Agostinho Santos lança livro com 20 anos de jornalismo de investigação
Enviado por Carlos Jorge Mota
São 20 anos de reportagens num livro sobre a “parte negra e sombria” de Portugal. “Portugal a Negro”, do jornalista Agostinho Santos, reúne cerca de 25 reportagens, quase todas publicadas no “Jornal de otícias” (JN), onde trabalha há 18 anos, sobre temas como os semabrigo, a toxicodependência, o tráfico de droga, o trabalho infantil, a prostituição e a violência doméstica. O livro, editado pela Calendário – Tempo dos Livros, é apresentado amanhã, às 21h30, no auditório do JN, no Porto.
Apesar da idade de alguns trabalhos (alguns deles publicados no jornal “O Primeiro de Janeiro” e na extinta revista “Razão”), “todos continuam actualíssimos”, diz Agostinho Santos, jornalista há 25 anos. “Só o trabalho infantil é que está praticamente erradicado. Todos os outros [fenómenos] não só continuam como até aumentaram”.
Para descrever os mecanismos próprios de realidades que funcionam à margem da sociedade (e, em alguns casos, da legalidade), Agostinho Santos tornou-se também ele um sem-abrigo, um arrumador (sofrendo as ameaças de quem já arrumava carros em determinadas zonas do Porto), e um preso.
Foi com esta postura que venceu em 1989 o Prémio Gazeta, com um trabalho sobre o tráfi co de droga. “Cheguei à conclusão que as pessoas só diziam aquilo que entendiam [quando se identifi cava como jornalista]”, explica. “Tenho a noção que corri alguns riscos, por exemplo, quando fui arrumador no Porto. Tive a noção de que se esticasse mais a corda sofreria agressões físicas”.
O director do JN, José Leite Pereira, no prefácio do livro, lembra que “quando se diz que a profi ssão de jornalista é perigosa é destes jornalistas que falamos, dos que se arriscam a um confronto desigual com traficantes, tão ou mais arriscado do que acompanhar uma guerra”.
Jornalismo é “denunciar”
“Portugal a Negro” abre com a reportagem “Pobreza com novo rosto”, publicada no JN em Junho de 2008, que lhe revelou uma nova forma de pobreza. Dormiu com os sem-abrigo, comeu a “sopa dos pobres”, pediu esmolas com eles.
“Quando fi z uma reportagem sobre sem-abrigo há alguns anos percebi que a maioria das pessoas que estava na rua era afectada pela toxicodependência e pelo alcoolismo. [Em 2008] Constatei, no Porto e em Lisboa, que muitas são pessoas que têm os seus empregos. Ganham o ordenado mínimo, que não chega para se alimentarem”, diz.
Mais de duas décadas depois, apesar das mudanças na profi ssão, Agostinho Santos continua a acreditar que o jornalismo “tem obrigação de dar visibilidade à parte negra e sombria” das sociedades.
“O jornalismo de investigação tem pernas para andar, se for feito com seriedade”, diz. “Felizmente tenho tido a sorte de o ir fazendo”.
In JN
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