A poesia existencialista de Rafael Castellar

Rafael Castellar mandou seu poemas para a Revista Nós Fora dos Eixos, mande seus poemas também

Rafael Castellar mandou seu poemas para a Revista Nós Fora dos Eixos, mande seus poemas também...

Mais novo intengrante do nosso cantinho da Poesia, Rafael Castellar das Neves, nascido em Santa Gertrudes há 29 anos e atualmente residente na cidade de São Paulo.

Formado em Engenharia de Computação, um entusiasta da literatura, música e expressões artísticas em geral. Retrata seus sentimentos e diversos momentos de sua vida através da poesia visceral, que vai de extremo a outro, despertando, acordando para questões sociais. Trabalhar em protótipos de livros sob temas existencialistas. Divulga entre os amigos e publica através de seu blog na internet (http://descemaisuma.blogspot.com), por onde tem obtido excitantes reconhecimentos de seus trabalhos, como por exemplo, a publicação de uma de suas poesias na edição de janeiro da revista italiana Multipoesia (www.multipoesia.it).”

BOM-DIA

Maldito seja, pesadelo doente
Que em meu merecido descanso irrompe,
Espancando-me ao peito, alucinando-me os músculos
Matando tudo dentro de mim.

Me derrama ondas de dores e desesperos,
Que me apavoram e me esgotam.
Meu corpo sucumbe.

Minhas pálpebras covardes garantem a incerteza da escuridão
Meu corpo moribundo tenta perceber a realidade
Gélido diante da ameaça da realidade ser o irreal

Descubro-me, pois, emaranhado em seu corpo macio e quente,
Nariz enterrado em suas mexas cheirosas,
Boca em um beijo eterno em seu pescoço umedecido.

Meus braços envolvidos com os seus em um abraço memorável
Nossas pernas entrelaçadas – alianças da nossa presença.
Suas costas esguias aconchegadas em meu peito
Compassam meu coração com sua respiração tranqüila.

Trago-te mais a mim,
Minha angústia alivia,
Meu corpo se entrega,
Minha mente desliga.

Choro meus medos
Esqueço a fatalidade
Brindo à realidade.

Você se aconchega,
Aperta meus braços,
Pede meu beijo.

Beijo-te, anjo do meu coração,
Com todo ímpeto de quem foi salvo
Direto das trevas para seus lábios açucarados.

Sinto seu cheiro, sua pele macia,
Seu amor flamejante, seu corpo inquieto:
“Bom-dia!”.

Rafael Castellar das Neves
São Paulo, 10 de julho de 2008.

IMPROVAVELMENTE…

E foi numa noite desta que o improvável deixou de sê-lo para tornar-se impossível.
E por improvável, história não pode ser, pois nunca existiu.
Existiu em mim e em mim foi verdade, foi futuro: improvável, impossível.
E em mim será lembrança, terna e eterna, sem permissão de ser minha própria história.
Talvez, vez ou outra, possa ser provável em meus sonhos. Sonho!
E quando tudo sucumbiu, entre poeiras e ruínas, pude ver a mim mesmo, novamente.

Rafael Castellar das Neves
São Paulo, 15 de janeiro de 2009.

À DERIVA

Atenta-te, nobre capitão!
Não vês que por águas traiçoeiras
Tripulas sozinho tua nave?

Acalmas o coração,
Aceitas a tua sina.
Não há como guiar-se,
Não estás numa canoa.

Teus homens já não estão,
Tuas velas em frangalhos,
Teus mapas borrados [queima-os e te aqueças].

As estrelas dançam uma valsa sarcástica
Sobre a densa névoa da madrugada.
Entrega-te à deriva.

Não adianta acenares o lampião,
O farol é intermitente e voluntário
E nesta noite não quer te responder.

Conforta-te, fizeras tudo que podia!
Beba teu rum, reze tua unção, salte da prancha,
Mas não espere pelo farol.

Nas rochas baterás antes do amanhecer.
Ninguém virá a seu socorro,
Talvez piratas ao que restar.

Náufrago nunca serás,
Pois já és cadáver, nobre capitão.

Rafael Castellar das Neves
São Paulo, 04 de setembro de 2008.

PALHAÇO

Cansado palhaço?
Com essa maquiagem não se pode saber.
Nunca se sabe como você está,
Cada dia é uma:

Lágrimas escorrendo de olhos tristes
Por cima de um sorriso invertido;
Ou olhos esbugalhados com pestanas altas
E uma gargalhada sem limites, rasgada.

Mas isso não importa,
Servem apenas para lhe esconder.
Esconder o que sente, o que é.

Os risos não vêm de suas acrobacias
Muito menos de suas habilidades,
Mas de seus tombos, dos tapas que toma,
Das decepções que encontra, da sua desgraça.

A corda bamba não pode atravessar,
Tem que cair.
Da cartola não pode tirar um coelho,
Tem que explodir.
Dos trapézios não pode rodopiar,
Tem que se misturar à serragem.

À desgraça está condenado, pois é palhaço!
Agora, sem maquiagem, personificado:
Saia deste espelho, assim ninguém lhe quer.
Nem eu!

Rafael Castellar das Neves
São Paulo, 05 de janeiro de 2009.

MOLEQUE DE RUA

Lá vai ele: menino moleque!
Vai feito barata às janelas dos carros
Que se fecham em desespero à sua presença.

Menino fedido, que de nariz escorrendo à boca
Lambuza as portas dos carros com suas mãos imundas.
Embaça os vidros dos carros com seu hálito malicioso.

Arrasta os pés encardidos, com dedos rachados e unhas gastas
Que tentam se esconder no que resta do chinelo de tira estourada.

Sua mão é ligeira aos olhos cuidadosos.
Sua língua é afiada aos ouvidos misericordiosos.
Sua face é tirana aos corações piedosos.

Leva essas moedas que não são suas.
Míseros centavos que nunca justificam sua existência
E ao menos compram seu veneno.

Deita moleque menino,
Estira ao relento esse corpo usado,
Talvez amanhã alguém lhe note,
Se o caminho atrapalhar.

Não se preocupe, menino sem nome,
Os jornais nada dirão,
Os números não mudarão,
Você nunca foi estatística.

Descansa menino imprestável,
Como você, outros virão,
Sua falta nunca será sentida,
Mas talvez de seus centavos.

Voa anjo pagão!
Seus pecados já foram pagos
Por todas suas vidas.

Rafael Castellar das Neves
São Paulo, 05 de agosto de 2008.




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Comentários

Olá!
Belas poesias, merecida a menção ao autor.
Grande abraço a todos,
Adh2bs

Oi,
Boa Noite!

Encantadoras palavras que tocam o íntimo e refletem sentimentos.
Parabéns Rafael Castellar.

Quero também ressaltar a minha admiração à esta revista eletrônica “Nós fora dos eixos” que é muito agradável e informativa. Bravo!

Abraços, Elisângela Manuel

Bravo poeta Rafael Castellar,
penso que embasando a explosão da tua sensibilidade estética, que entendi como sendo a de um existencialista, há uma convicção que não te deixa chegar a nenhum desespero definitivo, quando retratas as vivências trágicas dos mais desprivilegiados dos seres humanos. Talvez tu não estejas convicto, ainda, desse lastro que mora no fundo da alma humana. Se isso realmente acontece, faço votos de logo tomes consciência dessa força que move o mundo.

O palhaço sou eu.

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