Rober Diaz, sangrando a sua imensidade

nascido na Cidade do México em 1981, o poeta é licenciado em Ciências Políticas na UNAM

nascido na Cidade do México em 1981, o poeta é licenciado em Ciências Políticas na UNAM

A Revista Nós Fora dos Eixos inaugura um espaço dedicado à poesia e também ao poeta. Um cantinho para a leitura de poesia para os novos autores, que muitas vezes nos procuram em busca de feed back, de incentivo, de uma vitrine, de onde possam mandar seus recados. Todos podem participar. Para ter sua poesia divulgada por nós, basta nos enviar por e-mail com uma pequena nota biográfica. Escolha um ou mais poemas e envie para o e-mail: cultpress@thesaurus.com.br e no campo assunto escreva: ESPAÇO DOS NOVOS. Se preferir pode também nos enviar foto em anexo.

O poeta dessa semana é Rober Diaz, nascido na Cidade do México em 1981, licenciou-se em Ciências políticas na UNAM – Vive actualmente em Portugal, no Porto onde trabalha em tradução. Faz parte do corpo editorial da revista de literatura e artes “Sin-ismo”. Abaixo uma mostra de sua poesia:

Gameto.

Estender-te,
sim
desdobrar-te,
como se fosses um mapa
a que só recorro para procurar reflexos,
ecos de localizações prefabricadas,
espelhos nebulosos
onde perder o caminho seja mais fácil;

Suponho
que o que quero é sentir a tua falta
afastando-me do ponto vazio
por onde as nossas despedidas se cruzaram
como palavras cruzadas
que encerravam olhares
e gestos inertes

Tivemos que calar-nos…?
Para dizer:

Talvez seja,
te encontre no inferno,
olvidada das linhas da minha mão pútrida,
descomposta, tresandando a esterco,
que ali ansiará tocar-te
esfumando-se num latido
como um cão horrorizado,
como una luva alheia corroído à sombra
pelo fogo semelhante a uma tumba,
meditando
que o futuro
é só a sua
desaparição,
em rastos
de suores inalados
de pistolas não empunhadas
e de marcas aquosas
de lágrimas ou
saliva evaporada.

Podemos dizer:
Não te verei mais:
Amanhã arranco os meus olhos,
com um abre-latas decepcionado
que esperava
nenúfares da minha alma
e só recebeu lesmas coprofágas
caracóis descabeçados,
um par de testículos alargados
a produzir mais esperma
para calar qualquer ânsia
de penetrar-te
e reter-te

Gameto Feminino.

És dessa maneira?
Assim?
Como o vento se concentra nos lábios e dentro da boca,
corre serpenteando,
amarra-se,
para logo se desatar.
como chegam as palavras ao ar
e chega o vazio com um estrondo
e o nada converte-se num espaço
partido o silencio
em sons que são feridas
em vozes que fazem chagas,
como dizes quase desesperadamente,
vem fica aqui,

Hora,
Forma,

Porque necessito da tua futilidade
para manter a ideia de uma linha
num volume espontâneo
que me saque dos planos bidimensionais
das metáforas abertas
e me acerque um milímetro a tua carne
e com as mãos fazer do teu suor
um hálito perdido
pedaço de luz nauseabunda
ou pútrida
recordando que através do teu corpo
recobre a minha mi ilusão recidiva
pela pura banalidade de percorrer-te
prescindindo de explicações

baralhado

Hora,
Forma,

Nosso encontro inconcluso termina
para avançar
sobre baforadas de fumo
em palpitações eléctricas,
abaixo do mesmo artificio
com o que escondo
a minha natureza árida,

Forma,
Hora,

Se nos perdemos
não há porque pensarmos
que eu te inventarei desde as minhas palmas
com outro nome…

Zero

Um acto de fé
depositado numa seringa
larga de ponta cónica
por onde Deus passa a estilhaçar-se
chorando e comovido,
enfermo,
como um curativo de infecções
sem constatar
que ele era a ferida
que só poderia conter-se
ou suturar-se
que não tinha cura
muito menos crosta
ainda que não o aceitasse

ia sangrando a sua imensidade
fluía como a pus
causava-lhe dor
sem poder retratar-se
suava como uma febre

Um acto de sobrevivência
abandonado no estrume
verde pestilento
cagado depois de um pequeno suspiro
onde Deus se recicla
regresa à Terra
tranquilo aguarda o sol
esquecendo a suas velhas dores
sabe que foi uma contracção
a que abriu a realidade
que do ventre de alguém
se desatou
e foi mais que um alívio
pari-lo
senti-lo entre um vendaval e uma tormenta
a sua cabeça
as suas duas pernas
acomodando-se para que
ficasse sentado

diante da sua poderosa ambição
o mundo
diante da sua terrível imagem
o homem
diante do seu injusto jogo
a vida
diante de um destino quebrado
o amor.




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