A Lenda do Beijo
(Lida ao som da música Num Jardim de um Mosteiro)
Por Bariani Ortencio, do livro Crônicas, lidas na Rádio Clube de Goiânia – 1949 e 1956 e publicadas no jornal O Popular entre os anos de 1991 e 2005.
No imenso serralho de um rico sultão, numa antiga cidade da Índia, havia a sua favorita, uma mulher do corpo divinal. Tinha o rosto mais lindo do que a lótus refletida na piscina do banho virginal. A negrura dos seus olhos parecia encerrar o mistério das noites árabes. os seus lábios mais vermelhos que as mais vermelhas romãs e as maduras e doces tâmaras. Chamava-se Alzira. Quando Alzira levava aos lábios uma flor murchecida, dava-lhe vida, imediata. Mantinha, assim, um vivo bouquê de flores vindas das mais diferentes partes do Oriente. Eram prícipes, sultãos e rajás que lhe enviavam flores das suas predileções, com o consentimento do sultão, seu amo, depois de a terem visto dançando no paço do Sultão. Todas as odaliscas ganhavam flores, mas murchavam-se e somente as flores de Alzira permaneciam viçosas. Quando se achava descansando, livre da admiração do seu amo, Alzira deleitava-se com o perfume de uma flor e acariciava-a com os lábios, num gesto de meiga ternura. Aí, aquele vermelho púrpuro ou azul borboleta das pétalas, coroca-se mais ainda. Aqueles pedaços de amor, alguns deles brancos ou rosados, pareciam ter mais vida, e coloriam-se, vigorosamente, ao contato com os lábios de Alzira.
Com o passar do tempo, o sultão notou que estava perdendo o amor da mulher favorita, pois esta esfriava-se nos seus braços e tornava-se mais febril ao acariciar as suas flores, presentes enviados pelos mais simpáticos mancebos, cheiques de todo o Oriente. Indignou-se muito com isso e não permitiu que ela dançasse mais para ninguém a não ser só para ele. Então o seu palácio passou a ser tão pouco freqüentado que mais parecia um casarão ricamente abandonado. Daí, por dia diante, todo o seu amor transformou-se em cólera e toda a sua paciência passou a ser brutal. Entrou como um bruto perdido no seu harém e viu Alzira abraçada com as flores que haviam sido enviadas há mais de anos e estavam frescas como se tivessem sido colhidas naquele momento. – De onde veio isso?! – irado, perguntou o sultão. – Esta branca veio do rajá de Asseberé. A rosa, do marajá de Odibe. A vermelha, do sheik de Bagdá. esta azul, raríssima, foi o sultão Zaluf, seu grande amigo que m´a deu.
– Oh mulher infiel e malditos e falsos amigos!… Então a fazer a corte à Alzira, ludibriando a minha honra e a minha confiança! Guerra aos infames traidores e morte a esta mulher infame, indigna! E assim foi feito: milhares de homens armados demandaram os territórios dos “inimigos”. Corpos, varados de lado a lado, tombavam numa luta de causa lendária. Alzira, amarrada e arrastada pelas ruas de pedras, sucumbia, puxada por fogosos cavalos. O seu corpo, quase despedaçado, foi atirado ao pasto dos camelos, do outro lado das muralhas da cidade. Já quase derrotado, o sultão foi tomado por profundo arrependimento. Ele mesmo, sozinho, atravessou a cidade e foi além dos seus muros buscar o perdão da mulher amada. Alzira jazia morta, mas os seus lábios viviam, e murmuraram numa voz de eterno amor: “Eu o perdôo, meu senhor e meu amo”. E o sultão, moribundo, tombou sobre ela para morrer, agradecido. Mas, ao contato com os lábios de Alzira, sentiu a vida invadir-lhe o corpo. Só então ficou sabendo do mal que praticara e do poder daqueles lábios de dar, novamente, a vida.
Daquela data em diante todas as mulheres, achando que aquele poder fosse comum a todas, procuraram, com os lábios, dar às suas vítimas. Muitas delas têm, até hoje, o poder inverso ao de Alzira, pois quanta gente neste mundo que morre depois de um beijo de amor?!…
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