Escritora do DF ganha concurso Cora Coralina na categoria Crônica

Alexandra Rodrigues, escritora ganhadora do Concurso Cora Coralina.

Alexandra Rodrigues, escritora ganhadora do Concurso Cora Coralina.

A escritora Maria Alexandra Militão Rodrigues, de Brasília (DF), foi a vencedora do primeiro lugar do Concurso Cora Coralina, com Uma Casa de Poesia, na categoria Crônica.  Na categoria Poesia, o vencedor foi José Walter dos Santos, de Pernambuco, com o poema Nesta era de Amazônia queimada. E na categoria Conto, o primeiro lugar coube a Ivana Ferrante Rebello e Almeida (MG), com Mãos de Doceira.

Também foram vencedores os poetas José Ricardo Selbach (RS), com o poema Carta de Quintana a Coralina, segundo lugar, e Maria Angélica Ferrasol (SP), terceiro, com Querida Cora. Na categoria Crônica, o segundo e o terceiro lugares ficaram respectivamente com Tatiana Alves Soares Caldas (RJ – A grande dama da floresta) e Pedro Lucas Lindoso (AM, O melhor amigo de Cora Coralina).
O segundo e o terceiro lugares na categoria Conto foram para Elias Araújo (SP,  Passagem pelo Amazonas) e Douglas Massamitsu (SP, A delicadeza é doce).  A seguir, a íntegra da crônica da escritora do DF Maria Alexandra Militão Rodrigues.

Alexandra tem dois livros publicados O nome das coisas, poesia (Thesaurus, 2004) e Minha avó botou um ovo, crônicas (Thesaurus, 2007).

UMA CASA DE POESIA por Garça do Lago

Disseram-me que era uma Casa poeticamente construída, das fundações ao telhado. O convite para visitá-la foi trazido pela brisa que folheava as páginas dos livros nela gestados em tempos antigos. Tempos de vida simples de cidade goiana do interior onde a vida circula, há mais de 200 anos, pelas calçadas estreitas de pedra e mistério. Casas iluminadas de branco por um sol limpo que raia o contorno das nuvens, janelas pintadas de fortes azuis, verdes e marrons.

Tinham-me dito que essa Casa da antiga Vila Boa exalava o odor da doceira que pacientemente apurava a palavra em tacho de cobre. E que eu não precisaria procurá-la. Ela é que me chamaria, do outro lado da ponte, na esquina da manhã. E assim foi. Reconheci a Casa de longe, emoldurada de azuis antigos que envolviam as janelas do tempo. Fui chegando perto, dividida entre o desejo de adentrá-la e o receio de manchar de prosa o recanto da Poetisa.

Vamos entrando – sussurrou a voz acolhedora da imagem feminina que se desprendia da cortina da entrada (uma espécie de sudário poético, despido de dores), levemente embalada pela brisa que corria dentro da casa. Na parede, o poema escrito por Cora no regresso à Casa da sua infância, após longos anos em São Paulo. É uma viúva que retorna à sua matriz, filhos criados, poesia encravada no ventre, em adiantado estado de gestação.

Não, eu não quero ser turista nessa Casa-museu, quero mesmo é penetrar o sentimento resguardado nas paredes desses cômodos simples, reler escritos antigos, de um tempo em que a mão e o papel se tocavam com o pudor de noivos. Um em particular, redigido com íntima caligrafia, mobiliza minha atenção. É um texto muito sentido, escrito pela poetisa em homenagem ao pai, pendurado junto à fotografia de um senhor de barba branca, majestosamente sentado em um cadeirão. E morto. (Era costume fotografar o patriarca falecido, coisa de uma época em que a morte não tinha tanta pressa de deixar a casa da vida).

