitura dos poemas é que se poderá ultrapassar as informações esquemáticas e apreender em profundidade a dimensão existencial de um pendor levado a sério, a verdadeira história de uma paixão.

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