O MINEIRO E A CAPIXABA
Num cenário que começa em Brasília e se estende até o Espírito Santo e o Maranhão, o cronista coloca em cena personagens surpreendentes como Roberto Carlos, Camilo Cola e Rubem Braga, além de mineiros de Moema, Lagoa da Prata, Bom Despacho e Divinópolis
Jacinto Guerra, especial para o Jornal de Negócios
Numa tarde de dezembro, já bem nas portas do Ano Novo, o mineiro sai do supermercado com duas sacolas de panetone, pão francês e um Vinho do Porto, para o café da manhã, no domingo. Na alameda frente ao bloco C da 109 Sul, uma superquadra de Brasília, poucas pessoas caminham na sombra das árvores, com a tranqüilidade desse período mágico depois do Natal.
De repente, o cidadão é surpreendido com o Boas Festas de uma cinquentona simpática e de bem com a vida, pelo menos nas vésperas de 2009, nesta cidade também cinquentona, que Juscelino construiu no Planalto Central e que André Malraux chamou de Capital da Esperança.
Em Brasília, existe a curiosidade natural em saber de que recanto da Pátria veio cada uma das pessoas que ficamos conhecendo, porque todos aqui vieram de lugares diferentes. Retribuídos os votos de Feliz Ano Novo, então, a pergunta inevitável:
– A senhora é natural de onde?
– Com muito orgulho, sou de Cachoeiro do Itapemirim, uma das cidades mais importantes do Espírito Santo e do interior do Brasil.
– É mesmo. E gosto muito de Vitória, Vila Velha, Guarapari…
– O senhor, também, é capixaba?
– Não, mas sou daqueles mineiros que se encantam com o Espírito Santo.
– Por causa das praias, não é mesmo? E de tantas coisas bonitas que temos, principalmente em Vitória e Vila Velha, como o Convento da Penha…
– Isto mesmo. Mas infelizmente ainda não conheço Cachoeiro do Itapemirim, terra do Roberto Carlos, do Rubem Braga e do Camilo Cola.
– Pois é, sou conterrânea do grande cantor e compositor, que sempre encanta o Brasil, com sua voz e suas canções de muita beleza; do notável cronista-poeta que viveu em Belo Horizonte e, depois no Rio de Janeiro – e de Camilo Cola, o empresário moderno, que, em sua juventude, lutou na Itália, como um dos pracinhas do Brasil na II Guerra Mundial para, depois, fundar, dirigir e consolidar uma grande empresa: a Itapemirim, com suas frotas de ônibus que cruzam o nosso país nas mais diversas regiões.
Depois, a conversa toma o rumo de Filadélfia, não a grande cidade norte-americana, mas uma cidadezinha com o mesmo nome, no Tocantins, lá perto do Maranhão. É que, em sua juventude, o marido de dona Maria, de lá, atravessou o Rio Tocantins e foi estudar em Carolina, perto de Imperatriz.
Conversa vai, conversa continua, o mineiro toma a palavra:
– Já estive em Imperatriz, a convite do maranhense Gedean Campelo e fui muito bem recebido pelo casal de médicos Maria Claret e Domingos Sávio, mineiros de Lagoa da Prata e Bom Despacho, que moram hoje em Divinópolis. Gostei tanto do lugar que escrevi a crônica “Bem-Vindo a Imperatriz”. Está na primeira edição do meu livro O gato de Curitiba. Fiquei conhecendo Carolina, depois de demoradas conversas com meu amigo Geraldo Majela Ferreira, advogado mineiro, natural de Moema, que foi Juiz de Direito naquela cidade do Maranhão. Lugar de muitos encantos, de belas tradições – e, de natureza exuberante, com seus rios, cachoeiras e recantos de lazer que o escritor Salomão Sousa descreve num estilo poético, de grande fascínio mesmo para o leitor muito exigente. Ia me esquecendo: Gedean Campelo também é de Carolina e não só confirma, mas amplia tudo o que disseram o Dr. Majela e o poeta Salomão Sousa. Muito obrigado, dona Maria, pela conversa-viagem que a senhora proporcionou a este cronista de Brasília e do interior de Minas Gerais.
Jacinto Guerra, professor e escritor, é autor de vários livros, entre os quais Uma casa navega no mar – contos, crônicas e pequenos ensaios (Thesaurus, 2008). Entre seus trabalhos relacionados com “O mineiro e a capixaba”, destaca-se a crônica “Espírito Santo, Brasil”, publicada em seu livro O gato de Curitiba, em 2ª edição, pela Thesaurus.
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