A tragédia e os comédias
Por Lelê Teles
A terra do vinho viu as vidas mergulharem em valas de lama e barro. Tudo ali, na terra mole de Santa Catarina, tem as fortes nuances do trágico. Estou pensando em Nietzsche nesse momento. A beleza plástica das encostas, a beleza da vegetação e da gente evoca a tudo que é apolíneo. Terra do Guga, e de várias modelos internacionais e atrizes globais, terra da magia e da arte que encanta: apolíneo.
E de repente, num átimo, os trovões anunciam a triunfo do Deus Dionísio. A destruição total para que tudo se renove a volte a ser apolíneo. Ergamos as taças de vinho, façamos uma libação ao grande Dionísio, que dancem as bacantes, que saltem os Sátiros, que o coro anuncie o ditirambo. A vida é cíclica!
Vamos à encenação midiática. Vamos a um simples recorte. Começarei por um exemplo. Certo dia, ainda nos tempos de Universidade, chega um jovem à sala de aula, interrompe-a e pede para que os alunos doem casacos para os que sofrem com o frio no Vale do Jequitinhonha. Eu levantei o braço e perguntei: Jovem, onde fica o vale do Jequitinhonha? Ele desenhou da minha ignorância e respondeu-me prontamente. E eu disse, mas antes de chegar aqui à UnB você não vê que há pessoas morando debaixo de lonas negras? Não vê a tragédia aqui, dos mendigos debaixo de marquises, dos pedintes dos sinais? Sabe quanto de frio passam os que vivem em nossas periferias? Por que ir tão longe, por que escolher esta tragédia tão distante, é por desencargo de consciência?
Ora, fui buscar a origem disso, descobri que Dona Ruth Cardoso havia escolhido o Vale para começar o seu Universidade Solidária, o vale tava na moda, tava na mídia! Era isso, o rapaz estava com os seus sentimentos direcionados pela mídia, porém insensível às outras tragédias.
Os dramaturgos gregos tinha na tragédia o sentido moral e didático. Toda tragédia tem essa finalidade; veja a Paixão de Cristo que, insisto, nasce da tragédia grega e tem todos os elementos desta e a sintaxe helênica. Do que nos fala esta tragédia nossa?
Essa catarse, como queria Aristóteles, essa purificação interior é o meu objeto de estudo agora. Ela fala muito sobre nós, sobre o nosso ethos, sobre o nosso ser social. É nesse tipo de tragédia, midiatizada, que nos vemos humanos, demasiadamente humanos: mortais, solidários, irmãos, cheios de amor e compaixão. Sem isso somos o que somos: egoístas, cínicos e insensíveis.
A tragédia nos redime!
De Brasília parte um comboio com toneladas de alimentos, roupas e água. O comboio ruma à Santa Catarina, onde as pessoas invadiram encostas para construírem suas casas e desmataram para plantar, anunciando uma tragédia.
No caminho, até chegar ao destino, o comboio passa por várias cidadezinhas, periferias, passa por pedintes, passa por miseráveis e por gente que sofre com a seca; enfim, desfila por entre a tragédia humana de todos os dias e que, por isso mesmo, foi convertida em banalidade.
Numa cidadezinha agredida pela seca, dois meninos seminus caminham com latas d’água na cabeça. Vinham da beira de um barranco de onde extraíram, de um poço raso onde o gado magro acabou de beber e de babar, um pouco de lama rala para cozinhar em casa.
Os meninos vêem os caminhões passarem e perguntam ao pai que vai se achegando, magro e triste:
- Pai, onde será que vai tanta coisa?
Ao que o pai responde:
-Acho que é a cumida que o povo da cidade grande tá mandano pro povo que vive debaixo d’água, fi; eu vi na TV.
E o menino, com s olhos secos de fome, ingenuamente retruca:
- E por que eles num deixa um poco dessa cumida aqui, pra quem vive por cima da seca?
Lá do céu irrompe, trovejante, a voz sarcástica de Machado de Assis responde sem cerimônia:
“…Há entre o céu e a terra, Horácio, muitas coisas mais do que sonha a vossa vã filantropia”!
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