No quarto de Cora Coralina, peço licença para pisar o chão do tempo. Meu olhar se encontra com os vestidos velhinhos, discretamente pendurados em cabides, perto da cama, que dorme tranquilamente na solidez da madeira. Que vontade de abraçar aquelas roupas simples que resguardaram uma solidão companheira, que sentiram as forças poéticas brotarem à superfície da pele e escorrerem até aquelas mãos fortes! Mãos que aprenderam a datilografar aos setenta anos para poderem registrar os poemas que haveriam de partir de Goiás até às mãos de Drummond e do mundo.

Chegamos à cozinha, de janela aberta para os verdes fortes da serra. Eu queria mesmo era sentar-me longamente diante do fogão a lenha, perto da mulher que mexia a panela dos doces para apurar a calda da poesia.  Exalar os odores que se desprendiam da lenha que queimava na alma daquela doceira da palavra. E aquecer-me com as achas desse fogo.

No porão da casa, o encontro com as memórias de Maria Grampinho, a quem Cora abrigava todas as noites para dormir. Mulher andarilha que percorria as ruas, recolhendo vestígios e sobras de uma cidade. A enorme sacola de Maria Grampinho – assim chamada por causa dos grampos que enfeitavam a parca vaidade de seus cabelos – dorme agora na eternidade da casa, assinalando uma época em que moradora de rua tinha acolhimento certo em casa de poetisa, para repousar das andanças do dia.

Quase saindo da Casa, sou enfeitiçada por um prato redondo, repleto de cacos de pratos antigos. Os cacos descansam sobre o aparador, conversando com uma época. Relembram um costume da infância de Cora, quando as crianças eram castigadas, tendo que usar um colar feito de cacos do prato que haviam quebrado – experiência que ela viveu na pele e imortalizou em poema.

Recolho singelos fragmentos da Casa de Cora Coralina, que  agora ostento com vaidade no colar da memória.  E despeço-me docemente dessa Casa de Poesia, eternizada na alma do Tempo.




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Comentários

Lindo demais ver todos os rios que se cruzaram na velha casa da ponte para nos encher de poesia e boa prosa. Obrigada.

Meus parabéns a Alexandra Rodrigues pelo prêmio à sua belíssima crônica sobre Cora Coralina.Meus parabéns, igualmente, pela instituição desse concurso, que é um incentivo a mais tanto à preservação da memória da grande poeta brasileira como à atividade literária de pessoas como Alexandra, professora da Faculdade de Educação da UnB.

Meus Parabens, pelo premio tão merecido, e muito obrigado pelos seus belos ensinamentos e pela persistencia em nos habituar a enxergarmos o mundo com lentes de poeta e com uma sensibilidade sempre a flor da pele!

Alexandra é uma poeta cronista de maior valor, cá no Plananto Central. Essa condução amorosa que nos leva a presença de Cora é uma dádiva. Que crônica encantadoramente maravilhosa, assim como Cora, assim como Alexandra.
Abraços

A sensibilidade de Maria Alexandra, que perpassa pelo cotidiano de suas ações pedagógicas, jorra em seus escritos. Parabéns e obrigada pela oportunidade de poder ter convivido contigo. Tenho saudades dos nossos encontros no espaço de convivência da FE, junto da Livraria da Rita/Hildebrando. Um abraço, Beatriz

Parabéns pelo prêmio, mais que merecido, querida colega e amiga Alexandra!

Bela obra, retrato da própria beleza de sua alma de poeta e coração repleto de bondade e alegria.

Com carinho,

Beth Rego

Parabéns pelo prêmio, mais que merecido, querida amiga Alexandra!

Bela obra, retrato da própria beleza de sua alma de poeta e coração repleto de bondade e alegria.

Com carinho,

Beth Rego

Professora Alexandra,

Parabéns pelo lindo trabalho. E parabéns à todos nós por termos uma professora como Alexandra Militão em nosso convívio. A casa é tão bela que Militão nos faz adentrá-la como poetas, como se já fôssemos íntimos do local.

