Uma verdade solar
Autor: Éz Macedo
Acordou em sobressalto. Suava em bicas. Uma noite, o Sol conversara com ele e, de
forma peremptória, afirmou que se descolava, com rapidez impressionante, para se chocar
com a Terra, pois tivera alterada sua rota no espaço por causa da poluição na Terra.
Correu à mãe para avisá-la do fato.
- Está bem, mas vá tomar seu café pra ir à escola e não se preocupe, pois
do jeito que as coisas andam, o mundo realmente vai acabar um dia.
- Mas…
- Sem mas, porque você já está atrasado!
Na escola, procurou a professora para alertá-la sobre a conversa quente que tivera
com o Sol.
- Sim, claro, os eco-chatos, desculpe, os ecologistas há séculos estão
preocupados com isso, mas nada vai acontecer agora. Vamos voltar para
nossa aula e depois a gente discute isso, tá bem?
O Sol esquentava-lhe mais e mais a cabeça. Saiu da escola pensando se só ele sentia
o calor super ardente nas têmporas. Estaria com febre?
No caminho de volta da escola, passou diante de uma fábrica e viu, jogados no rio,
dejetos espumantes. Olhou para o Sol como a confirmar suas palavras: o homem, esse ser
tão maravilhoso, inteligente, criador de estupendas máquinas, estaria cego há muito tempo
para a terra, o ar e a água? Não entendia: o homem precisa da água e a polui; do ar e o torna
irrespirável; da terra e a torna infértil. Seria o homem tão inteligente assim? Começava
sinceramente a discordar disso enquanto olhava a espuma a correr soberana no leito do rio.
O Sol cada vez mais esquentava-lhe os miolos.
Chegou em casa, ligou a TV. Discutiam o aquecimento global, o Protocolo de um
tal de Kyoto, e falavam da conseqüência do aquecimento para as futuras gerações se nada
fosse feito em curto prazo.
No jantar, comentou esse fato com o pai.
- Meu filho, nós temos água para beber, não temos? Pois bem, as futuras
gerações que se arrumem para conseguir água. Enquanto tivermos água na
torneira, por que nos preocupar? Com relação ao tal Kyoto, além de ser
chinês etc, se os americanos não assinaram é porque não presta mesmo. Os
americanos, meu filho, são americanos, e, por isso, sempre certos.
Calado, olhava para o pai. Confuso, aceitava a explicação. Como era seu pai, e
adulto, devia de estar certo do que falava, além do fato óbvio de que o Super-Homem era
americano. Foi dormir sossegado.
De madrugada, novo sobressalto. Abriu os olhos e viu que a noite tornou-se dia.
O Sol não mentira.
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