Gostei demais. Parabéns pela sensibilidade. Nunca pensei que lembranças fossem tanto, marcadas.
Abraços e parabéns,
Jacques Velloso

Querida Alexandra:
Que belo encontro impensado: você e Cora Coralina. Imagino o quanto deve ter sido comovente a visita, afinal a crônica é encantadora! E, como você bem deve saber, o prêmio é só um jeito de dizer que o seu olhar atento e o punhado de palavras ternas que sua alma consegue expressar quando faz suas crônicas são incomuns, e sempre emocionantes. Um beijo.

Olá Alexandra

Parabéns!

Quanta delicadeza e doçura!

beijo
Rita Zan
(amiga da Clélia e Aparecida Timo)

Alexandra,
parabéns pelo prêmio!
Muito sensível a sua poesia. Viajei pela casa de Cora Coralina mesmo sem conhecê-la.
Um granmde abraço.
Edmilza (amiga de Clélia)

Alexandra, que linda crônica! Revisitei a Casa com a sua poesia! Maravilha!
Um beijo
Eugênia Lacerda

Querida tecelã das palavras, parabéns pelo prêmio e obrigada por continuares nos presenteando com tanto encantamento e sensibilidade. Adoro os teus escritos, eles tocam a alma. Grande abraço!

Querida Alexandra,
Já tivemos oportunidade de conversar sobre sua sensibilidade e seu profundo sentimento e respeito pela humanidade, traduzidos pela poesia.

Parabéns pelo merecido prêmio.
Um forte abraço,
Vieira

Alexandra

A emoção desse encontro inesperado com a intimidade de Cora Coralina, os objetos que lhe eram caros, as lembranças que conduziram a sua imaginação às situações vividas por aquela mulher goiana, sábia e poetisa, toda essa emoção, esteja certa, perpassa cada palavra sua, de forma poética, amorosa e bela, que nos emociona também.
Mais do que justo o reconhecimento público por esse ato de criação.

Um abraço afetuoso,
Eva

Alexandra

Parabéns, essa crônica me emocionou muito, sou goiano fui tantas vezes na casa de Cora e não tinha percebido os detalhes tão bem descritos, numa linguagem poética que enche o coração de alegria.

Parabéns.

Kesimar

Barro Alto – go

Eu também sou escritor, fico muito feliz em saber que pessoas de grande talento estão sendo premiadas por suas obras, isso é muito bom, pois o autor expressa sua criatividade nas suas próprias criações, eu sou formado em Letras e tenho grandes conhecimentos de literatura, escrevo contos, romances e novelas, estou enviando um pequeno conto meu que eu fiz, espero que gostem, logo sairá o meu primeiro livro de contos:

Pássaro Azul

Numa estação de trem todos estavam lá fazendo várias coisas, cada pessoa era diferente, mas todos estavam juntos e com o mesmo objetivo: pegar o trem, enquanto as pessoas esperavam o trem chegar, uma mulher pintava um quadro, um homem lia um jornal, um velho dormia no banco, um menino brincava de bola com seu amigo, outro soltava pipa, um rapaz conversava com seu amigo, e um escritor escrevia lindas poesias. Quando num momento lá no alto, apareceu o maravilhoso pássaro azul, com sua cor azul que se confundia com a do céu que também é azul, mas ele tinha uma cor linda que todos sabiam que era ele, em um momento ele desceu e ficou num galho de uma árvore, todos estavam encantados com a fantástica beleza desse lindo pássaro, e até o poeta fez uma linda poesia: “como és belo o pássaro azul, lindo que voa no mais alto das nuvens, que vem pra nos alegrar e nos dar mais felicidade…”

César de Araújo (escritor)

MARAVILHOSO!
Amei o texto. Voltei àquela casa através de suas palavras.
Eu e uma colega da escola em que trabalho estamos montando um projeto sobre Cora Coralina e gostaria de usar seu texto na exposição, é possível? Deixo meus e-mails para contato e agradeço imensamente se receber uma resposta.
Obrigada, ´

Elísia.
e-mails: elisia001@hotmail.com ou elmafigueredo@bol.com.br

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